O Titicaca pelo outro lado

De Cusco fomos a Puno, a cidade mais importante às margens do Titicaca, pelo lado peruano. Foi um revival, porque já tínhamos estado nesta cidade, com um grupo de amigos, há uma década e resolvemos ficar no mesmo hotel, que continua ótimo, mas agora, adquirido por uma empresa colombiana, chama-se GHL Hotel Lago Titicaca Puno e não mais Hotel Libertador Lake Titicaca.
O trajeto feito para chegar a Puno foi agradável. A estrada não é uma Brastemp, mas está bastante boa. Além do mais as paisagens, que já descrevi no capítulo 12 deste diário de expedição, são magníficas.

Gostei de ter passado por Juliaca, uma cidade que não é turística e tem cerca de 270 mil habitantes, porque assim pude ver uma cidade “normal” do Peru que não tenha passado por todos as influências, que a análise científica chama, hoje, de ‘turistificação do espaço’.
Impressionou muito o movimento comercial da cidade. As lojas estavam abertas, mas também havia barracas nas calçadas e carrinhos que se movimentavam vendendo de tudo. Era sábado.
Impressiona muito, tanto no Peru como na Bolívia, a importância que tem o transporte por vans. Já escrevi sobre isso, no capítulo sobre La Paz e reforço aqui, descrevendo rapidamente Juliaca: a maior parte das vias está tomada por esses veículos que fazem tanto percursos urbanos, como interurbanos, visto que os agricultores que vêm vender seus produtos na cidade também utilizam esse modal, como já tínhamos observado nas rodovias onde as vans estão e param a qualquer aceno [Aproveitem para reparar, nas fotos, a confusão que é a fiação elétrica por aqui – deve ter muito gato].
Em Juliaca, também, os tuk tuks são importantes no transporte urbano, pelo que observei para as distâncias menores. Fazem filas perto das áreas comerciais, à espera dos fregueses.
Também há cholitas no Peru, mas elas são em menor número e não usam a saia com várias camadas de anáguas e enchimentos. Ademais, observando bem, parece que as peruanas são menos gorditas que as bolivianas.
Acho que é melhor voltar ao foco deste capítulo – Puno – se não fico fazendo aula de Geografia Urbana em diário de viagem e, portanto, que é de férias e não de trabalho…
A vista do Lago Titicaca que tínhamos, a partir do nosso apartamento no hotel, estava deslumbrante no final do dia 13 de janeiro de 2024, quando chegamos. O sol se pondo, a água brilhando, e os tufos de junco flutuando.

No dia seguinte, quando acordamos a paisagem iluminada pelo sol era igualmente bárbara.

Da nossa janela, também vimos guanacos (ou seriam alpacas?) pastoreando no jardim do hotel.

Observando o hotel de longe, achei que o arquiteto da edificação deve ter tido a intenção de fazê-lo parecer a um transatlântico. Essa forma possibilita que todos os apartamentos tenham vista para o lago. Da outra feita, ficamos num apartamento virado para a face da cidade. Agora estávamos observando a face que tem, ao fundo, as ocupações dos Uros, sobre as quais escrevo alguma coisa logo mais. Agora, vejam a localização do hotel numa pequena península ao norte da baía.

Por cima, até que não parece tanto um transatlântico, mas vejam pela lateral.

Gostei demais de rever o hotel. A decoração é agradável, os ambientes convidam a permanecer e, além de tudo, os objetos que adornam os espaços são muito bonitos. As fotos que se seguem estão incluídas, especialmente, para a Christina que tem memória ótima e curtiu esse hotel, na viagem anterior.
Ok, o hotel está uma delícia de bom, mas vamos ao que interessa em Puno: o passeio pelo lago. Ele é contratado já nos hotéis da cidade. Observei que, se alguém chegar, sem o intermédio de uma agência, terá alguma dificuldade de ter acesso a uma embarcação.
Os preços do passeio são altos, penso que calculam sempre em dólares ou euros, porque os principais turistas por aqui vêm do Hemisfério Norte.
Nosso guia se chamava Carlos e veio nos pegar com um táxi na porta do hotel. Em 15 minutos chegamos ao pequeno porto.

