Bolívia e Peru 9

La Paz e Mi Teleferico

Ficamos apavorados (sim esta é a palavra apavorados) na chegada à cidade de La Paz.

Antes mesmo de sairmos da rodovia, o trânsito já se adensava. Ao entrarmos na área urbana metropolitana, deparamo-nos com uma circulação de veículos caótica, por três motivos ao menos.

Em primeiro lugar, a topografia hiper acidentada da cidade não ajuda em nada a circulação, porque o plano urbano é complexo, as vias são estreitas e obedecem sempre ao imperativo do relevo.

Vejam na primeira imagem, os contrafortes da cordilheira à leste e a área central encaixada numa bacia. Na segunda imagem, observem o plano urbano do setor centro-oeste da cidade – ruas sem saída, estreitas e sinuosas.

Em segundo lugar, ninguém obedece a regras de trânsito, o que é o comum aqui na Bolívia, onde não se respeitam vias preferenciais, ultrapassa-se pela direita e semáforos parecem ser um enfeite, porque todos continuam a circular, mesmo se ele está vermelho.

Tudo isso em uma cidade com muitos veículos nas ruas, levando a inúmeros congestionamentos, o que aqui, eles chamam de tranqueros. Vejam o que o Google mostra às 10h30, e é possível imaginar como isto fica às 18h00.

Em terceiro lugar, o que tem relação com segundo ponto, há centenas de vans circulando pela cidade, cumprindo o papel de transporte coletivo. Elas trazem escrito, no vidro dianteiro, os roteiros que percorrem e, a cada vez que alguém acena, o motorista para em fila dupla ou tripla e azar o seu se estiver atrás dele. Se for uma rua de única mão, a única opção é esperar; se for uma avenida, é lutar para conseguir ultrapassá-lo pela direita ou pela esquerda.

Não fosse pouco, elas também ficam paradas em qualquer lugar para aguardar passageiros quando estão totalmente vazias. No domingo, passando por um bairro, onde havia uma festa religiosa que reunia centenas de pessoas e barracas onde se vendia de tudo, embora estivéssemos numa via de três mãos, as vans ocupavam duas vias e, de repente, paravam na terceira para atender alguém que queria voltar para casa ou descer.

Fonte: https://pegamosumaestrada.com.br/la-paz-bolivia-roteiro-de-3-dias-melhores-atracoes-e-dicas/

Devemos ter levado uma hora ou mais para nos deslocarmos por carro da rodovia até o apartamento que locamos pelo AirBnB na área pericentral da cidade. Uma loucura! Ruelas, curvas acentuadas, gente cruzando na frente do carro e nada de haver nem placas com os nomes das ruas, nem número na frente dos prédios. Não é à toa que quando nos passam um endereço, além das informações usuais, é comunicado o nome do prédio, assim, você pode encontrá-lo pelo letreiro que o nomeia na fachada, já que pelo número será difícil…

Fiquei pensando se já tinha enfrentado trânsito semelhante na vida. Dehli é pior, porque a densidade demográfica é enorme, há gente que mora nas ruas e os tuk tuk (principal meio de transporte na Índia) estão por toda parte, sem seguir quaisquer regras.  Aliás, por aqui, também vi alguns veículos deste tipo. Acho que, No Brasil, ele seria uma boa opção alternativa às motocicletas.

Fonte: https://indiasomeday.com/es/negociar-el-precio-de-los-tuk-tuk-en-india/

Marrakesh não fica atrás em termos de circulação urbana, mas como tudo, no mundo marroquino, é mais lento, há tempo para o motorista decidir entre aguardar ou encontrar caminho alternativo, quando alguém decide esticar um tapete para um turista ver, bem no meio da rua.

Nesses dois casos, só passamos apuros de observar, já que quem dirigia eram os motoristas das agências de turismo com as quais viajamos.

O Rio de Janeiro também não é para principiantes, afinal motoristas de ônibus e de táxis não gostam de esperar e o sítio urbano, entrecortado por morros e lagoas não ajuda. No entanto, conhecer já a cidade, facilita nossa vida de condutor.

Pois é, La Paz deve ser, então, na condição de motorista, a experiência mais difícil que já vivemos. Não foi à toa que, para fazer passeios por aqui, optamos por outros modais de transporte e preferimos deixar nosso carro guardadinho na garagem.

Todo este quadro, ajuda a entender, porque é uma maravilha o sistema de transporte coletivo e público que foi estruturado por teleféricos nesta cidade.

Quando visitei Medellin, na Colômbia, cidade que tem um sítio urbano também ocupando uma bacia entre montanhas, pude constatar a melhoria na circulação trazida por teleféricos. Aqui, em La Paz, esse sistema é ainda mais revolucionário, porque tem mais linhas e porque o relevo é ainda mais acentuado.

Acho justo que o site da empresa que oferece o serviço, traga logo na página de abertura, as frases “superando limites” e “transportando sonhos”. Acho que não é exagero, porque, para quem mora na periferia, neste caso nas áreas topograficamente mais altas e nas encostas mais íngremes, em sítios que muitas vezes carros não chegam, esse sistema de transporte é uma maravilha. Vejam o site da empresa, que nos foi dita que é pública: https://www.miteleferico.bo/.

São 10 linhas de teleféricos, que funcionam maravilhosamente. São estações modernas, cabines confortáveis (podem viajar entre 8 e 10 pessoas sentadas em cada um), o sistema está bem desenhado, havendo linhas radiais que levam ao centro, e outras transversais, que, no topo das serras, articulam uma linha à outra.

O sistema leva o nome de RIM – Red de Integración Metropolitana.

