
Fonte: http://desenho-classico.blogspot.com/2016/02/teatro-grego.html
Não há opção sem perda. Decidimos conhecer a Grécia por meio de uma agência de viagem – a Terramundi – que organizou o roteiro de acordo com algumas escolhas que fizemos. Queríamos que houvesse uma parte da viagem pelo continente, de modo a conhecer o período clássico ou antigo da civilização grega, além de Atenas que já é ponto que não pode faltar em qualquer roteiro. Desejávamos, também, conhecer algumas ilhas para satisfazer nosso imaginário, sempre estimulado pelas inúmeras fotos que já vimos na vida, retratando as lindas paisagens insulares do Egeu e do Mediterrâneo.
As vantagens de se optar pelos pacotes organizados por agências são muitas: há sempre alguém nos atendendo para fazer os traslados, facilitar a entrada nos museus e sítios arqueológicos, escolher e reservar os hotéis e decidir onde parar para um café.
Por outro lado, tem as desvantagens: os horários rígidos; as paradas com filas para ir ao banheiro; a necessidade de esperar pelo grupo e obedecer, atentamente, às orientações dos guias; a impossibilidade de se sentar num café e olhar a vida, sem ter horário para cumprir etc.
No dia 19 de junho de 2024, deixamos Atenas em direção a Olímpia. Talvez eu volte a escrever sobre Atenas porque, no capítulo anterior deste diário, registrei apenas a experiência da visita à Acrópole.
Perto da praça Sintagma (Plateia Syntagmatos), a mais importante da cidade, reuniram-se turistas vindo de diversos hotéis para tomar o ônibus, com o qual faríamos o percurso continental do nosso roteiro. Ele é confortável, mas 54 pessoas é gente demais para compartilhar espaços, tempos e satisfazer vontades. Vamos lá, com paciência, mas um carro alugado, para se parar e fazer fotos das lindas paisagens onde bem quiséssemos teria sido muito bom e, com certeza, uma experiência diferente…

Neste dia, o trajeto compreendia o trecho entre Atenas e Olímpia. Deem uma olhada no mapa. Demoramos bem mais do que as 3h51 previstas pelo Google Maps, porque fomos fazendo paradas para começar a conhecer o país.

Saímos da região Ática (em roxo no mapa), onde está a capital, para entrar no Peloponeso (em verde quase azul). Como podem observar, o Peloponeso está numa enorme península, que estava ligada por um istmo ao continente, até ser aberto o Canal de Corinto.

Fonte: https://portaltriptips.com.br/grecia/
Segundo o que li em mais de um site, o nome desta região peninsular deriva de Pelopos Nisos, que significa Ilha de Pélope, em homenagem ao herói lendário que era assim chamado. Na obra de Homero esse território é referenciado como Argos, que hoje corresponde a uma cidade. Nele, teve origem e se desenvolveu, durante o II milênio a.C., a civilização micênica, anterior à grega e constitutiva dela.
O trajeto foi muito bonito, pois, desde que saíamos de Atenas, já víamos elevações no relevo e as planuras e início das encostas estavam, sempre, cobertas de oliveiras.

Para atravessarmos o Peloponeso de leste a oeste, passamos pelas elevações que dominam a parte central desta península e, pela foto e pela imagem de satélite, pode-se ver que as paisagens são semiáridas. Aliás, pelo relatado, não é fácil a obtenção de água, tanto nesta região como em Ática.

Depois de hora e pouco, chegamos ao Canal de Corinto, que é incrivelmente profundo, porque o relevo está elevado neste ponto. Parece ser estreito, mas pela segunda foto pode-se ver melhor que a embarcação não é tão pequena como parece na primeira.


