Uzbequistão 4 – Tashkent entre o Oriente e o Ocidente

Fonte: https://brainly.com.br/tarefa/38329488

Como eu já tinha escrito sobre a Tahkent de ontem e a de hoje, fiquei procurando um título que pudesse designar o que ainda desejo descrever agora sobre essa cidade.

Primeiramente, veio-me a ideia de algo como “Entre o passado e o presente”, já que quero contar tanto sobre a mesquita e o mercado, dois fatos sociais bastante longevos, como sobre um espaço chamado Magic City, significativamente ‘moderno’. Depois me ocorreu que pudesse ficar bem “A cidade que permanece, as paisagens e os conteúdos que se alteram”, mas logo achei muito parecido com algum artigo que, como pesquisadora da área urbana, eu pudesse ter escrito.

Ocorreu-me, então, “Tashkent entre o Oriente e o Ocidente”. Em todas estas opções, meu modo de organizar o pensamento neste título estava bem binário, mas fiquei com o último, mesmo sabendo que as coisas no mundo são mais relativas ou dialéticas do que quaisquer opostos podem exprimir.

Lembrei-me, na sequência, de algo que eu havia lido sobre esse assunto há um tempo e me deparei, após colocar a frase no Google, com muitas opções de links a partir dos quais o tema pode ser abordado. Fiquei com a de Boaventura Sousa Santos. Eu sei bem, caro leitor, que não é um bom momento para uma mulher citar o famoso cientista social português. Afinal, ele vem sendo acusado de assédio e não devemos reforçar quaisquer práticas deste tipo, mas depois me lembrei que seria melhor não condenar as suas ideias, em princípio, em função das hipóteses, bem fundamentadas ou não sobre as suas práticas.

Estou separando o homem das suas ideias? Não seria uma contradição? Talvez, mas como gosto das ideias dele, estou me dando esse direito. Aliás, adorei um texto sobre este assunto e personagem escrito por meu amigo Marcelo Lopes de Souza…

Tanto trololó para refletir sobre um título, mas é assim: quando começamos a escrever perdemos o controle sobre o modo como as palavras e as ideias vão se encadeando pelos dedos das nossas mãos. Avaliem vocês mesmos que me leem se eu não tenho razão de não deixar ficar na geladeira as ideias do Boaventura:

Tal como acontece com os pontos cardeais norte e sul, o oriente e o ocidente são muito mais que orientações geoposicionais; são dispositivos culturais, conceitos, metáforas, que exprimem imagens positivas ou negativas, que só se entendem ao espelho umas das outras. As imagens positivas envolvem ideias de superioridade, originalidade, fascínio, harmonia, civilização, beleza, grandeza; ao passo que as imagens negativas invocam o inverso desses qualificativos. As imagens assentam em binarismos, mas combinam por vezes ideias contraditórias como, por exemplo, fascínio e horror. A construção das imagens depende sempre do ponto de partida, oriental ou ocidental, de quem a faz. A longevidade da contraposição ocidente-oriente na cultura e nas relações internacionais é de tal ordem que se transformou num arquétipo, uma espécie de inconsciente colectivo jungiano que aflora na consciência sob múltiplas formas, sempre que as circunstâncias propiciem. Talvez estejamos a entrar no período em que este arquétipo irá ser provocado a aflorar; por essa razão, a relação ocidente-oriente merece ser revisitada.

 Boaventura Sousa Santos

 Fonte: https://sul21.com.br/opiniao/2022/05/o-oriente-e-o-ocidente-por-boaventura-de-sousa-santos/

Não tenho nem expertise para revisitar a relação ocidente-oriente, como propõe o autor, nem intenção de fazer isso neste texto, apenas quis escrever algumas palavras sobre esse título e ponto final. Vamos à Tashkent novamente.

Escrevi um pouco, no capítulo anterior deste Diário de viagem ao Uzbequistão, sobre Khaste Imon. Expliquei que este complexo compõe o que se poderia conceituar como cidade antiga, mas faltou fazer referência a um elemento muito importante desta área urbana que é a mesquita. Ao lado do mausoléu, da madraça e da biblioteca em construção, essa mesquita impõe-se na paisagem urbana do processo de renovação desta área, após a Independência Uzbeque em 1991.

