Bolívia e Peru 26

Um hotel muito especial em Sucre

Fonte: https://www.turbosquid.com/pt_br/3d-models/3d-cartoon-building-hotel-1550013

Alguém já escreveu que uma viagem é feita de circunstâncias. Algo como uma travessia antes e durante a qual, do mesmo modo que na vida, nunca somos capazes de prever todas as situações e controlar todas as variáveis.

As surpresas fazem as diferenças, tanto para o mal, como as dificuldades que tivemos nas fronteiras, já relatadas em outros capítulos deste diário, as quais acabamos absorvendo como aprendizados; como para o bem, a exemplo das maravilhosas paisagens andinas, alguns hotéis em que nos hospedamos e restaurantes onde comemos no decorrer desta “expedição”.

Tínhamos decidido que buscaríamos nos hospedar em bons hotéis ou alojamentos oferecidos pelo AirBnB para compensar dificuldades que poderíamos enfrentar, em decorrência do longo percurso de mais 7 mil km ou da ausência de boas paradas para alimentação durante os trajetos rodoviários,

Assim, foi agradavelmente surpreendente o apartamento reservado em Cochabamba, numa área residencial e de restaurantes aprazível; o segundo hotel em que estivemos em Cusco, o Hotel Boutique Tambo del Arriero; o retorno ao antigo Hotel Libertador, hoje GHL Hotel Lago Titicaca em Puno; o Cosmopolitano Boutique Hotel em Santa Cruz de la Sierra onde dormimos na ida e na volta; o Hostal Colonial Potosí, nesta cidade; o Palácio de Sal nos limites do Salar de Uyuni…

No entanto, nada se equiparou ao Parador Santa Maria La Real, em Sucre. Ele não foi o mais caro, nem tampouco o mais equipado em termos de infraestrutura e serviços oferecidos, mas o mais especial.

Desde a chegada, ele me agradou muito, porque gosto das iniciativas que valorizam o histórico e o cultural de uma região, lugar ou edificação, mesclando esses traços com as necessárias adaptações ao conforto que podemos ter e queremos no mundo atual.

Penso que, nesse hotel, este encontro entre passado e presente é feliz.

É bastante provável que essa sensação de bem estar tenha sido ampliada pelo fato de que, na manhã seguinte à nossa chegada, após já ter feito um passeio à Recoleta, bairro de Sucre, estava tranquilamente tomando o cafezinho das 10h30 no pátio do hotel, quando o senhor seu proprietário, Luiz Pedro Rodríguez Calvo, abordou-me, apresentando-se como um cavalheiro gentil e me perguntando se já conhecia as instalações do hotel.

Antes que eu pudesse aquiescer agradavelmente àquela visita guiada, já estava integralmente nela, à qual se juntou meu marido.

Ele andava ágil e rapidamente, de ambiente em ambiente, mostrando um detalhe aqui e outro acolá. Simultaneamente, contava a história do hotel.

Ele se origina da aquisição e integração de três imóveis residenciais que pertenceram a proprietários distintos, após a edificação ter abrigado originalmente o que se poderia chamar de poder judiciário, no período colonial.  

No próprio site do hotel há um histórico muito interessante:

La casona que alberga a El Hotel Parador Santa María La Real data de la segunda mitad del siglo XVIII y fue edificado sobre las dependencias y la huerta del palacio de la Real Audiencia de Charcas, la máxima autoridad judicial y administrativa de esta parte del imperio español en América.

La rehabilitación de la casona conservó intacta su arquitectura original preservándose todos sus detalles coloniales en una meticulosa restauración …

Fonte: https://www.parador.com.bo/historia

Os prédios adquiridos não se encontravam todos bem conservados, mas tinham um excelente potencial para a instalação de um parador confortável, bem decorado e cheio de cantinhos adoráveis, que sua esposa vislumbrava como adequado para um excelente hotel. Senhor Luís, até então, trabalhava no ramo bancário e resolveu avançar para um outro metier com essa iniciativa.

Segundo ele, depois da aquisição, foram necessários três anos de reformas, recuperando elementos originais, até porque as edificações adquiridas compõem a área central de Sucre, reconhecida como Patrimônio da Humanidade pela Unesco, o que significa que não pode haver descaracterização dos sistemas construtivos, das fachadas e de elementos outros da sua composição.

