Uzbequistão 3 – A Tashkent de ontem

A visita principal que os turistas fazem, em Tashkent, é a que compreende o complexo, que eles chamam de Khaste Imon. Podemos nomeá-la como cidade antiga ou histórica.

O espaço está super bem cuidado e com um paisagismo agradável, pois entre as construções históricas e as novas, há jardins com poucas espécies arbustivas, dominando as gramíneas, o que nos possibilita ter sempre um horizonte relativamente largo, ou seja, quando estou visitando uma das edificações, consigo ver as demais. Essa visão de conjunto que nunca temos nas cidades medievais, bem menos monumentais, agrada muito aqui em Tashkent.

Bahram, nosso guia, explicou-nos que, durante o período soviético, as edificações antigas, em função do caráter religioso da maioria, ficaram abandonadas e, em volta delas, havia casas com gente vivendo ali. A partir da independência, essas moradias foram sendo compradas, demolidas e, nos espaços reunidos para compor áreas maiores, foram sendo plantados os jardins e criados os caminhos que interligam as joias do patrimônio uzbeque. Paralelamente, as edificações foram sendo recuperadas e impressiona muito a capacidade que tiveram de em 32 anos, desde a Independência, de realizar esse trabalho que é demorado e custa caro.

A arquitetura histórica aqui do Uzbequistão me agrada muito, porque é linda a combinação entre os tijolos à vista, os azuis e os verdes dos azulejos que adornam fachadas e cúpulas, com toques de dourado. Os tijolos à vista são de uma cor mais amena, que os avermelhados que temos no Brasil, um tom entre o ocre claro e o acinzentado, em função da semi-aridez do clima da Ásia Central.

Como grande parte das construções perdeu-se com o tempo, em função de três aspectos ao menos – a pouca durabilidade dos tijolos, o descaso dos soviéticos e, por fim, o terremoto que abalou Tashkent em 1967 – o que vemos hoje é, em grande parte, reconstrução feita, tal e qual as originais, ainda que haja parcelas das paredes e dos azulejos que remanescem do passado. Internamente, a proporção da remodelação é menor, porque o tempo não atingiu tanto os materiais construtivos como externamente.

Começamos a visita ao complexo pelo Mausoléu do Sheikh Zaynudin Bobo que foi um sábio e divulgador da ordem sufi conhecida como Suhrawardiyya. Viveu durante o século XII, seu mausoléu foi construído no século XVI e reconstruído no final do século XIX. Trata-se de uma construção pequena, comparativamente às demais que compõem a área, mas é singela tanto pela composição arquitetônica como pela sua finalidade tão especial – dar abrigo a um sábio.

Se o pequeno mausoléu não impressiona muito por fora, encanta internamente pela delicadeza e qualidade dos acabamentos. No teto, os sobre relevos são lindos. Parte do forro, os batentes, as portas e as colunas são de madeira, e são, também, adornados com fina marquetaria. Dos lustres dourados, emana um ambiente caloroso e íntimo. No cantinho, uma mesinha e dois bancos, lindos pela combinação entre as cores.

É bonito saber que a homenagem a Zaynudin Bobo não se deveu apenas a seu conhecimento sobre o Alcorão, mas também porque tinha ele um “espírito científico”, como explicou Bahram.

Além de sua tumba, outras menores estavam ali e correspondiam a contemporâneos a eles que aprenderam consigo e os admiravam.

Neste mausoléu, está exposto um livro com o Alcorão, o Usamna Qur’na, original do século VII. As páginas são feitas de pele de carneiro e ele está protegido por um vidro para mantê-lo em condições térmicas estáveis. Não há autorização, sequer, para fotografar o documento histórico, mas sinceramente o que me interessou mesmo foi a decoração do pequeno ambiente.

O complexo ainda é formado por uma madraça antiga, outra em funcionamento, uma mesquita e uma biblioteca que está em construção.

