Diário de Paris. Experiência 6. Chartres.

Embora a Região Metropolitana de Paris, denominada Île de France, seja extensa, Chartres já está fora de seus limites. No entanto, hoje, essa cidade centenária integra-se à grande metrópole, a uma hora de trem regional, compondo o que foi conceituado pelo urbanista François Ascher como ‘metápolis’, que compreende o espaço metropolitana, mais um anel que vai além dele, composto por áreas urbanas e rurais que estão sob sua influência direta na vida cotidiana.

A 91 km de Paris, Chartres está se tornando uma das escolhas de moradia da classe média alta de Paris, que pode viver sem estar todos os dias no centro da metrópole, mas, ao mesmo tempo, tem facilidade para chegar até lá, se for preciso.

Fonte: https://www.illico-travaux.com/agence/illico-travaux-chartres/

Falar em Chartres significa, imediatamente, remeter à sua catedral que, ao lado das catedrais de Reims e Amiens, é um grande símbolo da arquitetura gótica na França. Seu nome oficial é Cathédrale Notre-Dame de Chartres e já tem mais de 800 anos. Sua construção teve início em 1145 e foi concluída em 1221, mas teve que ser reconstruída após ter sofrido um incêndio em 1194. Tem mais de 10 mil m2 e sua inigualável nave central tem 130 m de comprimento, atingindo essa nave 37 m de altura, que impressiona ao lembrarmos que isso foi feito apenas com o cálculo da justaposição das pedras, visto que não havia concreto armado, tampouco se utilizava ferro fundido em construções.

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Catedral_de_Chartres#/media/Ficheiro:Monografie_de_la_
Cathedrale_de_Chartres_-_10_Facade_Meridionale_-_Gravure.jpg

Fonte: https://www.acamminare.com/catedral-de-chartres-franca-guia-completo-para-visitar/

Tudo impressiona nessa catedral: ela tem 3.500 estátuas, 9.000 personagens representados em altos relevos, vitrais, esculturas e pinturas. Suas 176 vidraças compõem o maior acervo de vitrais dos séculos XII e XIII. É objeto de grande curiosidade para os visitantes seu labirinto de 13 metros de diâmetro, o qual ocupa a nave principal.[i] Se você quiser, pode tentar chegar ao centro dele pela figura que está abaixo da foto, mas já adianto que é preciso paciência.

Fonte: https://cienciaconfirmaigreja.blogspot.com/2013/01/o-labirinto-das-catedrais-simbolismos-e.html

Externamente, o fato de que suas duas torres são completamente diferentes entre si foi o que mais chamou minha atenção. Gera um pouco de incômodo inicial, porque sempre se espera equilíbrio na arquitetura gótica, mas, depois, a gente assimila como um charme adicional.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Catedral_de_Chartres#/media/Ficheiro:Monografie_de_la_Cathedrale_de_Chartres_-_04_Facade_occidentale_-_Gravure.jpg

Sua entrada principal é maravilhosa pela riqueza dos sobrerrelevos esculpidos. Esta catedral foi catalogada como Patrimônio Mundial pela Unesco.

Fonte: https://www.acamminare.com/catedral-de-chartres-franca-guia-completo-para-visitar/

Fonte: https://www.historiadasartes.com/sala-dos-professores/catedral-de-chartres/#jp-carousel-5748

As fotos que eu fiz não são profissionais e a grande quantidade de turistas que visitavam a catedral torna-se uma dificuldade adicional para um bom click, mas servem para se ter uma ideia de sua beleza. As duas primeiras foram registradas a partir do outro lado do Rio Eure que corre por fora da antiga muralha. Foram tomadas da janela do apartamento que alugamos pelo AirBnB: a primeira no entardecer do dia anterior do dia 4 de fevereiro e a segunda na manhã do dia seguinte. As demais fotos ajudam a ter uma ideia da beleza da catedral que está, no momento, passando por recuperação que, ao clarear suas paredes seculares, deixa a luz que entra pelos vitrais iluminar, ainda mais, sua beleza.

Os vitrais são, de fato, lindíssimos, mas a mim chamam mais atenção as esculturas em alto relevo que ornam paredes internas e externas. Fico imaginando o tempo necessário para aque, a partir de uma rocha matriz, muitos homens dias e dias esculpirem estátuas e arabescos conformaram paredes imensas, tanto externas como internas, marcadas por um efetivo rendilhado, que me fazem agora ficar de boca aberta. Teria passado pela cabeça deles há mais de oito séculos, a quantas pessoas encantariam com seu trabalho? Provavelmente não, mas encantam!



A maior parte das esculturas é consagrada à história da Virgem Maria, mas há algumas cenas de cotidiano da Idade Média. Os escultores foram os mesmos de Versalhes, durante certo tempo, porque esse trabalho se prolongou muito além das vidas de seus artífices, pois a última fase do trabalho foi concluída em 1716.

