O Ex-libris e Orleans

Não fosse o Ex-libris provavelmente eu não escreveria nada sobre Orleans, ainda que a cidade seja extremamente agradável e o final de semana tenha sido ótimo.

Acho que não estava esperando nada muito especial. Talvez porque, quando dissemos a um amigo francês que íamos passar o final de semana nesta cidade, ele fez uma expressão ao mesmo tempo indagativa e de reprovação, como se perguntasse a razão da escolha e, simultaneamente, já fosse dizendo, antes com o rosto e, em seguida, com as palavras que não valia tanto a pena.

O nosso critério não foi dos mais adequados para se selecionar um lugar interessante, eu admito, visto que pesamos o custo baixo da passagem de trem e a oportunidade de ir a uma cidade perto de Paris que ainda não conhecíamos, tendo apenas o final de semana para isso.

Passamos por ele, por volta de 12h30, num domingo em que tudo estava fechado e o frio estava gelando. Olhei pelo vidro e vi alguém que arrumava as mesas e em seguida acendia as luzes.

Ao meu lado estava a informação, numa plaquinha, que o estabelecimento estaria aberto 7/7 jours, ou seja, todos os dias da semana, das 13h às 20h. Continuamos a caminhada pela rue Royale, considerada a mais bonita de Orleans (cujos edifícios têm suas arcadas, cobrem as calçadas e mostram suas vitrines bem arrumadas), até chegar ao rio Loire. Aventamos a hipótese de voltar mais tarde, mas sem grande convicção.

A rue Royale é a principal e liga o centro de Orleans ao rio Loire, que banha a cidade e a divide em duas. O primeiro mapa dá uma visão de conjunto urbano e o zoom do segundo possibilita ver essa rua em continuidade à ponte.

Extraído do Google Maps
Extraído do Google Maps

Caminhando às margens do rio, demos boas-vindas ao sol que pouco depois das 13h revolveu dar as caras, o que tirou os moradores de dentro de casa. Ficamos lamentando que não haja tantas intervenções urbanas, com a construção de calçadões e a instalação de bancos e luminárias, ao longo de nossos rios, no Brasil. Seria ótimo, pois favoreceria esses tipos de passeio. É muito bom ver os moradores se apropriando desses espaços. Havia gente de todas as idades e de nacionalidades diferentes como os biotipos denotavam. Alguns de patinete ou skate, outros de bike, a maioria a pé, como nós.

No meio do passeio encontramos espreguiçadeiras que estavam ali à disposição. Voltadas para o rio, ofereciam a linda vista e o sol, aquecendo o rosto e o corpo para amenizar as temperaturas baixas.

Enquanto ficava ali, jacarezando como diriam os mais brincalhões, pensei na rue Royale e imaginei o rei entrando por ela na cidade, com parte da corte francesa, em várias carruagens. Talvez os nativos ficassem embaixo das arcadas para saudá-los.

Mais tarde fui olhar na Wikipédia, de onde retirei a foto superior em que a rua está iluminada à noite, e fiquei sabendo que é uma via do século XVIII. Sua abertura foi autorizada por Luís XV, em 1752, em documento em que foi recomendado que as fachadas fossem uniformes e as arcadas simétricas. Assim foi feito.

Extraído da Wikipédia

Depois da Revolução Francesa, essa via teve seu nome trocado para rue d’Egalité, mas recuperou adiante sua nomenclatura original. Sofreu durante a segunda guerra mundial com o bombardeio de 1940, seguido de incêndio, quando mais da metade das fachadas foi destruída. Depois, foi restaurada e segue elegante, sendo agora o eixo por onde circula um tranway, que liga o centro da cidade ao outro lado do rio, por onde as áreas urbanas mais recentes se estendem.

Voltando ao tema que origina esse texto, bem aí, na rue Royale está essa casa de chá convidativa à leitura, de que tanto gostei. Não era possível evitar: depois do passeio ao longo do rio, resolvemos ir até ela. Valeu a pena. Às vezes é difícil explicar por que um lugarzinho encanta tanto a gente. Quando penso nisso, tenho um duplo e contraditório desejo: revisitá-lo outras vezes ou nunca mais voltar para guardar na memória, quase intacta, a sensação tão boa que a primeira visita possibilitou.

Gostei tanto que fiquei com aquela inveja das boas, que não fazem mal a quem se inveja, porque são de admiração.