Aos poucos, conversando com ele, vimos que o passeio contratado tinha muitas variáveis intervenientes, que não são explicadas pela mocinha peruana, bem maquiada, que, numa sala bem decorada do hotel, vende o pacote para a gente.
Sim, era verdade que o passeio era privado, ou seja, iríamos só nos dois na lancha a motor, mas Carlos explicou que não podemos escolher a lancha, pois elas pertencem a uma associação da comunidade de Uros e são eles que decidem. Conversa daqui, conversa dali, e um rapaz disse que a nossa lancha era a número 8.
Elas ficam atracadas, umas ao lado das outras. Apenas duas delas estão acessíveis a partir do pequeno cais. Para chegar as demais você vai pulando de lancha em lancha. Assim, chegamos na oitava…
Não tive presença de espírito de pedir para Carlos fazer o registro fotográfico dos nossos pulos, pois sairiam flashs engraçados. Também vejo agora consultando o arquivo das fotos que não fiz uma do barco. Não valia nada a pena. Era velho, o motor rangia alto e o vidro era alto demais para quem se sentava nos bancos que estavam na parte envidraçada. Solução? Subir para a parte superior e ficar se equilibrando, conforme barcos maiores cruzavam pelo nosso e faziam verdadeiras ondas, como se estivéssemos no mar.
Os barcos navegam em raias entre as fileiras de tufos de junco. Carlos explica que por causa do El Niño, o nível do lago baixou 1,5m e isso exigem que a navegação, nesta área perto de Puno, seja feita com mais cuidado. No centro do lago, esse 1,5m a menos não faz tanta diferença, mas nas margens sim.
Aos poucos, lá estávamos nós perto das ilhas dos Uros.
Vejam o que a Wikipédia explica sobre eles:
Os Uros ou Urus (Em uru: Qhas Qut suñi) são uma etnia que habita uma vasta região entre a Bolívia e o Peru.
Na Bolívia estão hoje cerca de 2600 indígenas que se estabeleceram nas bordas de rios e lagos. Do lado peruano são cerca de 2 mil Uros, que vivem principalmente no local denominado Ilhas Flutuantes dos Uros, sobre o Lago Titicaca ou às margens dele, próximo a cidade de Puno. Em princípio, os Uros falavam seu próprio idioma, o uruquilla, mas devido a terem assimilado a cultura dos Aimarás, pelos quais foram dominados por longo período, perderam sua língua própria.
A existência dos Uros naquela região já se verifica desde a era pré-colombiana, quando desenvolveram a habilidade de habitarem sobre as ilhas flutuantes, tendo em vista maior segurança. Desde tempos remotos, os Uros sobrevivem através da pesca, da caça de aves e da coleta de ovos de aves. Ultimamente têm se aplicado ao turismo, onde apresentam seu peculiar modo de vida e seu artesanato. Indivíduos Uros, especialmente os que não atuam no turismo, têm como atividade laboral o trueque, forma de comércio informal em que comunidades tradicionais trocam mercadorias em feiras próprias para esse fim. Dessa forma, esses Uros trocam seu .
Os Uros possuem uma relação especial com o Lago Titicaca. De acordo com historiadores, para não serem escravizados, esses indígenas se embrenharam em meio a vegetação de totora no interior do Titicaca, escondendo-se em balsas. Posteriormente, tiveram a engenhosidade de construir plataformas artificiais, hoje comumente chamadas de ilhas flutuantes, com o abundante junco que predomina no lago.
Carlos informou que essa nação indígena tem, perante o governo peruano, o estatuto de independentes. Não pagam impostos, têm suas normas próprias e o direito de dar continuidade às suas práticas centenárias. Como estive há dez anos visitando essas mesmas ilhas, senti que as mudanças são muitas.
Em primeiro lugar, naquela ocasião, fiquei com a impressão que eram algumas ilhas. Hoje são 150. Como elas não são ilhas que se constituem naturalmente, porque dependem de haver o trabalho de acumular o junco em camadas pelos que as desejam ocupar, deduzi que o negócio do turismo estava sendo rentável e mais ilhas foram sendo “construídas”, formando hoje um “colar” delas.

Carlos explicou que as grandes embarcações que, ainda, continuam a ser feitas em junco, hoje são “recheadas” de garrafas pets vazias de modo a diminuir a quantidade daquela matéria prima e tornar o barco mais leve.



As lanchas com turistas não param de chegar e este volume de turismo levou, sem bem observei, a um adensamento da ocupação e várias iniciativas. Por exemplo, já há uma ilha com as implantações voltadas à comunidade, como um campo de futebol, em que os meninos se divertiam nesta manhã de domingo.

Algumas das construções sobre as ilhas, já não são feitas de junco, mas sim de madeira com telhado de zinco. O governo peruano, considerando que era importante, promoveu um programa de banheiros para as ilhas. Carlos explicou que eles usam a pequena casinha para guardar coisas e não se acostumaram a esta prática sanitária. Vejam na foto, as caixas d’água sobre as tais construções.

Segundo ele, ainda, hoje 50 das 150 ilhas são ocupadas por hotéis, que eles qualificam como lodges. Nós mesmos tínhamos reserva em um deles, mas tivemos que cancelar quando houve a mudança de cronograma face às dificuldades para passar na fronteira peruana com o carro.
Algumas ilhas são mais bonitas, olhando de longe.

