Globalização, pero no mucho
Fonte: https://www.educamaisbrasil.com.br/enem/geografia/globalizacao
Há pelo menos 30 anos a ideia de globalização foi incorporada à narrativa sobre o nosso tempo.
Primeiro, apareceu como uma expressão que, cunhada no discurso midiático, era capaz de traduzir rapidamente um conjunto de transformações no mundo, que ainda não estavam decifradas no plano científico.
Depois, vários pesquisadores do campo das Ciências Humanas, entre ele Milton Santos que aparece na imagem seguinte, propuseram teorias para explicar as mudanças pelas quais o capitalismo vinha passando.
Fonte da imagem: https://www.youtube.com/watch?app=desktop&v=_XNTrI8rAZI
Entre os estudiosos, há relativo consenso sobre o fato de que a globalização funciona para o capital, mas não se aplica totalmente ou de forma homogênea para a sociedade.
Primeiramente, porque os nacionalismos com todas as suas cores, das mais bonitas até as mais encardidas, continuam a exercer sua força na política e na cultura.
Depois, porque, para a Economia, é fundamental que as barreiras se arrefeçam, mas apenas na medida em que interessa aos grandes grupos econômicos.
Por fim, porque as relações entre países são estabelecidas nas fronteiras, no dia a dia, por gente, que não está interessada, nem em diminuir a burocracia, nem em resolver os problemas para quem quer passar daqui para ali.
Por isso, um casal, que toma todas as providências para expedir os documentos que são necessários para ir do Brasil para a Bolívia e circular neste país com um carro, leva exatamente oito horas para obter vistos e autorizações, e perde com isso o tempo que levaria para se deslocar até Santa Cruz de la Sierra no último dia de 2023.
Agora, passados dois dias, posso dar um tom pitoresco aos acontecimentos, mas foi uma verdadeira epopeia, que vou resumir aqui.
Tudo começou numa noite não tão agradável na Pousada 4 Cantos.
Já pensou em conhecer o Pantanal? Em se hospedar em Corumbá? Ótimo, mas não se hospede nessa pousada, que tem um nome bonito, aparece em fotos razoáveis no Booking, mas efetivamente não passa de uma hospedaria mal cuidada, em que pese a gentileza das senhoras que nos serviam como se estivéssemos na cozinha da casa delas. E, de fato, estávamos!
Saímos 7h30 para enfrentarmos os mais de 600 km que nos esperavam. Passamos pela Polícia Federal brasileira e ninguém nos parou.

Passamos pela Polícia Boliviana e nada de nos interceptarem ou perguntarem alguma coisa.