Nosso guia turístico, que agora eu descobri que se chama Bakhram e não Bahram, disse que esta mesquita pode acolher até 4000 mulçumanos rezando ajoelhados, simultaneamente.

Inicialmente, tive que vestir uma túnica (tem um cabide com várias na entrada, mas eu não recomendo que adotem essa opção, porque elas cheiram a dezenas de visitantes anteriores) para cobrir os braços e a cabeça e mesmo assim não pude aceder ao local das orações, tanto porque não podemos perturbar a concentração de quem ora, como porque não há espaço reservado para as mulheres nesta mesquita e elas nunca compartilham o mesmo ambiente que os homens nestas ocasiões. Pelo biombo, dei uma olhadinha na sala de orações.

Aliás, não era somente eu que estava espiando.

Como em outras edificações do patrimônio arquitetônico uzbeque, predominam os azuis com pitadas de dourado. Aqui na mesquita o branco também comparece compondo uma paleta de cores que passa a ideia de tranquilidade, em contraste com o movimento de pessoas que estavam do lado de fora, sejam os turistas que sempre andam como se procurassem algo, sem perceber o que está ao lado, como os uzbeques que se apressam para realizar as tarefas do dia, entremeando o seu uso do tempo com as orações.

Os desenhos geométricos da decoração interna, combinados com representações da natureza, sobretudo flores e folhas, compõem um conjunto muito harmônico e, ao mesmo tempo, leve. Para mim, essa estética agrada muito embora eu não seja fã dos dourados no geral, mas penso que ela se distingue bastante do barroco brasileiro, por exemplo, em que o excesso de ouro mais impressiona do que sensibiliza.

Logo na entrada da mesquita há uma placa com a indicação dos cinco horários diários para oração. Perguntei ao guia se todos cumprem esse ritual diariamente e ele respondeu de modo reticente, explicando que sempre que possível isso era feito.

Em cada um destes horários, a oração deve demorar de um a três minutos. Não me perguntem o que está escrito em uzbeque na placa, apenas aprendi que cada um destes horários tem seu nome próprio.

A visita ao Mercado Oriental de Chorsu foi muito agradável. Nessas situações, aproximamo-nos mais da vida cotidiana local. Embora haja turistas perambulando por ali (eles estão por todo lado), os vendedores e parte grande dos que estão adquirindo alimentos são uzbeques.

O mercado é gigantesco, composto por uma grande construção circular, onde estão dispostas as bancas de carnes, temperos e doces; um anexo grande, no qual se acomodam os que vendem frutas, grãos, legumes e pães; dezenas de barracas num pátio externo, onde se vende de tudo um pouco, passando por roupas, eletrônicos vindos da Índia ou da China; tapetes produzidos industrialmente…

A variedade dos temperos me fez lembrar com saudades do Bazar de Istambul, que espero rever no final desta viagem, pois estaremos nessa cidade por dois dias. O mais utilizado na culinária uzbeque pelo que me foi explicado é o cominho, embora o açafrão em fios fininhos me pareça sempre o mais bonito.

O setor de pães é um dos maiores. Há várias mesas em que eles estão dispostos, havendo alguns mais temperados e outros menos. Nosso guia fez questão de comprar um para que pudéssemos experimentar e, embora a aparência dele, redonda e com casca bem lisa, passasse a ideia de um pão denso e pesado, a massa interna é muito leve.

Na lateral da área de vendas de pães, está o setor de produção, onde vários homens preparam a massa, esticam, atirando de um lado para o outro, como fazem os melhores pizzaiolos, para depois alçá-la com maestria ao teto do forno. Isso mesmo, embora seja um forno como os de pizza, a massa não é assada na “chão” do forno, mas sim no “teto” dele e isso já indica como a massa é leve.

Infelizmente, não consigo passar aqui, por meio desse diário, o delicioso perfume do pão assado, com leves temperos, que pairava pelo ar e aguçava a fome, já que era meio do dia.

As frutas e legumes impressionam pela qualidade. A maior parte é produzida em estufas, com muita irrigação, já que, embora a porção leste do Uzbequistão seja composta de uma planície fértil, a maior parte do território é árida ou semiárida. Fiquei me lembrando de outros mercados e feiras livres que já visitei ou frequentei e não me lembro de tanta limpeza, variedade e qualidade (talvez, as melhores feiras livres de São Paulo assemelhem-se a este mercado, nos dois últimos quesitos). Adorei os tomates que têm forma que é arrematada por um biquinho, como se fossem os seios de uma jovem.