Como mostra a foto com o guindaste trata-se de outra construção magnífica que deverá ser destinada, sobretudo, à guarda de documentos históricos, mas onde haverá também um acervo mais amplo, com obras contemporâneas.

As madraças são um ponto alto nas cidades antigas do Uzbequistão e o devem ser em outros países do mundo mulçumano, mas eu nunca tinha ouvido falar essa palavra, por isso fui atrás de uma definição mais precisa, do que a que o nosso guia ofereceu:

“Um madraçal ou uma madraça (em árabe: مدرسة; romaniz.: madrsâ; em francêsmédersa) é uma escola muçulmana ou uma casa de estudos islâmicos.

A palavra deriva do árabe madrsa, por vezes transliterada como madrassa ou madrasa, palavra que em árabe originalmente designava qualquer tipo de escolasecular ou religiosa (de qualquer religião), pública ou privada. Em línguas ocidentais como o inglês, o espanhol e o português, porém, é comum ser o vocábulo atualmente utilizado para se referir apenas às escolas religiosas islâmicas, também denominadas escolas corânicas.

Nessa acepção, um madraçal típico normalmente oferece duas possibilidades de estudo: hâfiz (memorização do Alcorão) e âlim (que proporciona o reconhecimento de pessoa erudita pela comunidade).

A base curricular habitual de uma madraça inclui cursos de língua árabe e o ensino da xaria (o Direito islâmico)tafsir (interpretação do Alcorão), hadith (narrações do profeta Maomé), mantiq (lógica) e história do Islão.”

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Madraça

Visitamos três madraças (em alguns sites eu vi escrito também madrassa) em Tashkent e elas são muito parecidas entre si. São, via de regra, uma construção quadrangular ou retangular com um grande pátio interno. Pelo portal principal acede-se a este pátio, para o qual se viram portas e janelas de todos os ambientes, já que elas não se voltam para fora, segundo nosso guia, para não distrair os estudantes.

As salas maiores são destinadas às orações (uma pequena mesquita), às aulas e aos professores que ali vivem, os quais possuíam além dos aposentos para descansar, uma espécie de antessala com estavam com seus estudantes. Como sou professora e pesquisadora, enxerguei-me no século XI ou XII num desses ambientes, e tive saudades de um passado que não experimentei, mas, em poucos segundos, lembrei-me do quanto é importante a universalização e a adoção do ensino laico e fiquei feliz de trabalhar hoje e ministrar aulas em salas maiores e para pessoas de todas as classes sociais.

Nas madraças, os cômodos menores, que eles chamam de celas (como nos conventos e monastérios católicas e nas prisões – qualquer semelhança é mera coincidência) são destinadas aos estudantes, que ali residiam enquanto faziam seus estudos. Algumas têm dois andares. Pelo número de celas e com a informação de que cada uma abrigava até dois alunos, logo constatamos que as maiores madraças tinham algo como 80 estudantes simultaneamente, mas a maioria não passava de 40.

Em Khaste Imon, visitamos a madraça Kafal Shohi. Na foto, com um zoom, você poderá ver, nas paredes de tijolos: – os originais que tem um tom pouco mais escuro; – os que foram adicionados para recompor as edificações, que são mais claros e homogêneos.

Bahram explicou-nos que, muitas vezes, os novos foram colocados na frente dos antigos, como uma segunda parede, para evitar que a original desmoronasse. A beleza dessas construções é demais, no entanto, o uso deste material deixa-as muito mais vulneráveis ao desgaste do tempo do que, por exemplo, as catedrais góticas erguidas em pedra.

As cúpulas encantam pelo tom lindo de verde esmeralda e pelo brilho que os ladrilhos proporcionam. Funcionam como imãs para o nosso olhar, adicionados os enfeites em ladrilhos desenhados que estão na coluna que as sustenta (ver na foto anterior) e o acabamento dourado no cume da própria cúpula.

