A traição

Ela nunca havia imaginado que, mesmo nesta estrada secundária, os restaurantes de postos de gasolina estivessem tão lotados na hora do almoço. O final de semana no sítio dos tios havia sido ótimo. Conversas, almoço de Páscoa, lembranças da família e as estrelas no céu, que eram possíveis de serem admiradas na área rural, fazendo sentir um gostinho de infância.

Agora, a volta à vida metropolitana significava enfrentar a fila para passar diante do buffet onde verduras, legumes, cereais e, depois, as carnes se enfileiravam, já mexidas por algumas dezenas de outros que por ali passaram na última hora.

A cada colherada, olhava para o canto do restaurante onde estavam os banheiros, na expectativa de que seu marido voltasse e ainda conseguisse se intrometer na fila, na sua frente, de modo a que pudessem sentar juntos para almoçar.

Nunca gostou de cenoura cozida, mas as opções eram tão poucas, que, diante da possibilidade de ter que comer chuchu, preferiu pegar mais uma colher do legume envolto em salsinha picada. Afinal era preciso encher o prato de alimentos pouco calóricos, antes de chegar ao arroz e ao feijão…. Ela vem há alguns anos querendo emagrecer, mas não tem jeito. Comer e beber uma cervejinha vêm sendo seus únicos prazeres já faz um tempo.

Quando chegou à balança, que indicou 830 gramas, adicionou à bandeja uma Brahma estupidamente gelada. Constatou que estava novamente postergando a dieta, mas sentiu-se aliviada, porque ele dirigiria os 200 km que restavam até a cidade onde moravam, razão pela qual ela podia beber um pouco. Olhou novamente para a entrada dos banheiros e nada dele aparecer…

Era, assim, nestas ocasiões em que ela insistia para estarem juntos, volta e meia, ele se demorava… e não havia como reclamar se seu intestino funcionava nas horas mais inesperadas.

Sentou-se e começou a comer. A cerveja desceu como veludo, suave, acariciando a garganta e, de algum modo, o coração. Não demorou cinco minutos para sua bexiga reclamar. Desde que entrara na menopausa, com 48 anos, entre beber e urinar eram apenas alguns minutos. Hesitou em se levantar da mesa, porque, se ele não chegasse, perderiam com certeza aquele lugar, perto do ventilador. O calor estava infernal, mas não daria para segurar muito tempo.

Pegou a bolsa e se dirigiu a passos rápidos para o banheiro, torcendo para não ter fila. Antes mesmo de entrar, suspendeu a túnica para abrir o zíper e adiantar a operação de se despir, que seria demorada, porque agora andava sempre com uma cinta calça, com a qual pretendia amenizar a protuberância da barriga que, após 4 filhos e muitas cervejas, estava cada vez maior e mais flácida.

Mal entrou no banheiro, deu-se conta que havia escolhido a porta errada. Seria engraçado, se não fosse trágico, pensou, ao se deparar com seu marido sem calças transando loucamente com um jovem musculoso e tatuado. Suspiravam tanto que nem se deram conta da chegada inoportuna.

Suas pernas amoleceram, o coração passou a bater mais rápido para compensar a pressão que caiu. As mãos se crisparam e as unhas feriam a pele fina e suada. Queria gritar, xingar, bater nele, mas não tinha forças para dar um passo, o que dizer para comandar a voz.

Em segundos, mudou de ideia. Não iria se humilhar, fazendo um escândalo, reforçando o tanto que já se sentia diminuída pela cena, que estava presenciando. Conseguiu dar alguns passos para trás e entrar agora na porta certa, a do banheiro feminino.

Encostou-se na parede gelada onde os ladrilhos antigos lhe causavam impressão de sujeira. Ficou aliviada de não haver ninguém por ali e correu para um dos cubículos onde se encerravam os vasos sanitários. Fechou rápido a porta, como se alguém, ao entrar, pudesse imediatamente ler no seu rosto tudo que estava sentindo.

O pequeno espaço não estava muito limpo, o odor do uso frequente a deixou mais tonta, o cesto cheio de papel higiênico usado causou náuseas, mas ela conseguiu baixar a cinta calça e, depois, a legging. Sentou-se, jogando todo o peso do corpo como se estivesse quase desmaiando.