Com a junção das construções, alguns elementos, que são típicos da arquitetura colonial espanhola foram potencializados – três pátios internos, muitas varandas-corredores, maravilhosas estruturas em madeira para sustentar os telhados, escadas de pedra, vasos de barro tipo potes com plantas à sombra dos três pavimentos que o compõem etc.

Tudo isso mobiliado e decorado com peças que foram sendo adquiridas de vários modos e, se entendi bem, uma parte delas é oriunda do antiquário do Sr. Lourenço, que acabamos por visitar, na mesma tarde, por sugestão de Luís.

Se eu te convenci, por meio do capítulo 25 deste diário de viagem, que vale a pena conhecer Sucre, não perca a oportunidade de se hospedar neste parador.

Para começar a escrever mais sobre essa graça de hotel, vamos combinar, que chamar um hotel de ‘Parador”, como tem sido a tradição na língua espanhola, para hospedagens especialmente interessantes, é muito legal.

O que é um hotel, se não um lugar onde paramos para estar por uma ou algumas noites, durante um percurso? Para descansar e nos abrigar das intempéries, para termos privacidade e reparar nossas energias…

A fachada em branco com acabamentos em pedra compõe, sem muito destaque, a paisagem do centro histórico de Sucre. É capaz que você passando, a pé ou de carro, nem o notasse. Aliás, isso ocorreu conosco. Desse ponto de vista, é uma construção, embora grande, muito discreta, contribuindo para a harmonia das fachadas frontais que avançam até o limite das calçadas em toda a área central.

https://ibooked.com.br/pt/hotels/bolivia/sucre

Ao adentrar ao primeiro recinto, composto por recepção à esquerda e duas salinhas à direita, os tons ocres te abraçam, porque são quentes, e o valor histórico dos móveis e dos objetos de decoração te entretêm, de modo fácil, como um gesto de boas-vindas.

Não é uma boa ideia usar um antigo aparador de louças para fazer as vezes de balcão de recepção? Que tal a maravilhosa madona em prata que recebe os hóspedes? E o vaso de prata com flores artificiais tão bonitas que esquecemos o detalhe de serem fakes?

Na parede oposta, está o maravilhoso quadro, cuja moldura é tão trabalhada como ele. A pintura quase se amalgama com a própria parede em função de suas cores, não fosse o dourado brilhante para estabelecer a distinção.

Num cantinho ao lado, as poltronas e o móvel com bonitos entalhes, convidam à leitura de um bom livro ou jornais. Na Bolívia, chamou atenção a importância que ainda têm os impressos, quase desaparecidos do Brasil depois da difusão dos jornais digitais.

Pelo primeiro pátio, em que o azul anil reina, acede-se à sala do café da manhã que, em alguns dias da semana, faz as vezes de restaurante.

Este primeiro pátio interno é fechado com teto de vidro, uma solução adequada para manter e insolação e proteger das temperaturas mais baixas que dominam os altiplanos andinos.

Por este mesmo pátio, chegamos ao bar, no lado oposto ao restaurante, em desnível. No pequeno corredor, um móvel vitrine exibia alguns produtos à venda.

Fiquei em dúvida se o teto do bar em tijolo é o original de tão bem conservado que se encontrava. Vejam como é charmoso esse pequeno ambiente.

Fonte: https://www.booking.com/hotel/bo/parador-santa-maria-la-real.pt-br.html

Num outro cantinho, nada mais, nada menos do que um confessionário em madeira. Que pecados poderíamos confessar aos deuses num ambiente tão adorável? O da luxúria?

O ponto alto do hotel. na minha opinião, e que me teria passado despercebido não fosse a gentileza de Luís nos apresentar seu hotel, está no subsolo. Durante as reformas para recuperação das edificações descobriram que havia algo no porão. O maravilhoso corredor em pedras, onde acomodaram vitrines com lindas peças indígenas é um convite a se entrar na “cova”.

