Entrando no Peru em direção a Cusco
Como escrevi no capítulo anterior deste diário de viagem, a entrada no Peru foi cheia de peripécias, quase uma epopeia. Assim, a passagem por este portal que demarca a fronteira foi muito emblemática para nós.
Já tínhamos estado no Peru há cerca de 10 anos, numa viagem especial, pela Agência Latitudes, com amigos mais que especiais. Éramos 16 pessoas. Conhecemos Lima, Puno, Cusco e Machu Pichu, fazendo os percursos maiores por avião, um deles por ônibus de turismo e também percorremos o Vale Sagrado dos Incas por trem.
Agora estamos vivendo a experiência de conhecer uma parte do Peru profundo, aquele onde vivem os peruanos no seu cotidiano, por estarmos atravessando o país de carro, parando aqui e ali, ainda que os pontos escolhidos por nós, para passar duas ou três noites, sejam essencialmente turísticos.
De um jeito ou de outro, somos sempre estrangeiros e o nosso olhar tem esse ponto de vista, mas vale a pena registrar que, dependendo de como você faz a viagem, sua perspectiva se modifica.
O Peru é parecido com a Bolívia, todos sabemos. Antes de os espanhóis chegarem por aqui, os incas e outras nações autóctones construíram civilizações e constituíram territórios, políticos e culturais, que não reconheciam as fronteiras que hoje separam os Estados-nação latino-americanos.
Essa identidade entre povos dos dois países, parece-me mais importante, ainda, por estarmos circulando sobre o altiplano dos Andes, que compõe um bioma, explicativo também pelo conjunto de condições de vida que se oferecem a seus ocupantes.
Fonte: https://www.historiadomundo.com.br/inca/mapa-do-imperio-inca.htm
Assim, modos de se vestir, de garantir o sustento, de desenvolver agricultura e comércio, assim como paisagens dos dois lados da fronteira, têm semelhanças entre si.
Ademais, entre os países de domínio espanhol, na América, eles chegaram a compor a Confederação Peru-Boliviana, entre 1836 e 1839:
…constituida por tres estados: el Estado Nor-Peruano, el Estado Sud-Peruano —estados que surgieron de la división de la República Peruana, a causa de la Guerra civil de 1834 y la guerra entre Salaverry y Santa Cruz— y el Estado Boliviano. Los límites geográficos variaron con el tiempo, con la consolidación territorial de Tarija y la ocupación de territorios de Salta y Jujuy; también contaba con territorios indígenas, que eran autónomos de facto, como Iquicha. Todo bajo el mando supremo del maris, de Andrés de Santa Cruz, quien asumió el cargo de Supremo Protector en 1836, mientras era presidente de Bolivia (1829-1839).
Fonte: https://es.wikipedia.org/wiki/Confederaci%C3%B3n_Per%C3%BA-Boliviana
Pelo mapa podemos ver que essa confederação incluía o atual estado do Acre, cujas terras foram adquiridas, pelo Governo brasileiro, no começo do século XX. O Estado Boliviano, então, tinha acesso ao Pacífico…

Fonte: https://historiauniversal.org/historia-del-peru-la-confederacion-peru-boliviana-1836-1839/
Reconhecidas identidades e semelhanças, há também disputas e diferenças que são visíveis. A área rural dos dois países nestes trechos andinos da nossa viagem está marcada por uma ocupação importante, mas ela é muito mais densa no Peru do que na Bolívia. De algum modo, essa densidade ocupacional reflete a diferença demográfica entre os dois Estados Nação: a Bolívia tem cerca de 12 milhões de habitantes e o Peru alcança os 34 milhões.
Entre Cochabamba e La Paz e entre esta cidade e a fronteira, encontramos assentamentos humanos por todo o percurso. Agora fazendo o trecho entre Kasani e Cusco, a intensidade da ocupação é muito maior, há mais áreas agricultadas e muito mais criação de ovelhas e gado leiteiro, do que vimos na Bolívia.
Essa densidade de ocupação maior, observada no Peru, também tem nuances, pois tomando como referência o trecho percorrido, podemos dizer que nos 150 km mais próximos de Kasani e nos 150 km mais próximos de Cusco essa ocupação é muito maior: praticamente, durante todo o percurso não se faz 10 km sem passar por algum tipo de assentamento humano que reúne algumas dezenas de famílias, às vezes centenas ou milhares. No trecho intermediário deste trajeto representado, a ocupação é menor e a paisagem andina prevalece quase intocada.
Também chama atenção, comparando os dois países, a melhor sinalização nas estradas e cidades do Peru, que já está mais preparado para o turismo, havendo sempre iniciativas para valorizar as identidades regionais, mas também para reforçar a unidade peruana. Vejam essa dupla intenção na placa que se segue.
