Uzbequistão 10 – Khiva em apenas 24 horas

Uma parte da população de Khiva vive dentro da muralha, ocupando construções antigas que compõem, lado a lado às grandes edificações históricas, um ambiente bastante homogêneo, em que os tons ocre predominam.

Essa população, no entanto, não pode alterar ou ampliar suas casas sem autorização do poder público, de modo a que seja verificado se está ou não havendo respeito às normas urbanísticas, que orientam as construções nesta área. Aliás, li em algum site que Khiva foi a primeira cidade uzbeque a ser reconhecida como Patrimônio da Humanidade pela Unesco.

Muitas destas casas, hoje, oferecem hospedagem como guest houses aos turistas. Imaginei que deve ser interessante uma experiência como esta, ainda que a língua possa ser uma barreira para a comunicação entre quem oferece a hospedagem e quem se hospeda. Quando estivemos na África do Sul, tivemos essa oportunidade e foi bem legal, mas lá era mais fácil, porque mesmo os de origem africana falam o inglês.

Após a viagem longa que fizemos, descrita sucintamente no capítulo anterior, chegamos a esta cidade com a chuva caindo firme. Mesmo sabendo que ela ocupa um oásis no meio das áreas desérticas do Uzbequistão, imagino que deve ser tão incomum a pluviosidade em Khiva, que chovia na área social do hotel, onde há um teto retrátil, e no banheiro dos apartamentos pingava sem parar, a partir de um pequeno orifício no gesso do forro. Imagino que nada foi construído para estar preparado para receber chuva e caía muita água no dia 5 de maio de 2023.

Saímos para jantar e logo nos demos conta de que é preciso ter reservas. No primeiro restaurante, não pudemos ficar; no segundo, foi-nos autorizada a entrada, desde que saíssemos às 20h, porque havia uma reserva para aquela mesa, e eram 19h20.

Observando a maioria dos restaurantes uzbeques, noto que há sempre muita gente trabalhando, mas não há uma divisão e organização do trabalho que leve à eficiência. Eles não param de andar de um lado para o outro, são solícitos, mas nunca os pratos pedidos por nós chegam simultaneamente, de sorte que às vezes um já está acabando de comer, quando o outro tem seu pedido atendido.

A noite foi muito bem dormida, depois da expedição de travessia do deserto.

O passeio, no dia seguinte, começou com guarda-chuva, para depois continuar o dia todo com um céu nublado. Após as temperaturas elevadas que experimentamos em Samarqanda e Bukhara era um alívio poder caminhar sem sentir calor demais.

Há tanta coisa para ver em Khiva, no entanto, há para o olhar estrangeiro muita repetição – madraças, mesquitas, minaretes, mercados… Tanto assim que, à primeira vista, parece que nada vai encantar, porque já estamos com uma overdose de lugares, histórias, informações e experiências, mas não é bem assim porque a cidade é muito especial. Com certeza, essa sensação de fastio é decorrente de já estarmos na fase final da viagem.

O passeio por Khiva transcorreu em apenas um dia. Pareceu pouco, num primeiro momento, mas como a cidade é compacta e pudemos conhecer todos os monumentos andando a pé, o tempo rendeu.

Começamos o percurso pelo grande painel, em que com os mesmos tipos de azulejo que utilizam para as mais lindas decorações uzbeques, eles representaram o mapa da cidade histórica. O difícil foi conseguir fazer uma fotografia sem que houvesse uma cabeça na frente dele.

As muralhas aparecem na imagem de satélite que se segue e se pode ver, na seguinte, que a cidade histórica ocupa uma parte pequena da Khiva atual.

Mal adentramos na cidade, o minarete cuja construção não foi concluída logo chama atenção, porque sua forma assemelha-se mais a uma usina atômica, do que a uma construção cuja finalidade é avisar os horários de oração. Em que pese não ter sido finalizado, esse minarete, especialmente, encanta por ser totalmente coberto por azulejos. Ele foi planejado para ter 70m, mas ficou em 30 e poucos. Ainda assim, ele se destaca no horizonte urbano de Khiva.

