Bolívia e Peru 28

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Chegamos há uma semana em Presidente Prudente, onde moro. Depois de ter concluído a viagem à Bolívia e ao Peru, diariamente lembranças voltam, do nada, como flashes.

Às vezes, elas ressignificam passagens que não pareceram tão interessantes, quando vividas. Em outras circunstâncias, elas ajudam a amenizar as dificuldades que apareceram e me fazem rir das situações que, na ocasião interpretei como chatas, e agora revelam-se engraçadas.

Não é sem cabimento que eu me pergunte ou você leitor pergunte a mim [mesmo que em silêncio]: Valeu a pena percorrer mais de sete mil quilômetros, quando poderia ter ido de avião, talvez até diminuindo custos? Não é cansativo demais tanto tempo longe de casa? Vale a pena conhecer a Bolívia ou o Peru se, afinal, tem outros países ou regiões mais bonitas no mundo?

Quero responder essa pergunta com a frase do líder espiritual Sri Sri Ravi Shankar: “A vida é uma combinação de destino e livre-arbítrio. A chuva é o destino, a possibilidade de se molhar ou não é escolha sua.”

Eu acrescentaria algo a ela, do tipo: cada uma de nós pode escolher que tipo de chuva vai tomar. Escolhemos nos molhar e o jeito como isso ocorreria.

Ir de avião ou de carro é diferente e, por isso, o que é vivido em decorrência dessa escolha é também diverso: nem melhor, nem pior, apenas de difícil comparação.

Esta foi a viagem que fizemos e quero registrar, neste balanço final, que adorei tê-la feito assim. Faria de novo, mesmo que suprimisse este ou aquele aspecto ou acrescentasse outros, afinal, a gente aprende com a experiência vivida.

O roteiro foi tão longo que, pelo Google Maps, não foi possível representá-lo num único mapa, porque ultrapassava os dez pontos permitidos. O ponto mais distante a que chegamos foi Cusco, no Peru. Assim, é como se o primeiro mapa representasse o percurso de ida: Presidente Prudente, Campo Grande, Corumbá, Santa Cruz de la Sierra, Cochabamba, La Paz, Copacabana, Cusco, indicando apenas as cidades onde pernoitamos.

E o segundo representa o de volta: Cusco, Puno, Oruro, Colchani – Salar de Uyuni, Potosí, Sucre, Santa Cruz de La Sierra, Corumbá, Campo Grande, Presidente Prudente.

Dois trechos de estrada foram percorridos duas vezes (na ida e na volta): – entre Puno e Cusco; – entre Santa Cruz de la Sierra, Corumbá, Campo Grande e Presidente Prudente. Queríamos evitar isso, quando elaboramos o roteiro, mas os trajetos ficariam mais longos e, em algumas situações, andaríamos 800 ou mais km sem termos uma boa cidade para pernoitar.

O que pareceu um ponto negativo, quando planejávamos a viagem, foi positivo ao realiza-la, porque em ambas as situações vimos, na volta, aspectos que não havíamos visto na ida (se, você leitor, leu o capítulo 27, sabe que a Santa Cruz de la Sierra da ida pareceu outra na volta…). 

Sem dúvida, tão bom quanto, na ida, atravessar as fronteiras para a Bolívia e o Peru, ainda mais que nas duas situações tivemos dificuldades e atrasos, como foi boa a sensação da travessia da fronteira entrando de volta no Brasil.

Quando chegamos em Presidente Prudente, no trigésimo dia de viagem, o painel do carro marcava 7.180,8 km. Uma marca e tanto!

Os pontos altos da viagem foram muitos e destaco alguns: – confrontar-se com a imponência e a diversidade dos Andes; – viver a loucura de La Paz, uma cidade nas alturas e num fosso ao mesmo tempo, com seu maravilhoso sistema de teleféricos; – rever Cusco, agora com mais calma e apreciando certos detalhes; – conhecer Potosi e seu maravilhoso espaço público; – deparar-se com o Salar de Uyuni, grandioso, magnificamente alvo e brilhante; – passar uns dias em Sucre (voltaria com certeza); – degustar a maravilhosa culinária peruana; – encontrar uma Bolívia menos pobre do que eu imaginava que ela fosse; – imaginar tudo que os incas, os quéchuas, os aymarás e outras nações indígenas viveram nessas terras e ver o que deixaram de legado para a humanidade; – constatar que a pilhagem colonial por lá foi tão severa como por aqui.

