Copenhagen 1

København. Assim é chamada, pelos dinamarqueses, esta cidade tão especial. Vem sendo considerada a melhor para se viver no mundo e tem ganhado prêmios na área de design. Foi eleita a Capital Verde da Europa. Merece! Tudo por aqui parece light e cult.

Há políticas claras na Dinamarca e, por conseguinte em sua capital, para eliminar todas as formas de emissão de carbono até 2025. A energia eólica é uma fonte importante e foi considerado prioritária, por meio de investimentos em usinas para essa finalidade, desde que a Europa sofreu os impactos da elevação do preço do petróleo pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) nos anos de 1970.

Cerca de 15% da energia elétrica do país é oriunda da palha e de outros resíduos biodegradáveis. A energia solar é outra frente de investimento importante. Além da modalidade de painéis fotovoltaicos, também é produzida por meio de lentes e espelhos. O valor dessa escolha está no fato de que o sol brilha, neste país onde as temperaturas médias (médias viu?) estão nos 10ºC, praticamente a metade dos dias de insolação em Lisboa ou Madri[i], para adotar dois exemplos europeus.

Os prédios mais recentes, por força de lei, são obrigados a ter telhados verdes, com dispositivos para coleta da água da chuva, o que auxilia na manutenção da qualidade do ar[ii].

Para atingir as metas propostas também foi construída a CopenHill, uma usina que gera energia a partir de resíduos. Seu projeto arquitetônico é muito bonito e compõe o skyline de Copenhagen.

O que mais chama atenção na Copen Hill? É que, além de tudo, oferece várias opções de lazer: tem uma pista de esqui, uma trilha para caminhada, uma de suas paredes serve à escalada e seu teto verde não apenas embeleza, como possibilita menos absorção de raios infravermelhos. Veja o prédio de outro ponto de vista.

Em decorrência dessas várias iniciativas e de outras, se, em 1990, a maior parte da energia provinha da queima do carvão, em 2019 mais da metade já era eólica.

Ter e usar carro é extremamente out, enquanto andar de bicicleta é in, por isso há imensos estacionamentos para este modal de transporte. A maioria são bikes de duas rodas, mas há também as de três, quando são servidas por uma pequena caçamba frontal onde se acomodam as crianças. A opção das bicicletas de aluguel que estão disponíveis por todo lado, também é muito adotada e, pelo observado, não apenas pelos turistas.

Depois de Amsterdã, Copenhagen é a cidade com maior proporção de uso da bicicleta como meio de locomoção. Estima-se que 50% de seus moradores têm esse modal de transporte como o principal e a cidade tem 400 km de ciclovias[iii]. É bom lembrar que isso se refere a uma população no país que não chega a 6 milhões de habitantes, por isso é bom lembrar que o 10º. lugar da China neste mesmo ranking[iv], com 37% da população pedalando para ir de um ponto ao outro é, em termos absolutos, muito importante.

O engraçado é imaginar que onde hoje está esta cidade olhando para o futuro, desejando tornar-se totalmente sustentável, a ocupação humana teve início em 12.000 a.C., aproveitando-se do fato de que, com o fim da era glacial, estas terras ficaram habitáveis. Vários aglomerados humanos ali estabeleceram-se, mas ainda desenvolvendo atividades de subsistência muito rudimentares.

A chegada dos vikings no século VIII mudou muita coisa. As conquistas que eles empreenderam, a capacidade de construir navios e explorar os mares, levaram à expansão comercial. Eu não assisti, mas já ouvi boas referências à Série Vikings da Netflix (ou na Netflix, pois não sei quem a produziu).

Como cidade, Copenhagen tem sua fundação datada em 1167. Hoje tem um pouco mais de 600 mil habitantes que compõem os quase dois milhões de sua região metropolitana.

Também consta que a Dinamarca tem a monarquia mais antiga do mundo, instaurada pelo viking Harald Blåtand, cujo apelido era Dente Azul. Foi ele quem conseguiu unificar o país ao se apoiar na Igreja e iniciar a entrada do Cristianismo no país e para isso construiu uma cidade – Jelling – um complexo real vinculando o passado pagão ao presente.  

Uma estrutura naviforme com 350 metros de comprimento abrangia o túmulo do pai, Gorm (o montículo mais alto), e a primeira igreja construída defronte deste, com a forma oblonga de navio característica da época. Uma paliçada rodeava o complexo. Durante algum tempo, acreditou-se que no montículo inferior também se alojava uma sepultura, mas a sua escavação revelou que nunca foi usado. As moradias serviam sobretudo de alojamento a guerreiros. Os quatro edifícios do extremo superior foram localizados segundo os dados arqueológicos; quanto ao restante, a localização é provável[v].

Os poderes reais são hoje bem menores do que aqueles que o Dente Azul tinha, uma vez que a rainha Margarida II não pode interferir na condução política ou econômica do país. Nascida em 1940, é rainha desde 1972 e é considerada uma monarca moderna. É artista plástica e suas ilustrações apoiaram a representação de O Senhor dos Anéis.

A ligação entre o passado e o presente não está apenas na continuidade da realeza que liga Harald Blåtand a Margarida II, pois outra referência está na tecnologia Bluetooth, cujo nome se refere ao primeiro rei e à sua força, bem como seu símbolo também. O “B” decorre da união de duas ruinas nórdicas (Hagall e Berkanan) que representam as letras H e B no nosso alfabeto.

A história da cidade de Copenhagen é cheia de altos e baixos, como aliás a de muitas outras no Velho Mundo. No século XV, a frota de navios do país já era considerável e a cidade se destacava por sua posição marítima. A coroa cobrava então pedágio aos navios que passavam por ali. Não é à toa que a palavra København significa “cidade dos mercadores”.

Entre os grandes líderes, além do citado Harald Blåtand, destaca-se o rei Cristian IV, que foi coroado em 1596 e  apelidado de o “rei construtor”, pelo número de monumentos que foram erguidos no seu reinado – Castelo de Frederisborg, Biblioteca Real, Castelo de Rosenborg e Torre Rundetaarn.

Em 1728, a cidade sofreu um incêndio e queimou por três dias, o que levou à destruição de toda a cidade medieval. Somente no século XIX retomou seu crescimento e um dos marcos da nova fase da cidade são os Jardins de Tivoli.

Durante as duas guerras do século XX, o país procurou ficar neutro, ainda que os alemães o tenham ocupado. Estrategicamente, os judeus já tinham se deslocado para a Suécia que politicamente mantinha posição neutra.

A Dinamarca ocupa a Península da Jutlândia e as Ilhas da Zelândia e Funen, e a capital posiciona-se bastante excentricamente a leste, a um pulinho da cidade sueca Malmö.

A situação geográfica da cidade interfere diretamente em seu sítio urbano entrecortado por canais que são seu charme. Desse ponto de vista, lembra um pouco de São Petersburgo.

Mas, sobre os canais e outros pontos turísticos da cidade, escrevo mais um pouco adiante.

Carminha Beltrão

Maio de 2022

Fontes das fotos e do mapa


[i] https://pt.euronews.com/2017/04/27/dinamarca-usa-o-sol-para-produzir-energia-eletrica-e-termica-numa-unica-central.

[ii] https://energiainteligenteufjf.com.br/meio-ambiente/copenhagen-a-cidade-mais-sustentavel-do-mundo/

[iii] https://www.tudosobrecopenhague.com/bicicleta

[iv] https://top10mais.org/top-10-paises-com-mais-bicicletas-por-habitantes-no-mundo/

[v] https://nationalgeographic.pt/historia/grandes-reportagens/370-fogo-do-norte

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