Bolívia e Peru 5

Fonte: https://www.istockphoto.com/br/ilustra%C3%A7%C3%B5es/santa-cruz-de-la-sierra-bol%C3%ADvia

À medida que nos aproximávamos de Santa Cruz de la Sierra, o mundo dos agronegócios começou a imperar. A topografia plana, favorável à mecanização agrícola, as grandes extensões de terras que não devem ter custado caro favoreceram a ocupação agrícola do tipo moderno. A presença de grandes unidades agroindustriais reflete o perfil econômico da região e ajudam a entender porque esta cidade se tornou a maior demograficamente e a mais importante economicamente da Bolívia.

A chegada a Santa Cruz, como é simplesmente chamada por aqui esta cidade, impressionou pela extensão da área urbanizada e pela presença na rodovia de vários tipos de estabelecimentos voltados ao apoio deste agronegócio – venda de máquinas agrícolas e insumos de todo tipo, indústrias de beneficiamento agrícola, escritórios voltados a serviços agronômicos e veterinários etc.

Percorremos vários quilômetros passando pela aglomeração urbana, conformada pela cidade sede de 1,5 milhão de habitantes e por mais seis município compondo um conjunto de mais de 3,8 milhões.

Na periferia desta área, que qualificam como metropolitana, misturam-se casas pobres, além de carros e motos por todo lado. A foto não está boa, mas vejam que até um trator estava estacionado na rua. Aliás, chama atenção como a Bolívia é um país motorizado, ainda que uma parte grande da frota seja muito velha.

A cidade foi fundada em 1561 com a finalidade de apoiar as missões jesuíticas. Esses religiosos estiveram por toda a América, principalmente neste eixo que ligava as áreas de extração de metais preciosos ao porto de Buenos Aires. Quando estivemos em Córdoba, na Argentina, também visitamos edificações que resultaram deste tipo de missões.

Antes disso (sim há um antes dos brancos, dos católicos ou protestantes na América), a região era ocupada por índios da etnia Arwak, vindos do Caribe, os quais ocuparam esse território que, depois, foi conquistado pelos Guaranis, que deram muito trabalho à monarquia espanhola, que insistiu e obteve o domínio sobre grande parte deste subcontinente.

Chegamos cansados ao Hotel Boutique Cosmopolitano, que recomendamos a quem for a Santa Cruz. Ele é anexo a um café simpático com mesas à sombra de uma árvore, outras na área interna do café e mais algumas no pátio interno do hotel, para o qual dão os apartamentos modernos, bem equipados e agradavelmente decorados.

Numa das salas do café, há um mapa enorme da Bolívia no período colonial. O rapaz que nos serviu, na manhã seguinte, fez questão de destacar que Argentina, Paraguai, Peru, Chile e Brasil subtraíram terras bolivianas.

O fato é incontestável e simpaticamente ele nos acusou de ter tomado parte do Chaco Boliviano. Meu marido concordou com a tese de subtração do território boliviano pelos países vizinhos, mas contestou parte das informações, explicando que “adquirimos” o Acre e a tomada do Chaco não coube a nós…

Fui depois verificar e constatei que, em 1903, pelo Tratado de Petrópolis assinado pelos dois países, o território do Acre foi anexado ao Brasil, correspondendo a uma área de quase 190 mil km2.

De um jeito ou de outro, os bolivianos têm todo direito de se lembrar da enorme redução territorial pela qual passaram. O mapa era lindo e achei representativo que ele estivesse ali, naquele café moderninho e que o garçom conversasse sobre isso conosco. Garçons brasileiros entrariam em assunto semelhante com os fregueses?

Essa representação cartográfica foi elaborada em 1850 e o quadro exposto no café devia ter cerca de dois metros de altura.

O Hotel Boutique Cosmopolitano está bem na área central da cidade, que guarda o traçado em quadrícula, típico das colonizações espanhola e portuguesa.

A maior parte das construções antigas, voltadas hoje sobretudo ao comércio, têm, no frontal, varandas sustentadas por colunas de madeira ou de concreto, o que mostra a preocupação com a proteção do sol que é causticante por aqui (mas não na hora em que fizemos as fotos!).