Eu adoro esse símbolo adotado pelo país, porque ele é moderno e, ao mesmo tempo, preserva no “P” os labirintos que se referem a culturas indígenas pretéritas:
La P hace una obvia alusion a las lineas Nazca, pero no unicamente a esto sino a algo que se repite en varias culturas preincas e incas que es el tema de la espiral. Es un simbolo que no solo se observa y es reconocido en el Peru, sino que es un simbolo universal que refleja continuidad. La logomarca consiste en una linea continua que genera esta espiral que en distintas culturas siempre está presenta y que forma una P de Peru asi como una @ que es simbolo de modernidad. La palabra Peru se forma con la misma linea continua simbolizando continuidad e infinitud. También puede interpretarse como una huella digital, simbolo de identidad. Es un icono que recoje muchos de los atributos que los Peruanos tienen que ofrecer al mundo.
Fonte: https://brandemia.org/peru-estrena-una-estupenda-marca-pais
Aviso você, leitor, que todas as observações que faço são muito superficiais e carecem de leitura e pesquisa para que sejam atestadas em sua veracidade, mas a impressão que tenho é que o Peru busca se organizar.
A rodovia estava em bom estado e, ademais, uma série grande de pontes sobre pequenos ou médios cursos de água também estavam, no percurso que fizemos, todas com a mesma estrutura metálica, cor de laranja. Outras estavam em construção, razão pela qual, volta e meia havia pequenos desvios.
Algumas vezes se via, ao lado da ponte nova, a antiga ainda de pedra, que suponho, tem muitas dezenas de anos.
A estrada está assentada em um vale demarcado por elevações significativas dos Andes de um lado e de outro. Nos trechos em que ele é mais largo, sempre tem gente vivendo. Muitas vezes, as áreas de cultivo ladeiam a rodovia e as casas estão já no início dos aclives das grandes montanhas.
Pensei que pode haver duas razões para isso. A primeira resultaria da necessidade de ocupar toda a área plana com a agricultura, afinal, no altiplano de uma cordilheira, o espaço para cultivar é restrito.
Em segundo lugar, o vento neste vale é forte e as casas estando mais próximas das montanhas mais elevadas ficariam mais protegidas das intempéries e correntes. Para fazer a próxima foto, eu fiz um zoom máximo, visando aproximar a área onde estavam as casas.
Do ponto de vista do cultivo, predominam as áreas de produção de milho, cholo para eles.
Por todo lado, há pedaços de rochas que devem rolar da cordilheira e que a população autóctone reúne para uso posterior. Há muitas divisões entre pequeníssimas propriedades feitas de muros de pedras, como há casas, cuja fundação tem esse material. Os fragmentos de rocha de tamanho médio também são usados para segurar os telhados, quando eles são de zinco ou alumínio, garantindo que não saiam voando, quando as rajadas de vento sopram.
Há trechos em que a rodovia fica mais apertada entre as elevações e, em algumas ocasiões, ali se estabelece uma cidade ou pueblo maior. Quando isso acontece a estrada vira cidade e não é possível continuar o caminho sem passar por ela. Assim foi com Pomata, logo no começo de nosso percurso.
Essa cidade surpreendeu pela beleza de sua igreja principal, que é grandiosa e tem a fachada toda trabalhada em sobre relevos, alguns dos quais mesclam elementos do imaginário católico ao do indígena. Vejam os detalhes na terceira foto, na sequência.
Adorei, também, observar que a rodovia acompanha um rio de águas movimentadas que alimentarão a Bacia Amazônica. Dá para acreditar?
O percurso feito por nós, por duas vezes, na ida para Cusco, em 10 de janeiro, e na volta, em 13 de janeiro de 2024, em direção a Puno, foi composto por duas regiões importantes turisticamente no Peru.
A primeira é chamada de “Região dos Cânions”, onde está o Lago Titicaca, Arequipa (que desapareceu do nosso roteiro) e Puno. A outra é chamada de “Terra dos Incas”, destacando-se Cusco e Machu Pichu, sendo que esta última, conhecemos na viagem anterior.
No entanto, do ponto de vista de cidades importantes na rede urbana peruana, há no meio do caminho Juliaca, cujo aeroporto serve de base para os turistas que vão curtir o Titicaca, hospedando-se em Puno.
Segundo informações, obtidas em sites diferentes, esta cidade ainda não alcança os 300 mil habitantes, mas chamou minha atenção pelo movimento comercial.
Tal como observado em cidades bolivianas, a feira cumpre papel importante no cotidiano da vida peruana, a menos em cidades como Juliaca, embora tenhamos visto o mesmo na periferia de Cusco, o que adiante poderei comentar.
Estacionados, aguardando fregueses, há dezenas de tuk tuks em Juliaca, que, aqui no Peru, são chamados de moto táxis.
Termino, com essa imagem dos Andes, onde se vê traçadas, nas encostas, as raias que devem ter sido desenhadas, por séculos, pelo degelo ou pelo rolamento de frações de rochedos da cordilheira.
Carminha Beltrão
Janeiro de 2024






















Um comentário em “Bolívia e Peru 12”