Perguntei-me como seu proprietário teve a ideia. Imaginei que pode ter sido mero acaso, decorrência de ser o dono do imóvel, não conseguir alugá-lo, razão pela qual acabou abrindo um negócio…; ou que tinha muitos móveis, livros e louças e não sabia o que fazer com eles, então…; talvez sua mãe tenha sido a primeira proprietária e por herança ele teve que continuar o negócio…; ou, muito solitário, pensou em alguma coisa que propiciasse ver pessoas diferentes todos os dias…; quem sabe teve no passado um bom emprego em Paris, mas tendo sido despedido ou tendo ficado cansado do mundo empresarial, resolveu chutar o balde e fazer uma coisa diferente…

Não importa o que o levou à abertura, se proprietário ou empregado, quais as razões que explicam essa escolha. Importa que ali está o Ex-libris[1], um lugar especial.

É pequeno sem ser apertado como 99% dos cafés na França são; tem um mobiliário agradável, sem parecer que saiu da capa de uma revista de decoração de interiores. Misturando algumas relíquias em termos de móveis e objetos com o vermelho, o ambiente fica despido de qualquer sisudez que a decoração antiga poderia levar a ter.

É composto de dois ambientes. Da cozinha que ocupa um pequeno canto no lado oposto à escada circular, é possível observar tanto a primeira sala, cuja porta dá para as arcadas da rua Royale, como a segunda, mais reservada, pois está separada pelas portas de vidro. Em cima, está no mezzanino, que não parece ser de acesso ao público, e que acho que pode ser onde o proprietário mora.

Os pequenos sofás acomodados na sala do fundo, tanto quanto as poltronas que ladeiam as mesinhas da primeira sala convidam à permanência. Um piano, pequenas escrivaninhas e mesinhas compõem o conjunto, com tantos objetos que teríamos distração para muitas horas se quiséssemos observar o valor histórico ou o charme de cada um.

Os móveis nos quais as louças estão expostas não tem nada de muito especial, mas compõem com elas um conjunto que remete ao passado, ao mesmo tempo em que traz uma boa sensação de conforto.

Pedimos um chocolate quente e uma fatia de bolo de limão. Ele trouxe numa bandeja de prata antiga e escolheu uma faiança branca (hoje se diria off White) e preta, que era um luxo de mimosa.  Aliás, o cardápio era singelo: dois tipos de torta doce, chás, chocolate e café.

Tocou o telefone celular, me levantei para me afastar um pouco e atender nosso neto, que queria saber de que países vieram seus avós e bisavós para uma lição da escola. O proprietário, de longe, vendo que eu falava outra língua, veio até mim, perguntando se era italiano. Eu expliquei que era português. Perguntou onde eu morava em Portugal, voltei às explicações, informando que era brasileira. Brésilienne? indagou com o olhar de admiração. Deve ter pensado “Ela vem de muito longe”. Voltou até a cozinha trazendo, em seguida, dois bules, um mais lindo que o outro, informando que eram os mais antigos do seu salão. Eu virei o celular e os mostrei ao Theo que, com seus oito anos, deve ter achado insólita a situação, afinal queria apenas saber de onde vieram seus antepassados.

Nas estantes, que abraçavam os ambientes, havia todos os tipos de livros. Eu me deliciei com um de decoração, encadernação bonita, papel couchet e fotos maravilhosas; Eliseu ficou com uma espécie de pequena enciclopédia dos 1.000 melhores filmes de todos os tempos e achou absurdo que não houvesse menção ao Pagador de Promessas que, afinal, ganhou o prêmio do Festival de Cannes, na França.

Havia publicações de todo tipo. Virei o rosto para o alto, logo ao lado da mesa onde ficamos, e encontrei Mozart ao lado de Gabriel Garcia Marques, e ali estava justamente o meu livro preferido: Cem Anos de Solidão.

Sobre cada mesa, havia um sininho de louça com o qual podíamos chamar o proprietário, que era também o garçon, o cozinheiro e estava antes das 13h limpando e arrumando tudo. O móvel que acomodava o aquecimento também era um charme…

Passamos umas duas horas ali, curtindo esse ambiente tranquilo e fazendo um tipo de turismo que é o de que mais gosto ultimamente – o dos detalhes, aquele que te propicia o inusitado. Como diriam as agências mais capricadas de hoje em dia: “viagens que oferecem experiências”. Neste caso, nada organizado por uma agência, mas resultado da sorte e de algum senso de oportunidade.

Com essa escolha, curtir a casa de chá e leitura, não chegamos a visitar o que vários sites recomendavam – a casa onde morou Joana D’Arc – hoje museu mas, passando por ela, aproveitamos para fotografá-la, bem como a estátua em sua homenagem, na praça principal de Orleans.

No final da tarde de domingo, o largo espaço público, em torno da estátua, estava cheio de gente. Aos pés da heroína francesa, indiferentes a ela, jovens treinavam manobras especiais em seus skates. Adoro essa mescla de tempos diferentes e modos diversos de usar o espaço!

