Uzbequistão 11 – Khiva e os objetos que contam sua história

Como em todo mundo de influência árabe, não há clara distinção entre o espaço privado e o público, assim o comércio está por todo lado, em lojas, tendas, praças, ruas… Além das mercadorias que já havíamos visto em Tashkent, Samarqanda e Bukhara, aqui em Khiva chamou atenção a oferta de produtos resultantes da influência mongol e, mais recente russa, como os chapéus de pele que estavam expostos por todo lado.

Na visita ao museu, que ocupa a construção que outrora havia funcionado como madraça, fiquei fascinada pelas roupas tradicionais dos uzbeques. Por mim, teria no grande mercado de Khiva comprado uma ou duas réplicas, mas, aqui entre nós, estava sendo reprimida para não exagerar com compras que, depois, não caberiam na bagagem. Meu gosto pela decoração de ambientes, sempre me faz imaginar que ficaria maravilhoso pendurar em exemplar destes na parede…

A foto de um casamento no século XIX mostra que eles valorizavam as vestes e que pouca diferença havia, aos olhos estrangeiros ao menos, entre as roupas masculinas e as femininas. Ambas eram largas, serviam para agasalhar, eram sobrepostas a outras, mas, segundo as informações não se levavam roupas íntimas abaixo delas.

Adorei ver no museu os documentos históricos que atestavam a posse sobre uma dada extensão de terra, que eram gravados em pedras. Fico imaginando quantos escravos eram mobilizados para transportar estas escrituras.

Sobre os tapetes que estavam expostos no museu, nem vou falar muita coisa, além de informar que alguns levaram meses e meses para serem tecidos e, mesmo depois de dezenas, centenas de anos, continuam lindos.

As cerâmicas seculares não ficam atrás na beleza e no domínio da técnica para sua produção, sobretudo ao se imaginar que foram feitas há alguns séculos. As informações registradas no museu indicam que, antes de haver contato com a China, os tons utilizados eram variações do marrom ao ocre. O apreço pelo azul teve início com as trocas com os vizinhos de leste.

As botas de veludo bordadas usadas pelas mulheres ricas, especialmente em seus casamentos, também são muito lindinhas e os colares que elas portavam nas bodas eram enormes e podiam chegar a pesar mais de 15 kg, junto com pulseiras e brincos.

Os sapatos usados para o trabalho no campo ou para as grandes viagens eram mais rudes, mas não deixam de ter valor pelo trabalho manual que representam.

A foto que se segue ajuda a imaginar como era um ambiente utilizado pelos homens mais ricos para conversar, fazer negócios e tomar um chá. No apoio, sempre as lindas mesinhas pintadas em cores alegres.

Em Khiva, registrei a maravilha dos sobre relevos nas portas em madeira. Foi explicado a nós que os uzbeques mantêm a madeira passando sempre azeite para lubrificar (vou fazer o mesmo nos objetos de madeira que eu tenho). Também disseram que os mais ricos tinham suas portas com uma única folha, porque era mais difícil de ser rompida e eu achando as de duas mais bonitas… Algumas entre essas portas têm mais de seis séculos.

Quantas mãos terão tocado essas portas, através do tempo? O que terá ocorrido atrás delas? Quanta felicidade ou quanta tristeza, quanta opulência ou quanta exploração, quantas vidas e quantas mortes elas terão escondido do olhar alheio…

Carminha Beltrão

Maio de 2023

Um comentário em “Uzbequistão 11 – Khiva e os objetos que contam sua história

  1. Eu acho que você vai vir com a mala cheia dessas peças decorativas/históricas!

    Muito obrigado pelo texto

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