A estrutura urbana desta parte central é comandada pela Plaza Metropolitana 24 de Septiembre, onde se localiza a Catedral Metropolitana e vários prédios institucionais. É uma praça especialmente bonita por causa da vida que há nela.

Fonte: https://es.m.wikipedia.org/wiki/Archivo:Catedral_de_Santa_Cruz_-_Bolivia.jpg

A recepcionista do hotel, ao perguntarmos o que mais valeria a pena ver em Santa Cruz, foi enfática ao apontar este espaço público, cuja beleza não está apenas nas edificações que a ladeiam, mas no uso diversificado que a sociedade dá a ele.

Aliás, isso sempre me chama atenção nas cidades de colonização espanhola na América, ao contrário das brasileiras que talvez tenham herdado, na forma de apropriação do espaço público, a cultura e o comportamento mais discreto ou menos vaidoso do português.

Havia gente por todo lado, de todas as idades e de diferentes condições socioeconômicas. Talvez, a elite não frequente mais este espaço, pelo que observei, mas havia desde famílias muito simples até outras vestidas com roupas de grife, que denotam pertencer à classe média.

O clima das festas de final de ano permanece, como a decoração natalina mostra

Há uma tradição na cidade de, nos finais de tarde e começo de noite, homens vestidos como garçons elegantes servem café aos que estão por ali. Havia vários e tanta gente em volta deles, aguardando para serem servidos, que não consegui fazer uma foto, por isso retirei a que se segue da internet.

Fonte: https://eldeber.com.bo/santa-cruz/el-cafecito-de-la-plaza-24-de-septiembre-ya-es-parte-de-la-tradicion-crucena_245513

As edificações que ladeiam esse espaço público também são servidas das galerias com arcadas para os pedestres. Estavam todas bem conservadas e pintadas de branco, contrastando com o tijolo da fachada da catedral. Numa das faces da praça, esse conjunto arquitetônico está ocupado por uma espécie de shopping center, que está bem integrado à rua, porque há tanto boxes internos como voltados para a galeria da calçada.

Chamou demais minha atenção o número de bolivianas que ainda se vestem à moda antiga, com suas saias rodadas e as duas tranças longas nas costas, na ponta das quais elas penduram uma espécie de pingente de lã.

Provavelmente, elas voltarão a este diário de “expedição” porque estão por toda parte. O que mais me instiga é que não apenas as mais idosas mantêm a tradição, mas há algumas que não devem ter chegado aos 30 anos e se vestem assim.

Para mostrar que a praça é de todos, também havia as muçulmanas de cabeça coberta.

No dia seguinte, saindo de Santa Cruz de la Sierra, pudemos observar melhor os contrastes que marcam a grande aglomeração urbana.

Nas áreas modernas da cidade, predominam arranhas céus de concreto e vidro, como no bairro Equipetrol, que é hoje o coração financeiro da cidade.

Fonte: https://www.skyscrapercity.com/threads/santa-cruz-de-la-sierra-fotos-no-vistas.647438/page-243

Nos arrabaldes, ainda se vê muita pobreza e precariedade, no que se refere às condições para a vida urbana, reforçando a tendência de grandes desigualdades que marcam as cidades latino-americanas.

A venda ou locação dos galões para a compra ilegal de combustível estão mesmo por todo lado, o que nos alivia, ao saber que não somos os únicos a cometer contravenções no país.

A motocicleta é um importante meio de locomoção para as famílias mais simples. Chegamos a ver quatro pessoas se locomovendo por veículos desse tipo, sempre com as mulheres, sentadas à moda antiga, com as duas penas na mesma lateral.

Se quiser conhecer um pouco sobre o urbanismo de Santa Cruz, veja o texto que está no link: https://www.duabitad.com/historiarq/cmo-evolucion-el-urbanismo-de-santa-cruz-de-la-sierra

Achei que deixamos a cidade sem ter tido oportunidade de conhece-la melhor. Isso nos anima a passar por aqui na volta e perambular um pouco mais.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

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