Uzbequistão 5 – Samarqanda, a capital do império

O percurso entre Tashkent e Samarqanda (estranho “q” sem “u” não é mesmo?) foi feito por trem de alta velocidade, uma herança do período russo.

As duas estações eram bonitas e bem conservadas e viajamos de modo muito eficaz,  com conforto e rapidez.

Foi bom sair da capital e ver como se organiza o espaço rural.

No que se refere às paisagens naturais, predominam os tons amarelados e ocres por causa do clima semiárido; nas áreas de agricultura, em função da irrigação, tudo está verde.

O país destaca-se pela produção de algodão, mas neste trecho o que mais havia era o cultivo do trigo, já que aquele será plantado no começo do verão no hemisfério norte, fazendo, portanto, alternância com o valioso cereal, com base no qual grande parte da humanidade alimenta-se cotidianamente com o pão.

Havia também, aqui ou ali, oliveiras e alguns homens pastoreando cabras ou ovelhas.

Chamaram atenção os lugarejos por onde passamos. Se chegarem a ter o estatuto administrativo de cidades, eles seriam pequenas cidades, mas a maior parte se assemelhava a aglomerados humanos ligados à vida rural. Viajamos por mais de meia hora, o que em TGV significa mais de 100 km, passando por áreas em que se mesclava ocupação adensada, como pequenos núcleos urbanos nos arrabaldes de metrópole (Tashkent tem cerca de 3 milhões de habitantes), com ocupação do tipo rural. Ao longo da ferrovia e, depois em trecho que descreverei em outro capítulo, pela rodovia, há sempre muito comercio, desde pequenas barracas que vendem frutas, legumes ou comida pronta, até armazéns de material de construção ou pequenas indústrias. Com menos gente, esse tipo de ocupação me fez rememorar a que eu vi na Índia. A distinção entre o urbano e o rural é menos clara no mundo asiático que no mundo, dito, ocidental.

Durante o percurso, também constatei o testemunho do período russo tanto nos conjuntinhos de casas geminadas, que se alongavam ao longo da ferrovia, tendo sempre na frente um pequeno terreno com cultivos diversos, como nos edifícios de poucos andares, mas com muitas unidades habitacionais, que estavam a uns 500 metros mais ou menos.

As fotos não ficaram nada boas, por causa da velocidade do trem e do seu vidro duplo que causava reflexo, mas oferecem uma rápida ideia do tipo de habitat que predomina.

Ao chegar a Samarqanda, confesso que fiquei bem decepcionada, porque todas as minhas expectativas eram de encontrar uma cidade histórica, no sentido que conhecemos como tal no mundo ocidental.

Imaginava que andaria pelo seu sítio histórico, vivenciaria as ruas do passado, poderia sentir um ambiente urbano antigo e, portanto, mais correspondente à escala humana que à dos carros.

Foram precisos três dias para passar de uma lógica espacial à outra e aceitar o diferente.

Como vou procurar mostrar neste e no próximo capítulo, a Samarqanda muito antiga é, em parte, o que está no museu e num sítio arqueológico ainda pouco pesquisado. No mais, trata-se, mais da recriação do passado de glória da cidade, com a reconstrução de várias edificações que remontam ao período de Timberlão e aos séculos subsequentes, que não compõem uma área única que pudesse ser reconhecida por mim como o centro histórico da cidade.

No mais, é uma cidade de cerca de 500 mil habitantes, com avenidas largas, tráfego intenso e construções que devem ser, em grande parte, dos últimos cinquenta anos. É capital da província (viloyatlar em uzbeque) de mesmo nome, o que lhe confere papeis administrativos. Como fica num vale mais fértil, pela sua posição entre duas cadeias de montanhas, o trecho entre Samarqanda e Tashkent distingue-se pela riqueza agrícola em contraponto a outras áreas desérticas do país.

As edificações da cidade revelam uma mistura entre as formas pesadas que caracterizam o período soviético; elementos da cultura europeia, trazidos também da Rússia, mas especialmente de São Petersburgo, Leningrado durante o período soviético; outros da cultura árabe e turcomana que são caros para o povo uzbeque.

Tudo isso está misturado na Samarqanda de hoje com os novos empreendimentos, como o Brilliant Centre, que me chamou atenção pelo nome e pela extensão da área a ser edificada. Neste caso, já se observa, na paisagem urbana, a influência urbana ou arquitetônica estadunidense. Resolvi até visitar as páginas do empreendimento e fiquei surpresa com a altura das torres de apartamentos que serão construídas.

Fonte: https://www.facebook.com/brilliantcity/

Fonte: https://www.facebook.com/brilliantcity/

Por enquanto, vamos deixar para lá essa a Samarqanda do futuro próximo e voltar ao passado.

