Bolívia e Peru 2

Do Cerrado ao Pantanal

Fonte: https://app.estuda.com/questoes/?id=5607458

Num país extenso e diverso ambientalmente como o Brasil, de algum modo, vão se constituindo representações sobre o ambiente natural que hierarquizam os diferentes biomas e suas paisagens.

Quando estava cursando os antigos cursos Primário e Ginásio adorava as aulas de Geografia, sem imaginar que seria um dia geógrafa.

Lembro-me bem que as excelentes professoras que tive – Dona Miyako, no 2º ano do Externato Santa Cecília; Dona Maria da Paixão, no 4ª ano primário do Colégio Santa Amália; Dona Eli, professora de Geografia da 1ª série ginasial do mesmo colégio – demoravam-se nas descrições sobre a Amazônia, tecendo loas ao tamanho da sua bacia hidrográfica, à altura das árvores mais frondosas etc. etc.

Também dedicavam bastante tempo às referências à Mata Atlântica ou às coníferas do Paraná. No entanto, se bem me lembro, pouco tratavam do Cerrado e do Pantanal.

Sobre o Cerrado, destacavam elementos relativos à pobreza de seus solos e aos caules das árvores, pouco largos e sem oferecer madeiras de lei.

No que se refere ao Pantanal, frisavam a baixa densidade demográfica e a pecuária extensiva de baixa produtividade, visto que as áreas de inundação, no período chuvoso, restringiam o tamanho do rebanho e sua sobrevivência.

Quando estava na faculdade, aos poucos, essa visão começou a se alterar, até porque, com os avanços científicos de pesquisadores das universidades e da Embrapa, a área do Cerrado passou a ser valiosa para a agricultura de exportação associada ao agronegócio.

De todo modo, penso que remanesce a tendência de hierarquizar os biomas brasileiros dos mais para os menos importantes, o que me parece um equívoco, porque não podemos comparar territórios que são, em princípio, constituídos e caracterizados pelas diferenças.

Quando fui morar na França, em meados da década de 1990, algumas pessoas, ao saberem que eu era brasileira, faziam referência tanto à Amazônia como ao Pantanal e me dei conta assim que este bioma é tão valorizado internacionalmente como aquele. Aliás, talvez, seja esta uma das explicações para as diárias tão altas nos hotéis, que estão situados em territórios que favorecem a apropriação de suas belezas – eles são cotados em dólares ou euros…

Hoje, fazendo o percurso de 426 km entre Campo Grande e Corumbá, tenho a oportunidade de observar as paisagens maravilhosas que compõem essas duas grandes áreas naturais do país, ainda que já bastante alteradas pela ocupação humana e pela atividade agropecuária.

Saindo de Campo Grande, ainda predominam, por vários quilômetros, as grandes propriedades rurais, ocupadas pela pecuária predominantemente. Aos poucos, à medida em que nos distanciamos da cidade, as paisagens típicas do que se conhece como Cerradão ladeiam a estrada. O céu estava carregado e a sensação de calor era um pouco menor do que no dia anterior. Olhava para o painel do carro e as temperaturas oscilavam entre 33 e 35 graus.

Desde que comecei essa “expedição”, estou empenhada em fazer registros fotográficos os melhores possíveis, porque sei que nem a memória nem a retina vão guardar estas imagens.

Repentinamente, abri o vidro para colocar os braços para fora e me “aproximar” daquelas maravilhas. Senti o vento forte, anunciando a chuva.

Paft Puft! O celular voou longe, bateu numa pequena mureta que havia no acostamento e o carro seguiu por algumas dezenas de metros. Paramos, sem esperança de recuperar o aparelho, que poderia ter voado para o meio da mata. Olha aqui, olha ali e lá estava ele, com a capinha e a cobertura da tela danificados, mas imóvel, aguardando-me, caído no acostamento.

Corri e peguei o equipamento valioso que, nos dias de hoje, conecta-nos aos pequenos e grandes mundos que nos cercam. Percebi aliviada, que ele continuava a funcionar. Lá estava a galeria com as fotos, as mensagens de WhatsApp entrando, os avisos do Face, as reservas feitas pelas plataformas Booking e AirBnB, as carinhas dos três netos que compõem a tela de abertura do smartphone etc. etc. etc.

De repente, os pingos grossos começaram a cair e a chuva veio menos intensa do que o céu cinza prometia.

Saíamos do Cerrado e entrávamos no Pantanal. As planuras e as áreas de alagamento passaram a dominar a paisagem, entremeadas pelas elevações que compõem a Serra da Bodoquena. Embora a estrada pouco se movimente do ponto de vista da altitude, ela serpenteia com suas curvas as elevações que compõem a serra, alternando-se, como se passassem da esquerda para a direita da rodovia.

Quando a primeira grande área alagada apareceu, ao longo da rodovia, os jaburus, aves símbolos do Pantanal, com seus pescoços e partes internas das asas em preto, dançavam como se anunciassem que, aos poucos chegávamos à fronteira oeste do país e ao final de 2023.

A travessia do Rio Paraguai a algumas dezenas de quilômetros de Corumbá impressiona pela sua largura e também porque a ponte se eleva, conformando um leve arco, provavelmente para possibilitar a passagem sob ela de embarcações grandes.

Mesmo sendo o último sábado do ano, havia trabalhos de reparo na ponte e apenas uma fila de carros circulava por vez.

Do outro lado, enfileiravam-se os veículos que deixavam Corumbá com destino a outro ponto do país para o Réveillon. Para onde? Sei lá… Esta cidade teve na sua origem grandes relações com o Rio de Janeiro, a partir da navegação pela Bacia do Prata e, na sequência, de Buenos Aires à capital do Brasil pelo Atlântico… Até o sotaque da elite da cidade tinha algo de carioquês.

Fiz as contas e conclui que seriam muitos quilômetros se uma parte destes carros desejasse chegar ao litoral para ver nascer 2024. Talvez, para os de Corumbá, a centralidade tenha se deslocado para Campo Grande, que é hoje uma capital bonita e rica.

Apesar das inúmeras placas recomendando que se preserve o Pantanal, vimos vários animais abatidos às margens da rodovia, como resultado de atropelamentos.

Lamentamos que as rodovias brasileiras não sejam construídas com passagens inferiores, para que a fauna circule de um lado a outro.

Falta muito para se ter efetivamente uma política ambiental no país, em que pese a maravilha dos nossos biomas.

Carminha Beltrão

Dezembro de 2023

2 comentários em “Bolívia e Peru 2

  1. Caríssima Carminha

    O seu texto é próprio de uma geógrafa que sabe fazer geografia!
    Muito obrigado… e grande abraço

  2. Mana querida.
    Lindos textos. Fiquei te imaginando com os braços para fora da janela do carro e… paft! puft! Que esta viagem e todo o ano de 24 sejam uma delícia para você e o Eliseu. Beijo grande.

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