Ah, é verdade, já ia esquecendo de comentar que o município de La Paz, com outros municípios compõe uma área urbana bem considerável, sendo o mais importante deles El Alto. O nome tem a ver com o fato de, a oeste de La Paz, esta cidade estender-se por uma extensa área plana que está no topo das maiores elevações que circundam a área urbana.

Embora em outros capítulos deste diário de viagem, eu tenha feito referências à população estimada de Santa Cruz de la Sierra e de Cochabamba, agora passo dados mais oficiais. Eles já estão um pouco ultrapassados, porque se referem ao Censo de 2012, mas são suficientes para se ter uma visão de conjunto e ver que El Alto é inclusive mais populoso que La Paz.

PosiçãoCidadeDepartamentoPopulação
(
censo 2012)
1Santa CruzSanta Cruz1.453.549
2El AltoLa Paz848.840
3La PazLa Paz764.617
4CochabambaCochabamba630.587
5OruroOruro264.683
6SucreChuquisaca259.388
7TarijaTarija205.346
8PotosíPotosí189.652
9SacabaCochabamba169.494
10QuillacolloCochabamba137.029

Fonte: https://www.wikidata.pt-pt.nina.az/Lista_de_cidades_na_Bol%C3%ADvia_por_popula%C3%A7%C3%A3o.html

Voltando ao teleférico… Tivemos oportunidade de fazer um grande percurso compondo um arco que vai de sudeste ao sul, oeste, norte, pelas linhas verde, amarela, prateada, vermelha e laranja (deem uma olhada para ver a extensão do percurso que fizemos).

Fonte: https://urgente.bo/noticia/mi-telef%C3%A9rico-reduce-su-horario-de-funcionamiento-de-600-2200-de-lunes-s%C3%A1bado

Fiquei encantada pela limpeza das estações, pela arquitetura agradável, pela eficiência das conexões e, sobretudo, pela amplitude da visão que esse percurso me deu sobre a cidade. Além do mais chamar um sistema de transporte de Mi teleférico, é bonitinho demais.

Enquanto escrevo este texto, deparo-me com uma matéria que saiu na BBC Brasil sobre o tema – quem se interessar, vale a pena a leitura: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cpv6epy1n32o. Se lerem, verão que a minha opinião sobre teleférico em São Paulo não é apreciada pelos experts no tema.

As fotos que fizemos no percurso por teleférico, falam por si. Passamos por bairros de classe média e alta, alguns verticalizados, outros com espaços residenciais fechados, mais presentes no setor sul.

“Voamos” por cima de inúmeros bairros populares, que se caracterizam por não terem reboco nas paredes externas. Quando meu filho esteve nesta cidade, há algum tempo informaram que se paga menos imposto, se a casa não estiver rebocada. Perguntei ao guia que nos levou ao Valle de las Lunas e ele confirmou essa explicação.

O sistema, do ponto de vista da engenharia, é também surpreendente. Os pilares que sustentam as linhas estão assentados nos espaços mais difíceis: encostas íngremes, ajeitando-se entre construções que já existiam, passando a baixa altura em algumas partes e “nos céus” em outras. A informação que tivemos é que foi implantado por chineses e que os bolivianos estariam endividados por causa dos custos. Suponho que sim, mas ao mesmo tempo deve ser mais barato do que implantar uma linha de metrô.

Em São Paulo, por exemplo, algo semelhante cairia muito bem, para começar, com três linhas, suspensas sobre os rios Pinheiro, Tietê e Tamanduateí – nada de desapropriar terras, nada de “cavocar” o subsolo. No Rio de Janeiro ou em Belo Horizonte, onde a topografia é mais movimentada, nem se diga, a maravilha que seria. O Rio deu início a uma ação desta natureza, mas parou por aí.

A foto que se segue não ficou nada boa, mas faço questão de incluir neste relato, para que observem a “tripa” colorida que corresponde a uma escadaria que dá acesso às casas. Quem mora nelas não pode chegar de carro e mesmo havendo o teleférico têm que subir ou descer até a estação mais próxima.

Em vários lugares, a cabine do teleférico passa tão perto das casas que podemos entrar na intimidade doméstica delas. Ver mulheres lavando roupa, crianças brincando, gente chegando e saindo.

A estação El Alto está a 4095 metros de altitude. Na média, La Paz está a 3.600. Só essa informação é suficiente para avaliar a importância desse sistema de circulação urbana.

Desta estação, amplia-se ainda mais a visão do conjunto urbano, com La Paz bem encaixada na cuenca, como se chama em espanhol essas bacias acomodadas entre montanhas.

Passamos por um bairro que está todo colorido, por estímulo do poder público municipal e ação da “comunidade” do bairro. Ficaria maravilhosa La Paz, se essa iniciativa se multiplicasse, porque a cor de tijolo predominando deixa a paisagem um pouco triste, o que não combina com o espírito dos bolivianos.

O passeio foi tão completo, que vislumbramos os três cemitérios principais da cidade. O primeiro ao sul, um cemitério jardim, eu não fotografei. Os outros dois estão registrados a seguir. Observem que o primeiro deles é um cemitério vertical. Segundo Franz, o guia que nos acompanhou numa visita que ainda vou relatar em outro capítulo, este cemitério tem escadas disponíveis, para os que desejam colocar flores para seus mortos que ocupam o 5º. ou 6º. andar.

A hierarquia social também funciona para os mortos. O cemitério jardim que está no sul, onde predominam habitats de elite é o mais caro e bonito. O cemitério vertical é o mais utilizado pelos segmentos médios. O terceiro que aparece nas fotos seguintes e se espraia sobre o morro, é ocupado pelos mais pobres, segundo o Franz.

Adorei conhecer La Paz, por meio do Mi Teleferico.

Fonte: https://www.facebook.com/miteleferico/

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

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