Para entender por que ela é um destino turístico tão especial, é preciso sintetizar um pouco da sua história. Vou me apoiar no que li em vários sites, bem como no que contou nosso guia Bakhram, por isso a miscelânia que vou fazer não merece créditos científicos, mas serve “para dar uma geral”, como diríamos em português do Brasil.

Vamos lá: talvez tenha havido um aglomerado humano nesta área desde o século VIII a.C., no entanto não há ainda, segundo nosso guia, pesquisas arqueológicas suficientemente extensas e conclusivas sobre o tema, para afirmar quando a ocupação teve início. À parte, as controvérsias e dúvidas sobre essa origem, foi no tempo do Império Persa que este assentamento humano se tornou importante já como uma espécie de capital de um território regional.

Alexandre, o Grande, esteve por aqui e dominou essas terras e sua gente em 329 a.C. Depois o aglomerado foi governado por líderes iranianos, turcomanos e mongóis, neste último caso, no Reinado de Gengis Kan, em 1220.

Essa sequência de domínios, que também se reflete em influências políticas, nas formas de organização social e na cultura, no caso de Samarqanda, explica-se por sua ótima situação geográfica, pois está a meio caminho entre a China e o Mediterrâneo, o que a tornou um ponto importante na Rota da Seda, razão pela qual chegou a ser a maior cidade da Ásia Central.

O nome dado ao primeiro aglomerado sobre o qual há já algumas escavações feitas, é Afrosiab e seu sítio está incorporado na atual Samarqanda. Observando a foto do mapa exposto no Museu da Cidade Antiga Afrosiab (aliás, vale a visita), chama atenção a extensão da rota que ia do Extremo Oriente até a Europa e o norte da África (volte lá na fotografia do trem de alta velocidade que corre no Uzbequistão e observe que ele é batizado em homenagem à Afrosiab).

Faça um zoom na foto, se quiser ver, no oeste da representação cartográfica, a cidade de Istambul, que foi capital do Império Romano do Oriente e, por isso, neste mapa, está indicada como Rum (relativo a Roma); veja também Iskandariya, ou seja Alexandria no Egito e Damasq, a atual Damasco da Síria. No extremo leste da rota, lá está Xonballq, a atual Pequim. Vejam que Samarqand está bem no meio do caminho.

Além esta situação geográfica tão especial, no contexto geográfico asiático e, talvez, também por causa dela, em 1365, foi a escolhida pelo Rei Timur, o Tamerlão, para ser a capital do seu império (Timúrida).

Talvez, você leitor, como eu, nunca tivesse ouvido falar dele, mas veja no próximo mapa a extensão que esse senhor conseguiu dominar, compreendendo territórios que vão desde a Turquia até a Índia atual, incluindo o Irã, parte do Iraque, da Síria e dos países da família do “quistão”.

Fonte: https://furibe.com/timur-langtamerlan-la-dinastia-timurida/

Dá para compreender, então, por que ele é sempre lembrado pelos uzbeques e sua imagem está em pelo menos três estátuas gigantescas no país: uma em Tashkent (ver o finalzinho de https://carminhabeltrao.wordpress.com/2023/04/30/uzbequistao-2-a-tashkent-de-hoje/), outra em Timur, a cidade que tem seu nome, e a que está na foto que se segue, em Samarqanda.

Fonte: https://www.pinterest.es/pin/323203710756293123/

Foi ele que tornou gloriosa esta cidade, em função dos investimentos para a construção de seu mausoléu, o Gur-i-Amim, da Mesquita de Bibi Hanim (assim batizada em homenagem à sua primeira esposa), da Praça Reguistão, que corresponde ao que eles compreendem como centro histórico da cidade, além de outras obras monumentais.

Com o esfacelamento de seu império, que apenas durou cerca de 100 anos, pois as gerações seguintes dividiram o território e não tinham o espírito guerreiro de liderança de Timur, Samarqanda remanesceu, nos séculos subsequentes, mais em função de seu papel comercial, mas, entre 1925 e 1930, foi a capital da República Socialista Soviética, até que o poder administrativo passasse para a nova capital Tashkent.

Desde 2001, Samarqanda, que significa “cruzamento de culturas”, foi reconhecida como Patrimônio Mundial pela Unesco.

Aliás, para se compreender Samarqand é necessário observar os “5 Ms”, como eles falam por aqui – madraças, mesquitas, mausoléus, minaretes e mercados. Vamos escrever um pouquinho sobre isso tudo, mas principalmente mostrar as fotos que dizem mais que mil palavras. 

O mausoléu de Timur, denominado Gur-i-Amim, é uma das construções mais lindas da cidade e, segundo o que pude ler sobre ele, tem influência de diferentes culturas e civilizações do Islão. As paredes internas são ornadas com mosaico de faiança, produzidos com técnicas persas, as partes com inscrição fazem referência a Maomé e a Alá.