Os últimos 30 anos passaram como um filme em flashs diante de seus olhos. O namoro com Ramiro, os conselhos de seus pais que não o achavam nada decidido para enfrentar a vida, suas iniciativas de levar adiante os pequenos comércios que foram montando no bairro – um bar, que virou um pequeno armazém…. o armazém que ficou sendo um pequeno supermercado, que se tornou loja de conveniência e, mais recentemente, entreposto de venda de gelo e carvão.

A cada crise, uma nova iniciativa, sempre dela, que paralelamente costurava ou cozinhava para fora, de modo a fazer algum dinheiro para enfrentar as despesas cotidianas da casa. Nunca entendia bem, porque parecia que o comércio ia bem, afinal tinham sempre clientes, mas o dinheiro que entrava no caixa nunca chegava.

Ela desconfiava que ele tivesse outras mulheres, chegou a pensar que poderia ser jogo, porque, vez ou outra, desparecia e voltava tarde da noite sempre com o bolso vazio, mesmo que o dia tivesse tido bom movimento comercial.

Com certeza o dinheiro estava sendo consumido em encontros como este que ela acabara de presenciar – jovens bonitos que se prestavam a transar com senhores maduros a troco de algum (ou será de muito?) dinheiro. Já tinha escutado histórias como esta.

Tirou o celular da bolsa, verificou que ele acabara de mandar um WhatsApp informando que estava no restaurante e não a encontrava. Não conseguia resolver como responder à mensagem. Passou pela sua cabeça não retrucar e sair andando pela estrada para nunca mais ter que olhar na cara dele… Mas estava sem dinheiro e sem cartão de crédito. Onde dormiria? Como chegaria em casa? E se não chegasse?

A raiva fez sua pressão arterial subir novamente. Começou a suar. O aperto do banheiro, o odor do local e a repugnância a Ramiro se misturavam como se ela fosse se afogar neste caldo de impressões, em que seus sentimentos se atolavam.

Tinha que fazer alguma coisa. Daqui a pouco seria anunciado no alto falante do restaurante que Ramiro procurava por Leonor e ela não queria passar pela vergonha de, ao sair do banheiro, ver todos os rostos se virarem para ela, só para confirmar se era a tal procurada pelo marido.

Pensou em ligar para sua filha Rosa, que ela queria que se chamasse Pamela, mas que Ramiro insistiu que levasse o nome da mãe dele. Arrependeu-se de não ter feito valer sua vontade. Alguns segundos depois, achou que, mesmo a filha tendo 24 anos, não era o caso de lhe contar algo assim por telefone. Se tivesse descoberto que Ramiro a traía com mulheres, estaria mais à vontade para chorar as pitangas para ela, mas ele estava se esfregando com um jovem que tinha provavelmente menos da metade de sua idade.

Lembrou-se da irmã Leocádia. Que ideia esta dos seus pais de darem, aos filhos, nomes iniciados com “L”? Depois de oito filhos, quando a nona nasceu, já não tinha mais opção que valesse a pena. Pobre Leocádia, viver em 2023 com um nome que mais parecia adequado a 1923. Era a mais jovem de todos e tinha uma cabeça aberta. A única entre as cinco mulheres irmãs que, ao perceber que o marido não valia um tostão, divorciou-se. Ela, Leonor, além de Leonice, Livramento e Linda, permaneciam tentando manter seus casamentos cada vez mais em frangalhos. E além de tudo, ela agora estava diante dessa verdade, que não conseguia decidir se deveria ser escancarada ou escondida a sete chaves.

Lembrou-se que, desde os 45 anos, não transava com Ramiro, que argumentava sempre que o cansaço dele e os sintomas da menopausa dela tiravam todo seu ânimo para a cama. Sua raiva aumentou, porque imaginou quantos jovens o pegaram por aí, em motéis, postos de gasolina, banheiros públicos etc. Lembrou quantas vezes se masturbou envergonhada de si mesma durante o banho. Esse prazer solitário nunca a satisfazia porque não compensava a indiferença dele, que doía, na carne e no coração.

Desistiu de telefonar para Leocádia, pois supôs que, rapidamente, ela acionaria um dos irmãos. Se chamasse Luiz, o mais velho, ele convocaria uma reunião de família para decidir como proteger a irmã e ter uma conversa séria com o sem vergonha do Ramiro… Ela passaria pelo vexame de tornar pública a sua situação.

Ocorreu-lhe telefonar para uma das amigas. Quem sabe alguém daria uma luz a ela que não conseguia, neste momento de choque, pensar com a cabeça, mas apenas com o fígado e o coração.