Fonte: https://www.booking.com/hotel/bo/parador-santa-maria-la-real.pt-br.html

À medida que se passa por ela, vamos conhecendo salas, recentemente decoradas que compõem, um restaurante especial, aberto apenas quintas, sextas e sábados. Perdemos, assim, a chance de comer nele, já que estivemos no hotel entre domingo e terça feira.  Tudo é caprichado nesses ambientes – as prateleiras com as taças de cristal, os objetos antigos à mostra como o garrafão verde que deve ter guardado muito vinho no passado, mesas de madeira estilo europeu com cadeiras forradas com tecidos étnicos dos indígenas da América do Sul, as salinhas ou cantinhos menores, com mesas para duas pessoas…

Gostamos demais do nosso apartamento, com duas janelas, uma das quais dando para a varanda que fica no terceiro piso. O teto também em abóbada de tijolos cortava o branco das paredes e da roupa de cama.

Além do pátio azul anil, outros dois estão na sequência, para os quais estão viradas as portas dos apartamentos. O frescor das plantas e da sombra agrada muito, porque mesmo estando nos Andes, ao meio do dia, as temperaturas se elevam um pouco e o sol é implacável.

Fonte: https://www.booking.com/hotel/bo/parador-santa-maria-la-real.pt-br.html

O hotel tem dois salões bastante grandes. Um dele estava sendo preparado para o casamento do filho mais jovem de Luís, que é o decorador do ambiente do subsolo e de outros do hotel. Um segundo salão é este das fotos, que também pode ser locado para eventos e no qual se destacam os adornos da parede, originais e oriundos da França. Vejam também na lateral o tapete gobelin francês. Na outra ponta do salão, móveis de escritório também muito bonitos (é verdade, leitor, que as fotos ficaram mal enquadradas, desculpe-me, mas Luís era rápido no tour ao hotel).

Ao final da visita, Luís nos sugeriu vivamente que, fossemos ver, naquela tarde, o pôr do sol na varanda que ficava acima do terceiro piso. Obedecemos, é claro. Chegando lá, encontramos um ambiente preparado e frequentado por jovens. Tivemos apenas dois minutos de inadaptação, porque era tudo tão agradável que sentamo-nos numa pequena mesa, tomamos um tinto e comemos uma pizza feita ali mesmo. Os garçons eram extremamente agradáveis. Discretamente fiquei observando a moçada, que, na vestimenta, é claro, não tem mais nada de cholitas.

Foi assim que vimos a noite chegar, admirando o perfil de Sucre e, especialmente, a torre de sua catedral iluminada.

O que eu quis registrar com esse capítulo de nossa “expedição” é que, na minha opinião, o que distingue um hotel não são as estrelas que ele tem, nem o preço da sua diária, mas o contexto que ele reflete, no tempo e no espaço, oferecendo ao hóspede um conjunto de circunstâncias.

Está na moda dizer que o que vale é a experiência, Aliás, você leu o texto do Ruy Castro na Folha, publicado em 27 de dezembro de 2023? Genial. O título é “Simples assim” e ele escreve um delicioso texto sobre as expressões que nos infernizaram no ano passado [https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ruycastro/2023/12/simples-assim.shtml].

Te tenho que cair nessa onda e afirmar que hospedar-se neste hotel foi uma ‘experiência’ muito especial. Dificilmente ela se repetirá se um dia eu puder voltar lá, mas que dá vontade de retornar, dá.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

3 comentários em “Bolívia e Peru 26

  1. Olá Carminha

    Todos os teus textos são ricos! No entanto, este “Bolívia e Peru 25” foi o que me deu grande vontade de, algum dia, ir à Sucre. No seriado “Bolivar”/ Netflix, Bolívar fica em choque ao receber a notícia da morte de Sucre: o poderoso e valente general…, e muito próximo dele. Gostei, gostei… e gostei muito desse texto (e dos demais). Mas, desse mais e mais!!

    Muito obrigado

  2. Que hotel maravilhoso! Também fiquei pasma com o bom gosto, a riqueza das peças, os tons quentes do ocre misturados ao branco, a cor azul das colunas, os moveis antigos, as peças francesas, as luminárias, e a varanda à tarde e à noite! E suas fotos, Carminha, estão ótimas, e os seus comentários de arquiteta-decoradora também!

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