Uma cela era pequena, como se pode ver na foto seguinte, e chama atenção como a porta era baixa, o que não sei se tem a ver com o fato de os humanos tinham, no passado, estatura menor ou com a concepção desse espaço como fechado ao mundo externo.

Também conhecemos, fora do complexo, duas outras madraças – Kudeldash e Abdulkarim. A primeira funciona hoje como escola, na qual tanto se pode estudar o Corão, como outras disciplinas, entre as quais, segundo nosso Bahram, inclui-se até as tecnológicas.

Nesta madraça, chamou atenção o fato de que havia celas com portas e janelas viradas para fora e que ela é uma das grandes com dois pavimentos.

Como está em funcionamento, não pudemos visitar o pátio interno, mas justamente no horário em que ali estávamos, escutando as explicações de Bahram e fazendo registros fotográficos, via-se o movimento de saída das aulas.

Alguns estudantes saiam e desciam a escadaria, em direção a outros destinos, mas a maioria se dirigia à mesquita ao lado (na foto à direita, é a construção em branco com as cúpulas verdes) para a oração do meio do dia. Em pouco tempo, dezenas de estudantes saíam da mesquita. Impressionou muito o número deles, alguns carregando embaixo do braço o pequeno tapete que levam consigo para se ajoelharem durante as orações.

A última madraça vista nesta cidade foi Abdulkarim, que fica afastada do centro histórico, numa área mais nova onde se localiza também a edificação que abriga a Câmara Legislativa Superior, que deduzi se tratar do Senado do Uzbequistão (a conferir).

Essa madraça é uma construção também de grande porte, com dois pisos, mas menos adornada que as outras. Já por volta de 14h30, com as temperaturas elevadas, seu pátio interno estava pouco movimentado, o que ajudou a fazer um registro fotográfico melhor.

Fonte: http://www.traveluzbekistan.uz/tour/index.php/en/sights-of-tashkent/915-abdul-kasim-madrasah

Do que eu não gostei das madraças? Da opção uzbeque de abrigar em cada cela um pequeno comércio voltado aos turistas. Eles retiram a opção de vivenciar esses espaços e podermos nos transpor no tempo ao passado, imaginando como ali viviam os estudantes, o que a visita a esta última madraça propiciou, já que por ser mais distante, ter menos turistas e ter sido visitada num horário de muito calor, favoreceu experimentar alguns instantes de calma, com os comércios fechados com seus comerciantes cochilando pelos cantos.

Bahram justiçou inúmeras vezes a presença desse tipo de estabelecimento, como uma condição para ajudar a financiar a reconstrução das madraças, mas não me convenceu com seus argumentos, porque acho que geram um trânsito tão grande de pessoas e uma descaracterização do ambiente que é mais prejudicial que benéfica. Enfim, os espaços de estudos viraram lugar da mercantilização (com tanto ensino privado no mundo atual, qualquer semelhança é mera coincidência). Olha que eu gosto de comprar artesanatos de outras culturas, mas a oferta era tanta e havia tal nível de estandardização, que não dava nem ânimo de selecionar algo que valesse a pena. Ademais, nada tem preço e você tem que perguntar ao vendedor, fazer a conversão e começar a regatear, um pouco em inglês, um pouco em sei lá que língua mais.  Isso dá um trabalho!

O dia 28 de abril de 2023 foi pleno de aprendizados. Nem consigo acabar esse diário em um só capítulo. A mesquita e o mercado ficam para o próximo.

Carminha Beltrão

Abril de 2023

2 comentários em “Uzbequistão 3 – A Tashkent de ontem

  1. Carminha

    Muito obrigado pelos textos: estou viajando com vocês, ou seja, de carona nos seus excelentes textos.

    Muito obrigado

  2. Oi Messias, acho que você e Silvana também gostariam dessa viagem. O mundo árabe, com pitadas da Rússia, e hoje bem ocidentalizado agrada pela mistura de influências;

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