Bolívia e Peru 27

Tudo, na vida, depende do ponto de vista e do momento, a partir do qual observamos os lugares, os fatos e as situações.

A primeira cidade boliviana, que visitamos durante essa “expedição”, foi Santa Cruz de la Sierra, chamada por todos na Bolívia como Santa Cruz. Tínhamos tido dificuldades na fronteira o que retardou nossa chegada a ela em um dia. Mal chegamos, quisemos conhecer a praça central e gostamos muito desse espaço, pela presença de vida pública e por certa diversidade cultural, etária e socioeconômica que caracterizava o grupo de pessoas que ali estava no primeiro dia do ano de 2024 (ver https://wordpress.com/post/carminhabeltrao.com/3252).

Naquela ocasião, lembro-me bem, quantas diferenças marcantes encontrei entre aquela cidade boliviana e as brasileiras.

Normal! Por contraste, sendo a primeira a ser visitada, chamou mais atenção o que não “era espelho”, parafraseando Caetano Veloso, comparando São Paulo a outras cidades.

Agora, voltando para casa, Santa Cruz foi a última cidade boliviana, onde pernoitamos por dois dias, para conhecê-la um pouco mais, já que na ida a permanência foi muito curta. A sensação que tive é que ela não é tão diferente das brasileiras.

Para começar, vou resumir um pouco do trajeto. Para percorrer os 484 km entre Sucre e Santa Cruz levamos mais de 10 horas. Deixamos as terras altas do sistema andino e entramos na Bolívia tropical. São dois mundos diferentes, distinção que, na ida, talvez eu não tenha prestado tanta atenção.

O contraste entre o mundo cinza-ocre-marrom dos Andes e o verde-verdinho-verdíssimo da vegetação da Amazônia foi surpreendente, até porque na ida o percurso para sair da planície e chegar nos Andes foi por outra rodovia. Pareceu que, agora, esta distinção ficou mais clara.

A estrada ia contornando os obstáculos impostos pelo relevo, mas pouco a pouco as planuras iam ganhando espaço e o verde majestoso ia se impondo.

A estrada estava muito bem sinalizada e conservada, por isso a demora resulta mesmo da sinuosidade imposta pelo relevo e não de más condições rodoviárias.

Para a gente não esquecer mesmo que estávamos mudando de bioma, deixamos para trás o tempo seco, o céu ficou nublado e logo a chuva caiu.

Quando fomos nos aproximando de Santa Cruz, foram aparecendo os primeiros sinais de que ela é a “mais brasileira” das cidades bolivianas.

Se na Bolívia, de um modo geral, havia chamado atenção a importância do catolicismo, ainda que mesclado com representações e valores indígenas, estávamos a mais de 100 km de Santa Cruz e já começaram a aparecer as igrejas evangélicas. Na periferia de cada aglomerado havia uma ou duas. Na periferia de Santa Cruz, muitas. Muitos dos pequenos templos que observei pertenciam a igrejas fundadas no Brasil.

Outro ponto a ser destacado é que o trânsito em Santa Cruz está mais organizado que em La Paz para comparar duas cidades de tamanho semelhante.  O plano da cidade é mais cartesiano e não te dá a sensação de estar participando de um sistema imponderável e incontrolável, como ocorreu em La Paz. É certo que o sítio urbano contribui para isso, mas penso que há, também, um quê de cultural neste comportamento. São muitos carros grandes, SUVs e utilitários, mostrando a riqueza de Santa Cruz e seu alinhamento com uma economia mais globalizada.

As diferenças socioeconômicas pareceram mais acentuadas nesta cidade que no restante do país, porque vi gente pedindo dinheiro nos semáforos. Pode parecer contraditório, porque Santa Cruz é a cidade mais rica da Bolívia e a região que ela comanda é a que mais contribui para o PIB nacional. No entanto, também me pareceu uma cidade com custo de vida mais caro, justamente pelo crescimento econômico e oportunidades um pouco maiores de trabalho (o que nunca abrange a totalidade dos moradores). E nisso Santa Cruz também se parece com as cidades brasileiras. O Brasil ocupa a 14ª posição entre os mais desiguais do mundo e fica pior classificado neste ranking que a Bolívia (https://www.otempo.com.br/mundo/ranking-de-paises-com-maior-desigualdade-social-veja-a-posicao-do-brasil-1.3302472)

No período Evo Morales, a Bolívia era o país que mais crescia na América do Sul – https://www.bbc.com/portuguese/internacional-41753995 – mas isso não significa que a riqueza estivesse sendo distribuída (não achei muita informação sobre isso). Aliás, a desigualdade é a marca da América do Sul, onde, em 2020, os 10% mais ricos concentravam uma parcela maior da renda (37%) do que qualquer outro subcontinentee os 40% mais pobres recebiam a menor fatia (13%) (https://www.bbc.com/portuguese/brasil-51406474).