Não era possível que fosse tão fácil…
Paramos para trocar dólares por pesos bolivianos e aproveitamos para perguntar por que a passagem era tão fácil e nos foi explicado que a maioria das pessoas que passam por esta fronteira seca são moradores de Corumbá, do lado brasileiro, e de Puerto Quijarro e Puerto Suárez, do lado boliviano.
Deduzi que são travessias cotidianas, que oscilam conforme o câmbio das moedas dos dois países e as oportunidades de trabalho e estudo aqui ou ali.
Nós que vamos atravessar o país deveríamos, então, voltar para o lado brasileiro e entrar na fila da “oficina” da Polícia Federal. Foi o que fizemos e, assim, já se passaram os primeiros 30 minutos da nossa epopeia.
Estacionamos o carro, ao lado dos carros dos policiais que chegavam, às 8h, para abrir o guichê e já havia uma pequena fila. Todos aparentavam ser bolivianos e supus que trabalham do lado brasileiro e queriam voltar para seu país para o Réveillon.
Entrou a primeira família em busca dos carimbos necessários e a porta de acesso aos guichês ficou entreaberta. Não se via qualquer movimento… Resolvi contornar o prédio e achei uma janela aberta, por onde se atendia a outra fila – a dos que queriam entrar no Brasil (aliás, era uma fila bem maior). Tudo parado.
Resolvi fazer sinais para que lá do outro lado do vidro dos guichês que estava a cerca de dois metros dessa janela, alguém olhasse para os pobres mortais do lado de fora, sob uma temperatura que já começava a se elevar.
Tive clara impressão que eles viam meus acenos, mas faziam de conta que não. Revolvi insistir, dei pequenos pulos, para aparecer com maior evidência no enquadramento da janela que era alta em relação ao piso, até que uma moça trajada como polícia federal e portando uma arma pesada demais para sua magreza, gentilmente saiu do ar condicionado e veio até a tal janela.
Explicou que o sistema estava fora do ar. Sempre os sistemas! Perguntei quanto tempo ficaríamos ali e ela disse para aguardar mais um pouco porque já estavam carregando o tal sistema. Agradeci, mas pedi que ela fosse até a porta entreaberta para explicar tudo isso para as trinta pessoas, mais ou menos, que aguardavam. Ela aquiesceu sem convicção, mas daqui a uns minutos apareceu por lá e repetiu oficialmente a explicação que eu já tinha difundido ao voltar.
Aproximei-me dela novamente e perguntei por que não havia um sistema de senhas, assim, podíamos sair da fila, que, aliás, estava a 3 metros da fosse séptica, que exalava odores desagradáveis, e nos sentarmos nuns bancos que estavam na sombra a alguns metros dali.
Ela respondeu: “Nunca pensamos nisso, porque o sistema nunca cai e a fila sempre anda rápido”… Foi irritante escutar que nunca pensaram nisso.
Permanecemos na fila, onde uma criança especial chorava sem parar (não é para menos, se até nós tínhamos dificuldades de entender o que estava acontecendo) e os vendedores de água, refrigerantes semigelados e batatas fritas não cansavam de oferecer seus produtos
Passados 30 ou 40 minutos, meu marido voltou na tal janela e já a encontrou fechada, justamente para que não pudéssemos mais aborrecê-los.
Daqui a pouco, a mesma moça sai pela porta e informa que o sistema estava “caído” em Brasília e não havia estimativa de recuperação dele… Perguntamos até que horas o guichê ficaria aberto e ela informou que até 18h. Alguém contrapôs a informação que, do lado boliviano (onde deveríamos passar na sequência), os guichês fechariam ao meio dia.
Foi desanimador… Lembramos que tivemos dificuldades de reservar hotel para o dia 30 de dezembro em Corumbá e já trememos de imaginar mais uma noite na Pousada 4 Cantos. Voltamos para a cidade e entramos no Hotel Nacional, o melhor por lá.
Perguntei ao recepcionista se havia apartamento para aquela noite. Ele respondeu de pronto que não. Insisti, ele resolveu abrir o sistema (outro sistema!) e achou um apartamento com duas camas de solteiro, que reservei imediatamente, já antevendo que o sistema da Polícia Federal demoraria a voltar a funcionar.
Esperamos 11h e voltamos para a fronteira. A fila estava andando. Que alívio! Na parede externa, havia um aviso mal colado com fita crepe sobre a lei brasileira que garante atendimento prioritário. Alguém entrou com um bebê no colo e resolvemos entrar na sequência. Eram três guichês. Eles estavam no ar condicionado e o aparelho que deveria refrescar o lado de cá do vidro estava ostensivamente desligado.
Alguém acabou o atendimento no guichê do meio e nos aproximamos, informando que tínhamos mais de 60 anos (como se precisasse, porque estava nas nossas caras que o temos).
Com um tom desagradável, o policial informou que iria nos atender, mas que ali na Polícia Federal quem faz as regras são eles e que não costumavam obedecer a lei de atendimento especial.
Um acinte! No entanto, resolvemos calar, ao invés de dar a resposta que ele merecia, já que pediu nossos passaportes. Inseriu os dados no sistema, folheou as páginas curioso, olhando para os carimbos de outros países que ali estavam registrados e com muito má vontade descarada, carimbou os nossos.
Saímos vitoriosos, mas penalizados com a fila que ainda deixamos para trás.
A passagem pela polícia boliviana foi rapidíssima. O prédio era mais simples, apenas um policial que rapidamente tirou fotos nossas e carimbou nossos passaportes. Outro alívio.