Adorei ver os estudantes em fila, preparando-se para visitar o mausoléu, com seus uniformes à moda antiga, calça ou saia e gravata preta junto com a camisa branca. As meninas numa fila, os meninos em outra, dando para notar que as classes não são mistas. Gostei também dos chapeuzinhos que portavam com eles.

A suntuosidade do mausoléu fica evidente em sua decoração interna. Segundo o guia, a parte inferior é apenas dourada e a superior é efetivamente de ouro. Aliás, em uma de suas explanações, ele informou que o país tem muitas jazidas deste metal precioso.

Lindo demais, não é?

Não me perguntem o que está escrito nas paredes do mausoléu, mas as letras do alfabeto árabe lembram, como disse uma querida amiga, bailarinas. No geral, são versos com princípios mulçumanos.

Durante muitos séculos, apenas escritos e desenhos geométricos eram utilizados na decoração das edificações; mais tarde vieram os desenhos associados à natureza, primeiro do mundo vegetal, folhas, galhos e flores, e, depois, do mundo animal, como leões e grandes pássaros, por exemplo.

A representação de figuras humanas, em desenhos ou pinturas, não era permitida entre os mulçumanos, razão pela qual, antes de haver fotografias, não ficaram registros da aparência de muitos dos grandes personagens da história destes povos. Aliás, no caso de Tamerlão, isso foi possível, por causa de um estudioso que, vindo do ocidente, e tendo conhecido o grande guerreiro e conquistador, fez um desenho dele que, séculos depois, foi recuperado possibilitando que haja alguma segurança sobre a imagem do Tamerlão, agora imortalizada em bronze em tamanhos excepcionalmente grandes, quando comparo as estátuas dele que estão em Tashkent e Samarqanda às que temos nas cidades do mundo ocidental.

Ainda na lista dos mausoléus, Samarqand destaca-se pela Necrópole de Shakhi-Zinda (ou Shohizinda ou Chah-e-Zindeh), erguida entre os séculos IX e XV. Para uma visão de conjunto, preferi duas fotos profissionais. Na sequência, estão as minhas. Vejam na primeira que, ao lado do monumento histórico, há um cemitério mais recente.

Fonte: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/92/500px_photo_%2856183834%29

Fonte: https://www.advantour.com/es/uzbekistan/samarcanda/shahi-zinda.htm

De fato, este complexo é uma necrópole edificada onde terá sido enterrado um primo do Profeta Maomé. Hoje é visitado tanto por turistas, como por peregrinos religiosos.

Este complexo é composto de duas pequenas mesquitas e cerca de vinte mausoléus. Ao final da visita ao complexo, entrei para visitar uma das duas pequenas mesquitas, com a cabeça coberta e com todo respeito, e lá encontrei outros turistas. Trata-se de um espaço de uns 30 ou 40 metros quadrados, portanto bem pequeno comparado a outra mesquitas que visitamos. A sala tinha bancos de todos os lados, o que era ótimo para se ter um apoio com a finalidade de fotografar o teto (são sempre lindas as cúpulas internamente). No que eu estava buscando o melhor ângulo, várias pessoas saíram e, dei-me conta, então, que se iniciava um canto dramático, como uma oração e, ali estava o senhor que cantava, outros que acompanhavam, um casal que julgo que são alemães, porque os vi conversando na saída, e essa escritora chinfrim, que lhes rabisca algumas linhas.

Fiquei discretamente observando, mas logo aquele que cantava percebeu que os três estranhos ao mundo muçulmano não acompanhavam seu canto com os gestos que os demais faziam (um passar de mãos no rosto e na cabeça, como se quisessem jogar fora ideias ou sentimentos…). Parou, então, de cantar e nos pediu, meio rispidamente, que saíssemos. Como eu poderia saber que era exatamente a hora da oração deles? Será que havia alguma inscrição na entrada, indicando horários de visita interditada, que me passou despercebida?

À parte esse episódio, que não deixou de ser pitoresco, registro que o estilo arquitetônico do complexo se assemelha ao de outros monumentos históricos com os azuis e verdes predominando nos azulejos das paredes e nas lindas cúpulas. Como sempre o contraste com os tijolos valoriza ainda mais o brilho deles. Acede-se a este ambiente por meio de uma enorme escadaria. Percorre-se uma viela interna, ao longo da qual, dos dois lados, há mausoléus.  

Tanto os portais como as cúpulas são muito bonitos e estão bem conservados. Internamente, o mausoléu que mais apreciei é o de Shodi Mulk Oko, que era sobrinha de Tamerlão. Disse nosso guia, que este é o único que tem iluminação natural, por meio de janelas no alto da edificação, porque a moça tinha medo de escuro. Se há veracidade nesta explicação, não sei, mas a entrada de luz distingue positivamente este dos demais mausoléus do complexo.

Sobre os demais “M” – especialmente maçadras e mesquitas – escrevo alguma coisa mais no próximo capítulo.

Carminha Beltrão

Abril de 2023

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