Uzbequistão 2 – A Tashkent de hoje

Quando somos turistas, aprendemos sobre os lugares pelos olhos e pelas ideias dos guias. São eles que nos mostram os pontos selecionados para o roteiro, que nos descrevem o que lhes ensinou outrem, bem ou mal, e misturam tudo com uma pitada das suas opiniões, sempre confiantes, conscientemente ou não, de que pouco ou nada sabemos sobre seus países, o que lhes dá o direito de escolher as cores e os tons com os quais vão pintar o quadro.

Nosso guia chama-se Bahram. Estava na escola básica ainda durante o período soviético e, por isso, aprendeu o russo. Como era obrigatório cursar outra língua estrangeira, a ele coube o espanhol, ainda que preferisse o inglês. Mais tarde desejou, para sua formação no ensino superior, a Arquitetura, mas como isso não foi possível, acabou fazendo Línguas Estrangeiras e aperfeiçoando o espanhol.

Trabalhou como professor, o que se pode constatar pelo modo como procura ser didático nas explicações, e atualmente atua apenas como guia turístico, durante quase todo o ano, de domingo a domingo, exceto nos dois meses mais frios do ano (dezembro e janeiro), quando as temperaturas chegam aos 20 graus abaixo de zero e, nos dois meses mais quentes (junho e julho) quando, segundo ele, mesmo à noite as temperaturas chegam aos 40 graus. Terá ele exagerado?

Fonte: https://www.dadosmundiais.com/asia/uzbequistao/clima.php

Acho que não, porque o gráfico acima representa as temperaturas médias e, portanto, as máximas e mínimas podem se comportar bem acima e bem abaixo do que está aí registrado.

Bahram, ao falar sobre o Uzbequistão, ao qual sempre se refere como “o meu país” tem uma referência temporal básica – antes e depois dos soviéticos. A cada explicação, ele encontra neste antes ou depois alguma justificativa que sempre apresenta como a principal.

Quando perguntamos se a economia vai bem, ele explica que os mais velhos são saudosos do período em que faziam parte da URSS porque os impostos eram mais baixos. No entanto, rapidamente, ele defende o governo pós-independência, uma vez que era necessário ampliar o orçamento para construir o país. Buscaram recursos em outras fontes, afinal a torneira soviética foi fechada, mas isso também demorou um pouco a vir, porque a Unesco, por exemplo, segundo ele, queria primeiro saber se era possível “confiar no povo e no governo deste país”.

Essa instituição teve papel importante nas últimas três décadas, já que muito foi investido para recuperar o patrimônio arquitetônico e artístico que havia sido produzido até a segunda metade do século XIX, antes dos russos, ainda os czaristas da Família Romanov dominaram esse território, para “evitar que os ingleses, que já estavam na Índia, viessem atrás do algodão produzido pelos uzbeques”.

É possível imaginar a importância que tem essa recuperação, que inclui edificações de até sete séculos atrás, no processo de construir uma identidade nacional. Afinal, depois de inúmeros domínios, com destaque para os persas, esses povos que compõem a família dos “quistão” (Quirguistão, Tadjquistão, Turcomenistão, Cazaquistão e Uzbequistão) compuseram a URSS.

Paquistão e Afeganistão ficaram fora do controle imediato russo, mas em relação àqueles outros do grupo “quistão” foram os soviéticos que os separaram e os delimitaram com fronteiras, em muitas situações definiram novas cidades para serem capitais e reprimiram a cultura muçulmana que lhes antecedeu. Se antes viam-se como etnias irmãs que ocupavam há séculos um território, passaram a ficar separados e, segundo Bahram, essa foi a estratégia soviética para dominá-los.

Entender-se como nação e país independente exige assim, eu imagino, muito trabalho ideológico, do que se justifica o antes e o depois, o meu país e os dos outros, o uzbeque a as outras línguas, mesmo quando sabemos que esse foi, apenas, o dialeto escolhido para ser o idioma oficial, tendo sido outros preteridos.

Os mais velhos têm saudades do tempo em que os serviços públicos eram gratuitos, pois, por exemplo, estudar hoje numa universidade pública custa em média dois mil dólares ao ano e, numa particular, cinco vezes mais. O acesso à moradia própria, segundo ele, é difícil para a maior parte da população.

Repito aqui o que lhe disse meu amigo João: “Bem-vindos ao capitalismo”. Ainda assim, parece haver um sentimento, entre os uzbeques, que ultrapassa esses percalços, que é o da autonomia que a independência trouxe.

No caso específico de Tashkent, pareceu-me, pelas explicações, que esse sentimento é ainda mais forte. Como capital moderna do país (a anterior era Samarqanda) e que sofreu um grande terremoto em 1967, outro antes e depois frequente apareceu nas explicações de Bahram. Esta cidade representa muito do que tem sido investido em favor da criação de um novo país, hoje bastante ocidentalizado na paisagem e um pouco também nas práticas sociais.