Por desencargo, resolvemos perguntar se estava tudo ok para entrar na Bolívia. Eram 12h e poderíamos ainda tentar chegar a Santa Cruz de La Sierra ou a San José de Chiquitos, onde havia disponibilidade nos hotéis, conforme consulta ao Booking.
O ânimo arrefeceu novamente, quando nos foi informado que precisávamos ir até a Aduana, por causa do veículo. Agora outro périplo começava. Meu marido passou pelo guichê com relativa rapidez, já que tínhamos trazido todos os documentos solicitados no site que havíamos consultado. Abriram um enorme portão, por onde deveria entrar o carro para a vistoria. Eu deveria ficar do lado de fora, pois apenas o motorista poderia entrar. Razoável, não fossem os 38 graus centígrados e a falta de um banquinho para se sentar do lado de fora. Acho que, depois de 30 minutos, minha cara estava tão triste que o rapaz me deixou entrar, justificando “para ficar com su marido!”.
Éramos o segundo carro de uma fila imaginária que acompanhávamos com ansiedade, já que o tal rapaz informou que, quando completasse cinco carros, a responsável pela vistoria viria.
Cinco, seis, sete carros e nada. Calor, sede e fome. Pedir um banheiro seria demais. Quando ela finalmente chega e começamos todos a abrir os capôs dos veículos e as portas para que ela olhasse se havia alimentos perecíveis, damo-nos conta que ela começa por onde bem entende e de segundo carro passamos à posição de penúltimo a ser vistoriado.
Novamente por desencargo de consciência foi perguntado se podíamos então circular tranquilamente na Bolívia e ela respondeu que era necessário ir até a Polícia de Trânsito de Puerto Quijarro ou, então, a de Puerto Suárez.
Novamente, lá fomos nós, ainda com os dados móveis funcionando e seguindo as orientações do Google Maps. Encontramos o escritório de Puerto Quijarro fechado.
Ao longo da avenida, o ânimo já era de festa, com as famílias assando “pollos” para o almoço em fogareiros na calçada.
Pegamos a rodovia para Puerto Suárez e fomos até o local indicado no mapa. O policial saiu da sala com ar condicionado, sem nos deixar entrar e indicou outro endereço no final da cidade.
Lá fomos nós. Chegamos e percebemos que era também uma cadeia. Por trás de um portão, que achei frágil demais, se antevia o corredor para o qual davam as celas. Um senhor veio, demonstrou que não sabia como fazer o documento solicitado.
Telefonou ao Coronel, na nossa frente que informou que o Munhoz sabia fazer o tal papel. Não vi Munhoz algum por perto. O mesmo senhor telefona para ele que já estava chegando e entra suado no corredor onde tentávamos em vão obter o que precisávamos.
Como se soubéssemos, o Munhoz explica: “Desde que uma parte deste prédio pegou fogo, esse serviço deixou de ser feito aqui e passou para a mesma avenida, onde está a aduana em Puerto Quijarro, bem em frente da qual haveria um “quiosco” onde o documento seria expedido.
Não acreditamos que a moça da Aduana não soubesse disso. Voltamos indignados pela rodovia e lá encontramos a salinha onde um simpático policial rapidamente digitou o documento, pediu para conferirmos as informações, carimbou, assinou e disse que custava 100 pesos bolivianos (cerca de 70 reais), que rapidamente pagamos sem obter qualquer recibo… Acho que era apenas para as “cervezas” do Réveillon.
Olhamos dez vezes a autorização e, mesmo tendo que ficar indignados, ficamos, isto sim, aliviados.
Eram 15h30. Desistimos de pegar a rodovia e voltamos para Corumbá, onde a reserva do Hotel Nacional nos foi valiosa. Vejam o mapa com os 65 km que percorremos atrás dos documentos e acrescentem mais 16 km, visto que não registrei a ida para fazer a reserva do hotel por volta das 11h da manhã.
Ufa!!! Cansei vocês leitores com essa chatice, mas imaginem como nós ficamos.

Entramos no quarto, ligamos o ar condicionado e dormimos por uma hora para descansar da loucura que vivenciamos.
Foi assim que vimos 2024 entrar em Corumbá e não em Santa Cruz de la Sierra como previsto.
Em que pese a confusão, o jantar no restaurante do hotel foi animado. Degustamos um vinho branco Chablis que nosso querido sobrinho Gustavo nos presenteou na véspera e pouco antes da meia noite fomos para a beira da piscina do hotel, onde jovens, crianças e mais velhos já bebiam e dançavam, embalados pela banda animada que tocava música boliviana.
Carminha Beltrão
Adeus 2023




Carminha
Que périplo!!!
Após o triste período das ditaduras, construímos na América Latina a experiência histórica da democratização, na qual obtivemos êxitos importantes em muitas áreas da administração pública. Mas, quanto às chamadas forças de segurança, salvo aqui e ali alguma experiência inovadora, mas em geral de impacto quase nulo em relação ao conjunto, permanecemos em um quadro no qual as mesmas permanecem acima e plenamente fora da lei.
Querido Ricardo, é isso mesmo, Sua reflexão faz todo sentido. O que constatamos é que não são apenas os Estados que têm práticas autoritárias, mas a sociedade, porque muitas vezes é aquele que está lidando diretamente com o público quem demonstra seus vieses de autoritarismo.
O que mais me incomodou foi a postura da nossa Polícia Federal, visto que não são mal remunerados e deveriam nos atender com respeito, o que não ocorreu na fronteira.
Olá Carminha
Li, arrepiado, a narrativa do seu périplo na fronteira Brasil-Bolívia. Ainda bem que vocês são resistentes e têm capacidade para encontrar os atalhos… Cuidem-se!
Carminha!! Que epopeia incrível de documentação, burocracia, má vontade e provável corrupção para conseguirem entrar na Bolívia! Isso valeria uma carta ao consulado descrevendo todos esse “procedimentos”, não? Ainda bem que foi só “dessa vez” e que lendo seus outros diários, vi que tudo valeu a pena!!