No entanto, descemos naquela cuja embarcação para: a da família do condutor do barco.
Tudo muito simples. Ali moram cinco famílias. Cada uma ocupa uma “cabana” de um cômodo e uma segunda que faz as vezes de cozinha. Eu preferi não entrar na cabana, porque o degrau era alto, a porta baixa e o cheiro de umidade interno poderia me fazer marear o estômago. Todo o tempo que você está ali, tanto eles como Carlos, de modo gentil, querem te induzir a comprar artesanato, nem sempre bonito. É um pouco constrangedor porque já pagamos caro pelo passeio, eles recebem percentual da agência, é um deles que dirige o barco e, portanto, já estamos quites.
Os bordados tem seu valor, mas estavam menos bonitos do que os que estão nas fotos da internet.
Fonte: https://www.fragatasurprise.com/2010/11/ilhas-uros-peru.html
Da outra vez que fui a Uros comprei um pano preto, bordado em laranja e vermelho (parecido com este que está no colo da mulher à direita. Agora para não sermos simpáticos, ficamos um barquinho parecido com este abaixo, mas bem menos elaborado. É assim, no mundo da publicidade: as fotos e representações são mais espetaculares que a realidade.
Fonte: https://www.tripadvisor.com.br/LocationPhotoDirectLink-g298442-d318207-i113381920
Fiquei bastante decepcionada como fato de o povo Uros, embora viva com base naquilo que a Natureza oferece, do ponto de vista do seu habitat, tem também com ela uma relação bastante predatória. Havia garrafas pets boiando em torno das ilhas. Na hora em que já íamos para a nossa ‘maravilhosa’ lancha, eles nos mostraram com orgulho, o flamingo que tinham “caçado” e que mantinham em cativeiro para qualquer dia traçar e um cachorro que dormia numa sobra e que também iria virar almoço. Pensando bem, como seria diferente? Eles não são agricultores, mas pescadores e caçadores… Será que é por causa da caça deles que, diferentemente da vez anterior, não vimos flamingos no Titicaca?
Valeu a pena rever Uros? Claro que sim, pela possibilidade de comparação entre as duas experiências, pela chance de rever o Titicaca. Além disso, no final da visita, paramos numa ilha que tem o papel de sede da comunidade, para tomar um café (simplesmente horrível) e uma coca (como em todo lugar do mundo, para ver que até os Uros se globalizam e ficam sob influência das transnacionais). Encetamos, então, uma conversa com Carlos sobre a política no Peru.
Ele fez referência hiper negativa a Fujimori e sua filha que, agora, insiste em concorrer nas eleições. Elogiou, de passagem, Lula. Disse que houve uma melhoria, ainda que pequena, no que se refere a maior respeito aos povos de origem nas nações indígenas anteriores à chegada dos espanhóis. Aliás, aproveitei para fazer mentalmente comparações e buscando na memória observações feitas durante esta “expedição” e achei (só achei, precisaria de mais informações para ter uma opinião mais abalizada) que o avanço foi maior na Bolívia, onde se veem outdoors e imagens por todo lado, valorizando esses grupos, o que parece ter sido o maior feito de Evo Morales, quando foi presidente deste país.
Carlos também explicou que a decisão governamental de fechar muitas universidades privadas sem qualidade levou à diminuição do acesso ao ensino superior para os que trabalham. Em Puno, há uma instituição superior pública, com um mega estádio e ele explicou que é difícil acesso a uma vaga. Estabeleci algum paralelo com o Brasil de 15 ou 20 anos atrás, porque hoje sobram vagas nas universidades públicas brasileiras.
Ficou todo animado quando soube que somos professores universitários. Disse que estudava francês, com a expectativa de um dia ir estudar na Sorbonne. Fizemos, então, referência a termos feito pós-doutorado lá e ele ficou em êxtase. Pediu que mandássemos livros em PDF a ele e perguntou muitas coisas.
Fiquei pensando se ele com 33 anos, já com dois filhos e com um emprego de guia freelancer teria chance de ir para a França. Depois, lembrei da história de muitos de nossos alunos e na nossa própria história e conclui que, sim, se houver ensino público de qualidade, essa chance aparecerá. Olha ele aí.
Logo em seguida, Eliseu remeteu a ele PDFs de vários livros que tinha em seu computador. Até agora ele não reagiu!
Ao final do passeio, vislumbramos a cidade se estender pela montanha. Descemos no pequeno cais e Carlos e o motorista, que já era outro, deixaram-nos no centrinho de Puno, que estava animado, mas a catedral, como grande parte das igrejas que pretendemos conhecer por dentro nesta viagem, estava fechada.
Comemos por ali, passeamos no calçadão e voltamos para o hotel. Como? De Tuk Tuk porque não podíamos perder a chance de experimentar.
O banco dos passageiros era apertadinho e estava separado do motorista por uma grade que quase não me dava distância suficiente para fazer uma self.
Fomos aos trancos e barrancos, porque as rodas pequenas do veículo são super sensíveis ao asfalto todo esburacado de Puno. Chegamos rindo no hotel e, ainda, deu para fotografar o corajoso veículo.
Carminha Beltrão
Janeiro de 2024


















Olá Carminha! Adorei ver vocês no Tuc tuc. Desde o início este relato, eu estava me perguntando se tinham experimentado quando, ao final, vc me conta de sua experiência.
Achei bem interessante o relato sobre os Uros, mas fiquei penalizada com a situação de moradia, a poluição das garrafas pets, a situação de vida bem precária e a “turização” da região.
Estou torcendo pelo futuro do guia que quer ir à França!