Uzbequistão 7 – Bukhara, uma cidade de alma persa

Agora sim, eu estou numa cidade histórica do único jeito que eu imaginava que elas poderiam ser. Em Samarqanda, havia ficado decepcionada por não haver uma parte bem delimitada do espaço urbano que eu pudesse reconhecer como sítio histórico, já que as edificações mais importantes estão dispersas pelo atual espaço urbano e localizam-se, inclusive, fora da área urbana. Em Bukhara, ao contrário, há uma cidade histórica, cujas feições mantêm-se no plano urbano atual.

Como todas as parcelas de espaço urbano que remanescem do passado, elas são compostas, como bem conceituou Milton Santos tratando do espaço, como ‘acumulação desigual de tempos’.

A maravilha, no caso de Bukhara, é que as camadas recentes não apagaram o desenho urbano do passado, ou em outras palavras, os tempos recentes não são espessos como os de outrora. Assim canais, ruelas e edificações compõem testemunho do mundo pretérito que revelam coesão entre o traçado das vias, as ações dos homens de poder de então, a cultura e a arquitetura de uma sociedade que não existe mais como o foi. Seu centro histórico é extenso e pudemos ser turistas pedestres por boa parte do tempo.

Ela foi o coração da Ásia Central, do ponto de vista cultural, religioso e econômico, ademais de ser também um oásis em meio ao deserto de Kyzylkum. Provavelmente como núcleo de assentamento concentrado tem sua origem no século VI a.C. Após a conquista da Pérsia por Alexandre, no século IV a. C., o território de Bukhara passou a ser possessão grega; fez parte dos Impérios Cuchana e Heftalita; em 710 d.C., foi ocupada por tropas árabe-islâmicas, mas segundo pude ler, aqui e ali foi ao final do século IX, por ter se tornado capital da dinastia persa dos Samânidas e parada importante da Rota da Seda, viveu um período de riqueza cuja herança compõe o patrimônio arquitetônico e urbanístico que hoje é apreciado por milhares de pessoas.

Demograficamente é menor que as duas cidades visitadas até agora por nós – tem um pouco mais de 250 mil habitantes – e é capital da província de mesmo nome. Este território é habitado há cerca de cinco mil anos e seus habitantes falam o tadjique, um dialeto a partir do persa. Eu não consegui distinguir isso ao ouvi-los, pelas ruas, porque o som me parecia o mesmo do uzbeque.

O sítio urbano do passado com suas formas orgânicas e não geométricas parece ter influenciado a expansão da cidade, como as duas imagens mostram, já que a planta atual mantém a forma urbana do passado e se pode ver que a tendência a um plano radial mantém-se com a cidade histórica compondo o centro atual.

Fonte: https://sheherazade-tour.com/uzbekistan/bukhara

Começamos nosso passeio pela madraça Ulugbek que, hoje, não funciona como escola, mas é um verdadeiro ‘antro’ dos turistas, com suas lojinhas e, no período da noite, com seu show de dança uzbeque, com desfile de moda das confecções modernas que utilizam as estampas tradicionais deste país. Esse programa não foi grande coisa, a meu ver, por isso se você for a Bukhara e estiver em dúvida, aconselho a deixá-lo de lado.

O sol estava escaldante às 14h, quando começamos a visita e a incidência dele sobre a parte posterior do portal impediu que eu fizesse uma foto, mas segue a de um site.

Fonte: https://sheherazade-tour.com/uzbekistan/bukhara

O neto de Timur, sobre o qual já fizemos referência em outro capítulo, aquele chamado Ulugbek e que era astrônomo, foi quem ordenou a construção dessa madraça. Seu portal alto numa construção que não foi feita de pedras, tampouco de concreto, distingue essa edificação entre tantas outras madraças pela altura.

Os registros fotográficos seguintes são da parte interna, onde se destacam as decorações em cerâmica em cada uma das celas que antes serviam de moradia aos estudantes. Entre cada duas colunas, os desenhos são diferentes, mantendo-se as cores que o compõem.