Ainda assim, a herança soviética está presente, por meio de iniciativas que marcaram de forma profunda a cultura, com o alfabeto e a língua, e a estrutura urbana com as avenidas largas e o metrô.

Ele começou a ser projetado em 1969, logo após o terremoto, na primeira fase de reconstrução da cidade, para a qual acederam vários estrangeiros, como parte do processo de seu soerguimento. Hoje, os uzbeques que compreendem o grupo mulçumano compõem cerca de 90% da sociedade, mas há cristãos (de vários países do mundo), cristãos ortodoxos (os russos) e os judeus que, afinal, estão por todo o mundo.

Atualmente, o metrô tem 48 estações que servem a cidade e já teve início a expansão de uma linha que deve ir além da cidade central e servir por trem de superfície os bairros mais distantes.

Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Tashkent_Metro

Eu gostei do desenho das linhas, especialmente da circular interna e da externa que unem as linhas radiais. Especialmente a circular maior é muito importante porque possibilita que haja deslocamento de um bairro ao outro, sem passar pelo centro. É o que desejamos para São Paulo e mesmo para o transporte urbano por ônibus para as cidades brasileiras, mas está difícil de chegarmos lá.

Logo na nossa primeira tarde em Tashkent, ainda sem o apoio de Bahram, que apenas nos acompanhara do aeroporto ao hotel, fomos conhecer o metrô.

As estações são muito bonitas e lembram, neste aspecto, as de Moscou. Os lustres são suntuosos, as paredes são revestidas de mármore, os mosaicos coloridos e, nos tetos, os sobre relevos brancos rememoram a influência da cultura árabe.

Nos sopés das escadas rolantes, havia umas espécies de pequenas cabines, de onde uma funcionária vigiava o uso do equipamento e dava explicações a quem pedisse. Supus que pode ser alguma herança do período inicial, quando essas escadas deviam ser muito modernas ou perigosas para a maior parte da população.

Do ponto de vista de uma primeira aproximação com a sociedade, chamou atenção que, a cada vez que entramos no vagão (fizemos três pequenos trechos), os jovens rapidamente se levantavam e, com gestos, ao verem que não entendíamos sua fala uzbeque, insistiam para que nos sentássemos. Foi inevitável lembrar que esse tipo de atitude está desaparecendo no Brasil, ainda que eu sinta sempre aquele desagradável incômodo de tomar consciência que os outros me veem como “idosa”.

No dia seguinte, perguntamos a Bahram qual a mais bonita estação de metrô de Tashkent. Ele pensou um pouco para responder e disse: “Cosmonautas”. Fui procurar no Google e achei que ele tem bom gosto. Os medalhões nas laterais homenageiam os astronautas russos que cruzaram o espaço sideral, desde um pouco antes dela ser inaugurada.

Fonte: https://www.advantour.com/rus/uzbekistan/tashkent/metro.htm

Fonte: https://pt.dreamstime.com/estação-de-kosmonavtlar-tashkent-usbequistão-uzbequistão-julho-metropolitana

Olha aí meu marido e meu amigo tentando descobrir, por meio do mapa e das inscrições nas estações em alfabeto cirílico, para que lado deveríamos tomar o trem e onde descer.

Nas ruas, o trânsito em Tashkent é movimentado. A maior parte dos carros é relativamente moderna, mas nem sempre as regras são obedecidas, o que exige que os pedestres, em algumas situações, mesmo na faixa, tenham que acenar com a mão para avisar que estão passando.

Em volta do nosso hotel, o Hampton assinalado com o alfinete vermelho no mapa, toda a área urbana é muito cuidada.

Há uma sensação de segurança, tanto porque afirmam que não há qualquer tipo de violência no espaço público, como porque está tudo limpo e os jardins estão extremamente bem cuidados. Há vários prédios públicos, com atividades governamentais, museus, centros de eventos etc. Um deles praticamente ao lado do nosso hotel também mostra a herança árabe com seus sobre relevos na fachada.

Os heróis, eleitos pelos uzbeques, também estão pela cidade, como Amir Tamur que significa Rei Amur (mais conhecido como Tamerlão, que é o aportuguesamento de Tamur, o coxo, pois ele era manco). Viveu entre 1336 e 1405 e foi, de fato, um conquistador deste território. Sua origem é turco-mongólica e durante sua vida reuniu largas extensões de terra sob seu poder, as quais em muito ultrapassam o atual território uzbeque.

Com o passar dos dias aqui, vou verificando a enorme importância desse personagem na formação da identidade uzbeque.

Carminha Beltrão

Abril de 2023

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