No entanto, não é só de sua catedral que vive Chartres, ou que se vive nela. Ela tem cerca, atualmente, de 40 mil hatitantes é a cidade principal do Departamente Eure-et-Loire. Muito antes de a França existir como Estado Nacional unificado, essa cidade já era um núcleo urbano. Inicialmente chamava-se Artricum (palavra derivada do rio Autura, o atual Eure), depois foi elevada à condição de Civitas (que na hierarquia urbana romana gozava de maior importância), passando a chamar-se Carnutes, de onde se originou seu nome atual. Tinha aqueduto, anfiteatro, fórum e vários templos.

Em 858, foi incendiada pelos normandos que não chegaram a dominar a cidade. Durante a Idade Média foi sede de condado governado pelos Condes de Blois, Champagne e mais tarde Châtillon. Nos séculos XII e XIII, face à força e riqueza da igreja, ela viveu um período de apogeu, no que se refere ao seu patrimônio arquitetônico.

Sua história é longeva e cheia de idas e vindas, porque foi vendida à Coroa Francesa em 1286, no Reinado de Luis IX, foi entregue à família Orleans, mas em 1417 caiu nas mãos de ingleses, tendo sido recuperada em 1432, foi atacada por protestantes na sequência, mas recuperada por Henrique IV (1553-1610), aliás o único rei francês que foi aí coroado, exatamente na catedral famosa. Suponho que o ataque a que se refere a placa com o nome de uma das ruas de Chartres, é justamente o sofrido pelos protestantes. Não é ótimo uma rua que se chama “Rua da Brecha”, para fazer referência a uma ‘brecha’ aberta na muralha, por ocasião do ataque sofrido pela cidade?

Aliás, o que não faltam, na história de Chartres, são ataques. Durante a Revolução Francesa, a catedral foi atacada por uma multidão em ato anti-religão e, nessa ocasião, as placas de bronze que adornavam o centro do labirinto foram retiradas e derretidas para se fazer armas com fins militares.

Essa sobreposição de tempos e estilos traz muita graça para Chartres e torna o passeio por ela extremamente agradável: casas em enxaimel, como a que abriga o Centro de Turismo da cidade, estão lado a lado de construções do século XX e já convivendo com edifícios de vidro e concreto atuais.

Outra delícia em Chatres é percorrer o Rio Eure, que corre por fora da antiga muralha. Ao longo dele, até o século XX, localizavam-se indústrias têxteis e de vitrais. Hoje estão moradias tranquilas, alguns sobrados que devem ter sido recuperados e, talvez, sejam ocupados hoje pelos parisienses que resolveram sair da metrópole; outros pequenos prédios destinados a segmentos médios; um outro restaurante.

Se quiser uma dica de restaurante, com boa relação custo x benefício, sugiro a Brasserie Le Cathédrale. Achamos esquisito porque cathédrale, em francês como em português, é uma palavra feminina e seria La Cathédrale, mas enfim aí está a fachada dele.

Eu ia fazer, ainda, referência às bonitas vitrines do comércio de Chartres, mas vou deixar isso para um capítulo especial sobre o tema, misturando as fotos daqui a outras cidades da metrópole parisiense. Para encerrar, os vitrais modernos que mantêm a tradição de Chartres, enfeitando seu espaço público, e as pombinhas que passeiam, calmamente, no que sobrou da muralha que protegia a Chartres medieval. Apenas aproveitam o sol do inverno, uma raridade por aqui, sem saber dos séculos a partir dos quais essas pedras olham para elas.

Carminha Beltrão

Paris, 5 de fevereiro de 2022.


[i] Fontes das informações do texto: https://pt.wikipedia.org/wiki/Catedral_de_Chartres; https://www.guiaviagem.org/chartres; https://www.historiadasartes.com/sala-dos-professores/catedral-de-chartres/.

4 comentários em “Diário de Paris. Experiência 6. Chartres.

  1. Olá Carminha

    Você está num local histórico, de muita história! Eu visitei a Catedral de Chartres umas 4 ou 5 vezes. No entanto, foi na 4a. visita, na companhia da Silvana, Luciana e Miguel Angel que mergulhei no significado dos vitrais. O Miguel deu uma Aula Magna de História da Arte!..

    Muito obrigado por mais esta matéria… E, mantenha todo esse fôlego e capacidade de nos presentiar com suas narrativas qualificadas.

    abraços

    mmdospassos

    1. olá Messias, de fato, Miguel Angel, talvez por causa do irmão que era docente de História das Artes, sempre traz bons aportes nessas visitas. Obrigada pela leitura e pelos comentários.

  2. Carminha querida, mais uma vez agradeço pela delícia que é poder ‘madrugar’ num domingo pós chuvarada na provincia de Presidente Prudente e mergulhar na História e na beleza de um imenso cantinho da França, descritos com a delicadeza e competência que lhe são peculiares.
    Beijos com saudade,
    Tereza

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