No entanto, não é só do Ex-Libris e de Joana D’Arc que vive Orleans. Sua catedral está entre as cinco mais importantes da região central da França, pelo estilo gótico, pela altura da nave central, pelas pinturas e vitrais, alguns dos quais dedicados à grande heroína.

É difícil acreditar que a ergueram, apenas calculando a sobreposição das pedras, segundo ângulos tão perfeitos que a ogiva se manteria, sem haver ainda concreto armado e ferro fundido na construção. O gótico sempre impressiona!

No dia seguinte à visita à catedral, andando por uma das ruas da cidade, olhei para o lado e vi sua fachada lateral, em que uma torre central se destaca. Achei essa mais bonita que a principal, talvez pelo enquadramento dado pela pequena rua.

Caminhar pelas ruas de Orleans é muito agradável. O centro histórico está numa colina levemente acima do nível do rio, de sorte que não há aclives pesados. Ademais, o passeio é feito sem obstáculos, porque grande parte das ruas se tornou prioritária para pedestres. Por estarem revestidas de pedras graníticas muito desgastadas pelo tempo, é como se a sola dos nossos sapatos deslizasse tornando o passeio suave.

Algumas construções são bem antigas, feitas em enxaimel, outras devem ser do século XIX ou começo do XX. No conjunto estavam bem preservadas e tornavam mais atraente o passeio pelas ruas que se estreitam e se alargam conforme a disposição das casas.

Em frente à Catedral, abre-se a Rua Jeanne D’Arc (ela de novo), bastante imponente pela visão que oferece da magnífica igreja. Ao longo dela, o comércio se estende, com calçadas que convidam à caminhada. Em seu leito outra linha de tramway se impõe, e mais uma vez nota-se claramente a preferência pelos pedestres e pelo transporte público na definição dos usos dos espaços urbanos.

Na Place de Martroi, onde está a estátua da heroína no cavalo, essa rua se encontra com a Royale e o largo espaço livre possibilita que apreciemos o carrossel, uma marca das cidades francesas, e algumas construções muito bonitas que foram residências e agora são ocupadas por atividades comerciais e de serviços, integralmente ou, ao menos, no térreo.


Também gostei muito de visitar o museu instalado no Hotel Groslot, onde antes funcionava a prefeitura de Orleans. O mobiliário está bem preservado e os lindos vasos de faiança, que adornam a sala principal, chamaram atenção, ao lado dos desenhos dos papéis de parede e das grades.

No mais, na semana que todos se preparam para o fim oficial do inverno, Orleans já estava com os canteiros preparados para dar boas-vindas à primavera, com destaque para as amendoeiras.

Carminha Beltrão

Março de 2022

[1] “Ao contrário do que muitos pensam, o ex-líbris não é uma marca do autor em sua obra, mas uma etiqueta que se coloca dentro dos livros, como sinal de propriedade. Bastante utilizada por livreiros a partir do século XVI, o ex-líbris é um desenho que, eventualmente acompanhado por alguma frase em latim, identifica o proprietário do livro. Não raro, os motes continham um jogo de palavras, do tipo ‘Libro libertas’ ou ‘Seja livre o homem por meio dos livros’. Além de denotar preocupação artística, o ex-líbris tinha e tem por objetivo identificar o dono do volume em caso de desvio ou furto. Ainda hoje, na Europa, colecionam-se e permutam-se “ex-líbris” e, no Brasil, fundou-se no Rio de Janeiro, há poucos anos, a Sociedade de Amadores Brasileiros de Ex-líbris.” Fonte: https://biblioteca.pucrs.br/curiosidades-literarias/voce-sabe-o-que-e-ex-libris/

4 comentários em “O Ex-libris e Orleans

  1. Caríssima Carminha

    Muito obrigado por mais esta relevante, e muito bem elaborada matéria: parabéns!!!!!!!!!!!

    saudações

    mmdospassos

    1. Olá Messias, gosto de escrever e essas experiências têm sido bem interessantes. Acabamos tendo a oportunidade de ver as coisas de vários pontos de vista, Obrigada pelo comentário.

  2. Carminha querida, agradeço imensamente a oportunidade de mais uma viagem encantadora através desse texto leve, completo, esclarecedor e emoldurado por fotos lindas de espaços históricos e outros enternecedores.
    É um presente que permite que nossa alma, torturada pelos atuais governos, guerras e gente desumana, possa descansar, sonhar e voar.
    Você tem o dom de transformar um lugar, talvez desinteressante sob olhares outros como o de seu colega francês, em devaneios impagáveis.
    Parabéns e obrigada!
    Abraços saudosos.

    1. Teca, você é uma leitora assídua, isso ajuda muito quem escreve: imaginar que do outro lado (neste caso, de uma tela de computador) há alguém que, ao ler, “escuta nossa voz”. Obrigada

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