Na maior parte das bancas trabalham mulheres, embora nas que vendem carnes sejam os homens. Ali, observei bem os tipos físicos do povo uzbeque e, embora haja alguns de pele amorenada e traços mais fortes, parecidos aos do turco, predominam as feições da porção mais centro-leste da Ásia. As mulheres, no geral, têm um rosto que lembra o tipo chinês, mas seus olhos, ainda que puxadinhos, são maiores e seus traços mais suaves. Acho que são tantas misturas que é difícil descrever. Algumas completamente trajadas obedecendo os princípios muçulmanos de se “guardarem seus segredos”, como sempre repete nosso guia que está orgulhoso de sua filha ter feito essa opção, outras já estão vestidas sem a cabeça e os braços cobertos, mas no geral todas são discretas no que se refere ao comprimento das saias ou exibição do colo e dos braços. Não importa a opção religiosa e de vestimenta, o celular está por toda parte.

Ao entardecer, por sugestão de nosso amigo João, fomos conhecer a Magic City, por onde havíamos passado pela frente, de van, durante o dia. Foi essa visita a que mais me sugeriu a tendência à ocidentalização da cultura uzbeque. No geral, Bakhram faz referência negativa à influência russa no Uzbequistão e isso é compreensível, afinal foram eles os dominadores durante cerca de 70 anos de URSS. Não houve referências negativas à guinada em direção às grandes marcas globalizadas, ao modo de vestir do Ocidente e até às fantasias que têm origem neste lado do mundo. Logo percebemos que a Magic City é o espaço de diversão da população local, pois embora houvesse turistas por ali, como nós, eram proporcionalmente poucos.

Logo na entrada da Magic City deparamo-nos com o grande aquário que imita a estética arquitetônica das edificações históricas do Uzbequistão, mas parou por aí. Na frente, num enorme palco, alguém do Partido Social-Democrata falava ao microfone fazendo referência ao plebiscito, que ocorreria em 30 de abril, para mudar aspectos da Constituição Uzbeque, sob o patrocínio da Pepsi-Cola.

As ruelas que adentravam à city remetiam a Veneza, à Itália ou outros países que, em muitas situações, eu nem consegui identificar quais são.

Marcas como L’Occitane, Nike ou Lego atraíam as famílias que por ali passeavam e que curtiam os fast foods também ocidentais. A foto que se segue é homenagem aos meus netos que adoram um Lego, como pareciam as crianças uzbeques que, encantadas, olhavam a vitrine.

Todos aguardavam o show de luzes e jatos de água sincronizados com as músicas que se sucediam – algumas estadunidenses, outras italianas (Bella ciao, por exemplo) e uma parte, que calculo que sejam uzbeques (estas se parecem com as que escutamos na Índia).

Fonte: https://www.afisha.uz/ru/gorod/2021/08/16/fontan-magic-city

Ali jantamos e passamos uma noite agradável, o que mostra que, dentro de todos nós, mora um desejo de Disneylização da vida.

Desculpem-me a palavra meio feia, mas o que pensei que fosse um neologismo, ao procurar por outra expressão melhor no Google, encontrei uma conceituação na Wikipédia e vi que os sociólogos já cunharam essa expressão:

No campo da sociologia, o termo disneyficaçãodisneyização ou ainda disneylização, descreve a transformação comercial das coisas (por exemplo, do entretenimento) ou de ambientes em algo simplificado, controlado e “seguro” — uma reminiscência da marca Walt Disney (como suas mídiasparques, etc.)

Acho que nunca mais terei a chance de voltar ao Uzbequistão, afinal essa é uma viagem longa e cara. Ademais, sempre há outros lugares novos para se conhecer. No entanto, se eu tiver essa chance, daqui a 10 anos, talvez, conclua que o Ocidente venceu.

Por outro lado, como nada é totalmente previsível, há que se “pagar para ver”, ou seja, esperar o tempo passar, ler e ter outros elementos para uma avaliação melhor; afinal esse é apenas o olhar superficial de uma turista que deseja sempre ser viajante.

Carminha Beltrão

Abril de 2023

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