Outra semelhança? O número de motos. Ao contrário de outras cidades, onde predominam marcantemente vans e, em algumas situações, tuk tuks, em Santa Cruz pareceu que há uma classe média baixa que já tem acesso ao transporte privado individual, embora se veja que, entre a área urbana e a rural há transporte de trabalhadores por caminhão, como o da direita na foto.

No entanto, ainda que sejam muitos, a periferia não é feita apenas de veículos motorizados e características que vimos em La Paz também aparecem aqui, ainda que com menos intensidade, como o comércio em barracas nas ruas, quase competindo com os veículos.

A cidade vem crescendo muito e está organizada segundo cinco anéis (anillos), que são compostos por vias que estruturam o espaço urbano e o delimita por setores. Nos endereços é comum vir a referência a eles (depois do terceiro anel, antes do segundo anel etc.). No mapa estão bem delimitados em cinza o primeiro anel e o último, mas é possível ver os dois intermediários.

O que mais impressionou em Santa Cruz foi conhecer seu setor oeste, denominado Colinas de Urubó. Fomos até lá por indicação do maître do restaurante Fogo de Chão, um gaúcho de Viamão que foi para Santa Cruz a convite do franqueado que estava montando uma unidade da rede brasileira de churrascarias naquela cidade (outra semelhança – há muitas churrascarias em Santa Cruz).

Nós, que nunca tínhamos ido a uma unidade dessa rede no Brasil, lá estivemos em Santa Cruz (recomendo porque a carne estava maravilhosa). Conversando com ele e explicando que queríamos ver onde moravam os ricos da cidade ele nos indicou esse setor.

Um pouco antes depois de atravessamos a ponte que liga o quarto anel às “Colinas”, observamos o embrião de uma verticalização moderna, em concreto, vidro e com jardins verticais nas fachadas. Não se parece com a paisagem de muitas entre as cidades brasileiras?

No entanto, o que mais impressionou neste setor foi a sequência de espaços residenciais fechados. Tomamos a estradinha chamada Camiños de Urubó e fomos até o fim, observando um “condomínio” atrás do outro, de ambos os lados. Na volta, tivemos a paciência de contabilizar e o trajeto passa de 3 km – muros, concertinas e portarias de acesso aos residenciais.

Vejam nas fotos que os muros, as concertinas e as portarias predominam na paisagem urbana deste setor.

E aí, parece ou não com alguma coisa que vemos todo o tempo no Brasil?

Por último, é interessante destacar que Santa Cruz é conhecida, na Bolívia, como a cidade dos shopping centers. E lá fomos nós conhecer o Centro Comercial Ventura Mall, o mais badalado da cidade, pelas informações obtidas e até indicado entre as atrações turísticas da cidade. Tem três pavimentos, um supermercado grande e um boulevard anexo externo cheio de restaurantes (é lá que está a churrascaria Fogo de Chão). Tenho dificuldade de comparar ao tamanho dos brasileiros, mas para o porte da cidade, ele é muito grande.

O número de lojas brasileiras impressionou. Só no ramo de calçados estão, uma pertinho da outra: Arezzo, Schutz, Carmen Steffens, CS Club Kids.

Fonte: https://www.queroviajarmais.com/pontos-turisticos-santa-cruz-de-la-sierra/

Vendo Santa Cruz, pela segunda vez vejo que a influência brasileira vai muito além da expansão do agronegócio, tão significativa na Bolívia como no Paraguai.

Então, se você leitor quer conhecer cidades muito bolivianas terá que subir os Andes e alcançar seus altiplanos. Do contrário, Santa Cruz também tem seus encantos e é uma boa pedida, mas é menos surpreendente do que eu, pelo menos, desejo numa viagem.

Carminha Beltrão

Janeiro de 2024

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