Este canal de 6,3 km liga o Golfo de Corinto ao Mar Egeu. Com sua abertura, a península de Peloponeso pode ser considerada uma ilha.
Segundo a Wikipédia (sempre ela), a primeira iniciativa de “…construir um canal na região aconteceu no ano de 67, em uma tentativa realizada pelo imperador romano Nero, que ordenou a seis mil escravos escavarem a região usando pás. No ano seguinte, Nero morreu e seu sucessor, Galba, abandonou o projeto, por ser caro demais.”
O projeto foi retomado e o canal construído entre 1881 e 1893, evitando que as grandes embarcações do século XIX e grande parte do século XX tivessem que dar a volta de cerca de 700 km pelo sul da península.
Hoje é um canal estreito para os grandes cargueiros internacionais, mas segue sendo usado por navios e barcos turísticos. Pelo que li, 11 mil embarcações atravessam este canal a cada ano. Olha eu aí, fazendo uma selfie.
Mais algumas dezenas de quilômetros e chegamos a Epidauro (em grego Ἐπίδαυρος, em latim Epidauros), que foi uma cidade importante na Grécia Antiga, por ter um santuário dedicado a Esculápio, deus da Medicina, razão pela qual atraía doentes de todo o mundo.
O que escrevo aqui em algumas poucas linhas, nossa guia explicava detalhadamente em 15 a 30 minutos de preleção, a cada parada, no seu castelhano muito bom porque não sentíamos sotaque forte. Ficamos sempre nos perguntando se ela imaginava que iríamos guardar tantos detalhes de sua explicação. Deduzimos que ela apenas estava comprometida em “hablar de mi país”, como sempre frisava.
A cidade, fundada pelos jônicos e depois dominada pelos dóricos, foi sempre uma aliada de Esparta que fica a uns 150 km a sudoeste. Perdeu importância com o domínio romano.
O que conhecemos em Epidauro foi o seu maravilhoso teatro o qual, segundo a guia, é o mais bem conservado da Grécia Antiga. Adorei este teatro grego, construído cerca de 400 anos antes de Cristo. Já havia visitado outro, também erguido pelos gregos, na Ilha da Sicília, mas este realmente estava completo.
A acústica dele é perfeita e, segundo o que li, isso se deve em grande parte à distância em que se encontra da cidade, o que foi proposital, para nenhum ruído atrapalhar a perfeita escuta de todos os expectadores, desde que haja silêncio na plateia.
Sob a civilização grega, ele era destinado a apresentações artísticas musicais ou de encenação, tanto dramáticas como cômicas. Segundo a guia, havia uma primeira fileira onde se sentavam os políticos, que eram sempre objeto de piadas e de ironias, ou seja, a democracia era exercida pelo direito de criticá-los, mas nem tanto, razão pela qual os artistas estavam sempre com máscaras.
Depois, com os romanos, este teatro também foi utilizado para “luchas sangrentas” como ela destacou, de modo irônico, demonstrando claramente que a subjugação dos gregos pelos romanos na Antiguidade não foi engolida até hoje.
Não consegui fazer uma foto tão boa do teatro, por isso reproduzo aqui uma vista aérea disponível na WEB e, na sequência, os registros fotográficos feitos pelo nosso grupinho – dois casais.

Fonte: https://br.pinterest.com/pin/17803361019888237/


Subimos até o último nível e, de fato, era possível ouvir quem falava no centro do teatro. Ele é todo construído em mármore e o encaixe dos blocos de rocha é bem feito porque a construção está quase perfeita.


Dali fomos a Micenas (mais 45 km), uma cidadela construída pelos gregos que foi uma potência militar tão importante, que o interregno de 1600 a 1100 a.C. é nomeado como Período Micênico, dada a liderança desta cidade na civilização grega.
Como tudo aqui na Grécia, sempre há alguma referência na mitologia:
Micenas teria sido fundada por Perseu, neto do rei Acrísio de Argos, pela sua filha, Dânae. Tendo matado acidentalmente o seu avô, Perseu não herdou o trono de Argos. Em contrapartida, procedeu à troca de domínios com o seu primo, Megapentes, que ficou com Argos enquanto que Perseu passou a reinar em Tirinte, tendo, posteriormente, procedido à fortificação de Micenas.
Perseu, casado com Andrómeda, depois de ter tido dela vários filhos, entrou em guerra com Argos, onde foi morto por Megapentes.[5] O seu filho, Electrião, viu a sucessão disputada pelos Táfios, filhos de Ptérelas. Estes reclamavam para si o trono por pertencerem à linhagem dos Perseidas através do seu bisavô Mestor, irmão de Eléctrion. Como este último não abdicou aos interesses dos Táfios, estes vingaram-se procedendo ao roubo de grande parte dos rebanhos reais, que levou os filhos de Eléctrion a entrar num combate que resultou na morte de todos os contendores. Eléctrion decidiu, então, seguir para a guerra, confiando a sua filha Alcmena ao seu sobrinho Anfitrião, que lhe havia resgatado as cabeças de gado. Anfitrião, contudo, mata acidentalmente o seu tio e é obrigado a purificar-se do seu acto, seguindo para o exílio. (https://pt.wikipedia.org/wiki/Micenas)
Vocês pensam que a história acaba aqui? Nada disso, seguem-se várias gerações e mortes, com as quais não vou cansar vocês, mas se alguém que lê este blog deseja conhecer mais, há uma imensa literatura disponível neste mesmo link.
O sítio arqueológico de Micenas é extenso, mas pouco há das edificações antigas.


A grande exceção é a tumba do Rei Agamenão, também conhecida como Tesouro de Atreu, porque as pesquisas indicam que havia inúmeros objetos de ouro e prata, os quais foram objeto de saque pelos romanos, quando estes dominaram os gregos. Vemos a entrada da tumba e seu interior das duas próximas fotos.


Vale demais a visita ao seu Museu Arqueológico que está situado ao lado do sítio histórico. Reparem que as cerâmicas têm semelhança com as de nações indígenas da América do Sul, tanto nas formas (ânforas para água, urnas para os mortos, imagens masculinas e femininas), como nas pinturas que as adornam.



Imaginam o que está na próxima foto? Uma pinça. Não sabemos se as mulheres de Micenas faziam as sobrancelhas, mas já conheciam a importância de um bom equipamento para retirar pelos indesejáveis.

A paisagem da região? Também dominada pelas oliveiras.

Carminha Beltrão
Junho de 2024