Aonde quer que fôssemos, lá estava o minarete se destacando no conjunto da paisagem urbana.

Além dos minaretes que estão sempre perto delas, ao longe, é fácil se reconhecer as mesquitas, porque há muita gente por perto e dezenas de sapatos dos que entraram para a visita, aguardando na porta o retorno de seus donos.

A Mesquita de Juma (em uzbeque: Juma masjid / Жума масжид, que significa ‘Mesquita de sexta-feira’) foi edificada no século 10 e reconstruída em 1788.

Impressiona pelo seu tamanho, pois é um edifício extenso de apenas um andar (55 x 44 m), que é sustentado por 212 colunas de madeira que, enfileiradas geometricamente tanto no sentido horizontal como vertical, como, ainda, transversal. Seu minarete tem mais de 40 metros de altura.

Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Juma_Mosque_(Khiva)#/media/File:Friday_Mosque_of_Khiva.jpg

No caso da Mesquita Juma, vale a pena observar o trabalho das colunas de madeira, cuja parte inferior está sempre sobre uma rocha talhada de modo a que a umidade do solo não estrague, com o tempo, a parte superior.

A foto que abre esse capítulo do meu diário de viagem ao Uzbequistão foi feita para mostrar uma das colunas.

Destas colunas, apenas duas são originais, todas as demais são cópias dos registros que se tem das originais, que foram queimadas por Gengis Khan que, quando esteve em Khiva, no século XIII, colocou foto em quase tudo. Aliás, nem se pronuncia o nome deste senhor na cidade, tão desagradáveis são as lembranças que ele traz.

Havia muitos mulçumanos em visita a esta mesquita e todos faziam questão de tocar as colunas de madeira com as mãos.

Outro ponto alto de Khiva é o Palácio Tach Khaouli, cujo nome significa “casa de pedra”. Foi construído entre 1832 e 1841 por ordem de Allah Kuli Kahn. O primeiro arquiteto que não conseguiu manter o cronograma previsto foi executado por ordem dele. O palácio tem 150 quartos e nove pátios interiores, mas visitamos apenas uma parte dele, a destinada ao harém de Allah Kuli Khan, e aquela onde está seu trono.

Na foto que se segue, aparece o pátio do harém: do lado direito, os aposentos das quatro mulheres oficiais, do lado esquerdo uma porção de salas destinadas às concubinas; em frente, ao fundo a alcova onde ele se encontrava com a escolhida do dia. Na próxima subsequente, a tal da alcova.

Destacam-se os mosaicos que decoram as salas, os tetos e os pilares talhados em madeira com sobre relevos. Uma das salas mais bonitas é a do trono.

A madraça Allakuli Khan também chama atenção na paisagem urbana de Khiva. Alojava uma grande biblioteca que serve toda a população estudantil da cidade. Foi construída em 1834.

Fonte: https://www.lugaresincertos.com/inspiracao-viagem/visitar-fazer-khiva-cidade-magica-uzbequistao/

Depois do almoço, enfrentamos uns tantos degraus altos para chegar a um terraço elevado, onde um grupo tocava, com ajuda de uma caixa de som, música uzbeque. Fiquei até achando que era dublagem. De todo modo, poucos se interessavam pela música, porque a vista era linda.

Como em vários endereços visitados no Uzbequistão, em Khiva, também estavam as professoras organizando seus alunos em fila para a visita a algum monumento.

Em frente aos monumentos históricos de importância religiosa (quase todos), como uma das quatro portas que dão acesso à cidade antiga, sempre havia os uzbeques prontos para uma visita e uma foto de grupo.

Entre uma visita e outra, tanto turistas como autóctones checam as mensagens e as notícias nos smartphones.

Carminha Beltrão

Maio de 2023

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