Há sempre déficits, porque de algum modo queremos realizar o desejo de conhecer tudo e viver todas as experiências, o que não é possível.

Por exemplo, fazendo uma retrospectiva, todas as cidades que conhecemos na Bolívia, exceção a Santa Cruz, compõem o bioma dos Andes. Gostaríamos de ter ido até Tarija, onde se produz o vinho de altitude, como eles aqui denominam o resultado da produção vinícola do país e conhecer, assim, o sul da Bolívia.

Teria sido maravilhoso entrar na Bolívia pela Amazônia brasileira e cruzar a floresta por aí, mas tememos que pudesse haver problemas na estrada por causa das chuvas intensas que costumam cair no verão. Durante a viagem, conhecemos um casal que entrou por lá e disse que o percurso estava maravilhoso.

Deixamos de conhecer Arequipa que era um dos objetos de desejo dessa expedição, porque entre as três tentativas seguidas de cruzar a fronteira entre a Bolívia e o Peru, somente a terceira teve sucesso, obrigando-nos a abreviar o tempo neste país.

Queria ter andando tranquilamente pelas feiras da Bolívia e não apenas ter passado por elas.

Teria sido bom encontrar restaurantes melhores em algumas cidades bolivianas, pois, ou eles são muito raros, ou não soubemos fazer a pesquisa adequada para chegar a eles, porque de fato nenhuma experiencia culinária foi marcante na Bolívia.

Deveria ter tido capacidade para, em algum ponto do percurso nos Andres, descer do carro, andar morro abaixo e molhar os pés em algum curso de água alimentado pelo degelo da cordilheira.

Gostaria de ter conversado com uma cholita e perguntado a ela como se sente com aquelas roupas ancestrais, sem parecer com isso uma intrometida (não que eu tivesse falado e parecido uma intrometida, porque nem tentei conversar).

Algumas das coisas vividas ficarão mais fortes na minha memória, se é que se eu pudesse controla-la, sem o inconsciente e o subconsciente me contrariarem.

Guardarei na memória o que pude observar do modo de vida campesino na Bolívia. Ficarei com a ideia de que este é um povo baixinho, gordinho e quentinho, porque faça sol ou faça frio estão hiper agasalhados.

Vou me lembrar que as mulheres são as que, majoritariamente, fazem os trabalhos de pastorear animais e realizar o comércio de suas produções agrícolas, tanto na Bolívia como no Peru.

Quero valorizar o esforço imenso que está sendo feito na Bolívia para valorizar a diversidade cultural e melhorar a economia.

Não quero esquecer que os peruanos estão muito avançados nos esforços arqueológicos e museológicos para manter viva a cultura pré-colombina.

Desejo que um dia, nestes dois países, haja maior cuidado com o descarte do lixo e não se veja uma garrafa pet ou um saquinho plástico nos acostamentos das rodovias ou nas calçadas das cidades.

Espero ter saúde física e mental para ainda realizar algumas outras viagens como esta.

Carminha Beltrão

Fevereiro de 2024

4 comentários em “Bolívia e Peru 28

  1. Caríssima Carminha

    Você soube “finalizar”, sem finalizar, o sabor e a grandeza dessa grande viagem! Parabéns!!!

  2. Carminha, só hoje acabei de ler seus últimos dois escritos. Que viagem maravilhosa e como vocês foram corajosos! Gostei muito do final onde vc faz um balanço da viagem! Sábias suas conclusões: o que foi difícil agora é motivo de riso; o que foi bom, valeu muito e poderia ser repetido!! Bonita a sua admiração pelas mulheres bolivianas. Concordo com seus votos de melhoras para a Bolívia em termos de conservação ambiental (limpeza). Enfim: parabéns a vocês dois pela organização dessa viagem tão bonita e muito obrigada por todos esses relatos! Eles me enriqueceram muito!

    1. Oi Suzana, você é uma pessoa que acompanhou a viagem toda por aqui. Agradecemos sua leitura e seus comentários. Esperamos fazer outras viagens e ter ânimo para muitos registros ainda.

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