Haveria muitas coisas mais para caracterizar Milão: sua gente elegante, seus parques, suas edificações do século XIX, os antiquários, as novas galerias de design. No entanto, no meio de tantas maravilhas, gasto minhas linhas com Il Duomo di Milano e La Galleria Vitório Emanuelle II.
As duas competem pela atenção das centenas de turistas que cruzam La Piazza del Duomo (o grande quadrilátero onde se assinala o M de metrô) e em seus arredores gastam seu tempo e dinheiro todos os dias.

Na piazza há uma estação de metrô e quase nenhum outro obstáculo que sirva de anteparo à nossa visão sobre uma das entradas da Galleria, ao norte, e sobre a catedral a leste da praça.
É preciso ter muita fé e ser muito cristão para apostar na ideia de uma construção tão magnífica que demorou 600 anos para ser concluída. Hoje esse espaço pode ter pouco de “sagrado”, com tantos que entram mais para fotografar (e haja selfies) do que para rezar, mas afinal o que leva gente de todas as religiões do mundo, mais ateus e agnósticos, a visitá-la não deixa de encantar, como se estivéssemos contemplando, como um filme que percorre o tempo, as várias gerações que a pensaram como um espaço divino. Ademais, com ou sem religião, ela é tão linda que merece mesmo ser considerada sagrada por isso: pela força dos homens que a idealizaram e a ergueram.
Você, leitor, achou que, por opor, ao sagrado, a ideia de profano, eu iria falar das principais ruas onde, no passado, praticava-se a prostituição em Milão, ou quem sabe faria referência às festas de rua, que 40 dias antes da Páscoa, comemoravam, no passado, a vida mundana antes de entrar no período de sacrifícios que exigia a Quaresma. Nada disso, refiro-me ao profano do mundo contemporâneo, aquele que nos remete ao grande prazer da sociedade atual – o consumo. Penso que a Galleria é um bom exemplo deste profano, cuja insaciabilidade é extensa porque não encontra repouso no corpo cansado, porque se realiza na mente e nos valores.
O Duomo é considerado a terceira maior igreja católica do mundo. A primeira é a de São Pedro no Vaticano, a segunda, a Catedral de Sevilha. Impressiona em muitos sentidos diferentes. Seu nome oficial é Cattedrale Metropolitana della Natività della Beata Vergine Maria.
Sua construção teve início no final dos anos de 1300, por iniciativa de um arcebispo chamado Antonio da Saluzzo, com apoio do Duque Gian Galeazzo Visconti.
Ela é absolutamente imensa, com mais de 150 metros de comprimento e 100 de largura frontal. Para suportar a altura de igreja gótica, num tempo em que não havia concreto armado, ela é composta por cinco naves, cuja altura chega aos 45 metros. Para sustentar tamanha extensão, a catedral tem 40 pilares. Nestes registros fotográficos que fiz é possível observar uma boa parte dos pilares e a altura das ogivas.
Todos as informações disponíveis nos guias fazem referência ao fato de que o estilo gótico não era comum na Itália e nem o preferido da sociedade de então, mas acabou sendo o escolhido, em decorrência da influência francesa, que era grande no período.
Em meados do século XVIII, a fachada do Duomo se apresentava como na figura subsequente. Observando a imagem é possível notar que ela cresceu e se embelezou muito nos dois séculos seguintes, pois se ela foi considerada finalizada em 1813, continuou a conhecer mudanças, como suas portas que foram trocadas e está constantemente em manutenção. Basta buscar imagens dela no Google e se percebe que há fotos em que a fachada aparece em diferentes tons, dependendo da proximidade maior ou menor dos anos em que passou por limpeza.
Por Marc’ Antonio Dal Re – The whole series of 88 engravings is online here: http://www.storiadimilano.it/repertori/pres_dalre/dalre.html, Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=1709257
Fonte: https://www.gettyimages.it/immagine/duomo-di-milano
Nos folhetos que orientam os visitantess, há informações de que ela tem três mil estátuas entre as externas e as internas. Um dos seus ícones está na sua torre mais alta – a Madonina – uma Nossa Senhora toda dourada que é o ponto mais alto do centro de Milão, não podendo nenhum edifício, nesta área, ultrapassar sua altura.
Fonte: https://en.wikiarquitectura.com/building/duomo-di-milano/
A catedral tem cerca de 40 vitrais. As minhas fotos ficam muito aquém da maravilha que eles são, tanto em tamanho, como na qualidade dos desenhos e detalhes de encaixes entre os vidros e ferragens. Daria para passar o dia olhando para eles.
Se eu tivesse que escolher um detalhe que adorei, ficaria com o piso. São vários tipos e cores de mármores e granitos, maravilhosamente encaixados, compondo a geometria que se repete harmonicamente. Ao se andar pela catedral é maravilhoso sentir na sola dos sapatos os diferentes desgastes que cada uma dessas rochas teve no decorrer dos séculos – os mármores geralmente mais desgastados conformam os baixo relevos, enquanto os granitos compõem os alto relevos.
Bem ao lado dela, como expliquei no comecinho deste diário de viagem, está a Galleria Vitorio Emanuelle II, cujo portal principal aparece na foto que segue, do lado esquerdo.

Fonte: https://www.receitasdeferdi.com/roteiro-de-milao-o-duomo-de-milao
Ela foi inaugurada em 1877 e tem uma formato de cruz, composta por dois arcos altos que formam abóbodas de vidro e ferro. Bem no centro, no cruzamento de seus dois eixos, há mosaicos que representam os continentes Ásia, África, Europa e América.
A sua construção decorreu de um concurso público para o projeto de uma galeria que fizesse a ligação entre Il Duomo e a praça onde está o Teatro alla Scala de Milão (Fonte: https://www.milaonasmaos.it/10-curiosidades-sobre-a-galeria-vittorio-emanuele/). Quem venceu foi o engenheiro Giuseppe Mengoni, a quem a placa, ao lado do seu portal principal, memoriza e agradece. Li, neste mesmo site, que ele caiu de um andaime e faleceu na véspera de inauguração da galeria que projetou. Que trágico!
Ao longo de seus dois corredores enfileiram-se filiais das principais marcas internacionais. Para a maior parte dos que a atravessam são apenas vitrines para serem observadas, porque os preços de uma bolsa Gucci, um vestido Prada, uma mala Louis Vuitton ou um terno Armani não são para qualquer um…
Aliás, podendo ou não podendo comprar, a gente pode admirar e, sinceramente, achei que, no geral, a moda das grandes griffes anda exagerada: a maior parte das peças expostas pareciam mais uma alegoria, mais para performances do que algo que se possa vestir ou calçar e se viver normalmente.
Estas duas fotos possibilitam observar a delicadeza do mosaico que compõe o piso da galeria – ele é lindo! Veja os detalhes na próxima foto.
Se bater o cansaço e a fome depois de se deliciar com Il Duomo e La Galleria, não hesite entre o sacrifício que o sagrado sugeriria e o prazer que o profano permite, escolhendo o segundo. Fique com um agradável almoço no La Locando del Gatto Rosso, um simpático restaurante que fica na Vitório Emanuelle, tem preços bem razoáveis e uma comida bem gostosa.
Carminha Beltrão
Março de 2023