Talvez pudesse desabafar com Judith, sua vizinha de tantos anos. Juntas curaram os filhos de bebedeiras, enfrentaram filas no INSS, procuraram pelos preços mais baratos na Rua 25 de Março, quando tinham que comprar os presentes de Natal… Mas um assunto destes não era fácil. Era capaz de Judith comentar com seu marido Afonso. Não que Ramiro merecesse que ela se preocupasse com a reputação dele, mas estava mesmo era preocupada com a sua e não simpatizava com o esposo da amiga.

A raiva aumentou. Concluiu que estaria sendo mais fácil se tivesse pegado o marido com a Regina, considerada a gostosona do bairro, com seus vestidos de malha sempre justos e seu decote insinuante.

Lembrou de sua juventude, dos bailes no clube de Diadema, dos vestidos de viscose que faziam o efeito de uma seda, de como gostava de dançar e fazia sucesso no salão; a cintura fina, o gingado aprendido com o pai carioca, o perfume Cashemere  Bouquet que era parcimoniosamente usado nestas ocasiões… A raiva aumentou ainda mais, agora de modo mais contundente, porque não era possível voltar no tempo, não teria mais cintura fina, não deslizaria mais pelo salão com seus sapatos de salto alto…

Ia sair daquele banheiro, fazer de tudo para não esbofetear o Ramiro em público. Não poderia bater nele no carro, nem antes de chegarem em casa, afinal seria um perigo um acidente na rodovia… Não poderia também brigar com ele em casa, porque os filhos escutariam. Seria terrível para eles saber que o pai era gay. Seu pai, hoje com 78 anos, chamaria ele de veado, mas ela tinha que encontrar os termos certos, porque hoje não se fala mais assim e era capaz de, ainda por cima, sofrer um processo por calúnia.

Levantou-se, abriu a porta lentamente, foi até a pia e lavou o rosto onde as lágrimas corriam. Não tinha papel toalha para enxugá-lo, buscou um lenço de pano na bolsa e aproveitou para também suar o nariz.

Deixou o banheiro andando como um autômato. Ramiro estava acabando de almoçar tranquilamente. Seu ar de satisfação a incomodou mais ainda, mas não abriu a boca. Ao contrário do que ela teria feito, ele não perguntou por que ela se demorou no banheiro. A indiferença foi como mais uma fincada de um canivete que não parava de cortar sua pele, nos últimos 15 minutos.

Aguentou firme, antes de passar pelo caixa, quando pegou um pacote gigante de bala jujuba na expectativa de ocupar a boca mascando e não correr o risco de falar.

Se falasse, o que escutaria em troca? Que era isso mesmo, que ele gostava de jovens e homens? Que ela estava velha, que nunca gostou de sua pele, de seu cheiro? Pediria desculpas? Rogaria para que ela não contasse aos filhos, aos irmãos, aos vizinhos ou não estava nem aí? Contaria a ela com quem andou nos últimos anos? Acabaria dizendo que transou no pequeno armazém deles, atrás do balcão com um ou outro depois de baixar as portas? Ou ficaria absolutamente mudo, deixando-a, além de furiosa, desconcertada?

Os quilômetros passavam, a noite caía, os faróis começavam a incomodar no contrafluxo e ela não conseguia decidir onde e como entraria no assunto com ele. Nem conseguia supor o que faria de sua vida. Do que viveria se a pequena renda do comércio, que tinham, tivesse que se dividida para sustentar duas casas? Tinha que ter uma estratégia, desenhar um futuro qualquer por mais duro e solitário que ele pudesse ser, mas antes tinha que curar parte da dor imensa que sentia.

 Ao lembrar mais uma vez do prazer carnal que ele vinha sentindo há tempo e que ela havia presenciado hoje à tarde, concluiu que essa seria uma forma leve de traição, diante da dor maior de constatar que vicejou entre eles uma mentira que devia estar lá no começo, já na Lua de Mel.

Entendeu, então, qual é a cor verdadeira da traição: não tem muito a ver com o corpo, mas sim com a forma como uma parceria se desenvolve no tempo.

Deitou a cabeça no banco do carro, cochilou exausta e incapaz de qualquer decisão sobre “si”, depois de anos pensando que houvesse um “nós”.

Carminha Beltrão

Abril de 2023

Um comentário em “A traição

  1. Carminha

    Filha do seu Ernesto e da dona Zoila: geógrafa/escritora… qualificada escritora!

    Parabéns!!!

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