Na sequência, na praça em frente à madraça, conhecemos o senhor Nasruddin Hodja, um filósofo que ficou conhecido, ao longo da Rota da Seda, por sua sabedoria. Viveu em Bukhara e foi aí imortalizado numa estátua, diante da qual turistas de muitos países e todas as idades querem fazer seus registros fotográficos. Suas histórias ficaram conhecidas desde a China até Istambul e, como misturam sabedoria com tolices ou brincadeiras, ele é considerado o Sancho Pancho do mundo uzbeque.

Fonte: https://www.saga.co.uk/magazine/travel/destinations/asia/central-asia/who-was-nasruddin-hodja

Logo ao lado estava um pátio, também cercado de celas, que servia de paragem para os mercadores da Rota da Seda. Segundo Bakhram, os mais ricos tinham o direito de entrar ali com seus camelos e os menos ricos tinham que deixá-los fora dos muros de Bukhara. O que vemos na foto é o espaço central, onde se acomodavam os animais, hoje ocupado por mesas de um café, e as celas, antes tomadas pelos viajantes mercadores, para descanso e, hoje, pelos produtos de todo tipo que ficam tentando os turistas.

Estamos hospedados no Zargaron Plaza Hotel e lá encontrei, num dos corredores, quadros com fotos que parecem ser deste mesmo lugar há mais de um século.

A foto me fez voltar no tempo e fiquei imaginando as tropas de camelos e, mais tarde de cavalos (observou a foto?) atravessando o deserto e chegando a essa parada. Suponho que as celas eram forradas de tapetes, que havia uma linda sala de banhos para oferecer descanso aos ricos moradores, que os alimentos a eles oferecidos eram os mais apreciados naquela cultura e que deveria haver lindas mulheres para satisfazer seus desejos em troca de moedas ou de presentes trazidos do Oriente

Deixando a área em volta da praça central de Bukhara, passamos pelo bairro judeu sobre o qual escreverei um pouco no próximo capítulo e chegamos à linda madraça Abdullazizkan.

Com certeza, minhas fotos ficaram aquém da beleza desta edificação porque, neste caso, aos azuis e turquesas combinam-se tons de rosa que tornam muito singular a decoração desta madraça em comparação a todas outras que já visitamos.

Bakhram, nosso guia, sempre informa que os bolcheviques abandonaram as construções do período pré-soviético, pela ligação delas com o muçulmanismo e isso faz sentido, embora eu tenha visto aqui e ali, algo escrito sobre o início dessa recuperação ainda no período soviético.

Pelo número de construções, pela singeleza dos materiais – tijolos e azulejos – os quais o próprio tempo ajuda a destruir, avalio que o trabalho feito é enorme e de qualidade, porque muitas edificações estão já recuperadas e disponíveis à visitação turística. A madraça Abdullazizkan ainda carece de investimentos e muito trabalho para se encontrar totalmente recuperada, porque parte dos seus sobre relevos e azulejos não está em boas condições, mas isso não significa que ela não impressione muito os visitantes.

Recentemente, quando as autoridades públicas começaram os trabalhos para modernizar a praça central de Bukhara, encontraram novo sítio arqueológico, cuja foto abaixo mostra a área destinada no passado aos banhos.

Há muita coisa para contar ainda, como descrever a maravilhosa residência de verão do Emir de Bukhara Sitorai-Mokhi-Hossa, construção do século XIX, decorada com uma mescla de elementos árabes, persas e russos, sobretudo de San Peterburgo, que reflete o estilo francês; ou ainda mostrar o que vi no Mausoléu de Chor  Bakr do século X; quem sabe faria referência ao túmulo da mãe de Bahoudin Naskhband… mas abandono a tarefa ao meio, porque são muitos detalhes.

Para dar um gostinho ao leitor deixo uma série de outras fotos sobre lugares, a respeito dos quais não escreverei nada.

Fiquei com vontade de um dia voltar a Bukhara, mas acho que isso dificilmente vai ocorrer. Que as linhas desse diário de viagem me auxiliem no futuro a reviver essa linda cidade.

Carminha Beltrão

Maio de 2023

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