Grécia 5 – Delfos, o umbigo do mundo

Fonte: https://brasilescola.uol.com.br/mitologia/apolo.htm

Delfos é uma pequena cidade grega, onde nos hospedamos, quando viemos de Olímpia. Tem apenas algumas poucas ruas, cujo traçado foi desenhado entre montanhas e um extenso vale onde a agricultura é praticada de modo intenso.

É um lugar simpático e convidativo para um período de descanso. No entanto, nosso objetivo, como turistas que vêm de longe, era conhecer o que restou da Delfos antiga.

Antes mesmo de chegamos ali, quando ainda estávamos conhecendo Olímpia e ouvindo sobre seus jogos famosos, já percebi que aquilo que os gregos chamam de “jogos” é um conjunto amplo de atividades que vão além do mundo dos esportes ou da sorte. Aliás, a seara dos esportes também precisa de um pouco de sorte e, para os viciados em jogos, isso passa a ser um esporte…

Embora houvesse jogos esportivos em Delfos, que eram realizados dois anos antes e depois dos Olímpicos, sua fama não está associada nem a eles, nem a jogos de azar (que nem sei se existiam na Grécia Antiga), mas sim às competições de música e poesia que ocorriam durante este certame denominado Jogos Píticos.

Eram realizados em honra a Apolo e era ele a razão de tudo, porque neste sítio, nas encostas do Monte Parnaso, estava o famoso oráculo de Delfos situado dentro do Templo erguido para este grande deus.

A importância do santuário era tão grande e recebia tantos peregrinos que havia o que se poderia chamar de um “pré-santuário”, um ambiente também sagrado, em que se ficava orando e aguardando por algum tempo, por vezes dias, até se poder aceder ao grande sítio. Vejam que era gracioso esse “pré-santuário”, situado numa escarpa íngreme.

Segundo a lenda e sempre há uma lenda, o oráculo maior era destinado à adoração da Deusa Têmis e era guardado pela serpente Píton. Apolo ali chegou e matou a serpente, dividindo-a em duas, tomando para si o oráculo e notabilizando, com o passar dos anos, este lugar como sendo de orações e de competição artística, que atraía não apenas gregos, mas outros povos, o que o levou a ser reconhecido como “centro do universo” (omphalos), mas que hoje, de modo brincalhão, é também chamado de o “umbigo do mundo”.

No sítio arqueológico, tem uma rocha esculpida para representar essa centralidade metaforicamente associada ao umbigo, mas nossa guia explicou que não é antiga, ou seja, foi ali colocada já no período moderno da Grécia. Pensando bem, não achei nada graciosa essa pequena escultura.

A cada dia me convenço mais de que os gregos tinham autoestima elevada e pensavam grande. Seus deuses eram os mais poderosos, suas estátuas eram as maiores e mais belas, seu santuário era o centro do universo, seu idioma é o que deu origem e sentido etimológico a vários outros etc. Sempre as explicações são majestosas e, é claro, têm correspondência em fatos e evidências, mas é preciso considerar que esta civilização transcorreu, historicamente falando, entre os séculos XIV a.C. e V d.C., tendo, portanto, sincronia parcial às civilizações antigas do Egito (de 3.200 a 600 a.C.) da Índia (de 1500 a 500 a.C.)  e da China (desde 1500 a 221 a.C.), para lembrar outras grandes sociedades da Antiguidade, que também são autoras de grandes feitos.

Voltemos a Delfos, onde estava ele, o filho de Zeus, Apolo, considerado dos mais importantes na mitologia grega e vejam que ele era mesmo demais, quase um Posto Ipiranga, porque servia para tudo. Assim, é descrito na Wikipédia:

… deus da divina distância, que ameaçava ou protegia desde o alto dos céus, sendo identificado como o sol e a luz da verdade.  Fazia os homens conscientes de seus pecados e era o agente de sua purificação ritual; presidia sobre as leis da Religião e sobre as constituições das cidades, era o símbolo da inspiração profética e artística, sendo o patrono do mais famoso oráculo da Antiguidade, o Oráculo de Delfos, e líder das musas. Era temido pelos outros deuses e somente seu pai e sua mãe podiam contê-lo. Era o deus da morte súbita, das pragas e doenças, mas também o deus da cura e da proteção contra as forças malignas. Além disso era o deus da Beleza, da Perfeição, da Harmonia, do Equilíbrio e da Razão, o iniciador dos jovens no mundo dos adultos, estava ligado à Natureza, às ervas e aos rebanhos, e era protetor dos pastores, marinheiros e arqueiros.  

Com tanta importância que Apolo teve, ficamos serelepes para enfrentar a subida para aceder a seu santuário. Atrás do nosso grupo de 50 e poucas pessoas, vinha um de adolescentes franceses com seus dois professores.

O sítio arqueológico está muito bem estruturado, já com várias colunas recompostas e situadas em seus lugares de origem, oferecendo uma visão do conjunto do que deveria ser a visitação aqui na Grécia Antiga.

Chegamos ao teatro grego, onde se dava a parte artística dos Jogos Píticos.

O relevo acentuado traz uma graça adicional a este santuário, uma vez que as edificações vão se posicionando em patamares topográficos diferentes e vão oferecendo ao visitante (do passado e de hoje) perspectivas bonitas para olhar a paisagem, tanto a natural como a construída pelos gregos.

É muito importante que recursos públicos e privados sejam continuamente destinados às pesquisas arqueológicas e reconstituições de sítios, edificações e obras de arte, porque se trata de um trabalho muito minucioso e que demanda tempo e técnica. Vejam a recomposição destas colunas e seu frontal superior. Pode-se ver, pelas cores das rochas, os fragmentos do passado (mais escurecidos pelo tempo) e a composição em cópia dos novos (mais claros), de modo a poder reerguer parte da edificação e nos remeter ao passado.

Delfos era tão importante para os gregos, que, quando um escravo obtinha sua liberdade, pagando a seu dono por isso, o registro de sua liberdade era inscrito nas rochas deste santuário. Assim, à medida em que caminhávamos, víamos que a base das grandes construções e de estátuas que estiveram espaço estão todas gravadas com esses registros.

Fiquei me perguntando sobre as diferenças essenciais entre os peregrinos de então e nós, turistas, que, de algum modo, somos peregrinos modernos em busca de viver experiências. Rapidamente me lembrei que chegamos de ônibus, com ar-condicionado e estávamos com tênis confortáveis nos pés. Não precisei ir muito longe para imaginar homens e mulheres deslocando-se a pé ou em lombo de animais, por dias e dias, para adorar Apolo e concluir que diferenças há, embora sejamos todos peregrinadores, como minha amiga e eu, ou como ela e seu marido.

Carminha Beltrão

Junho de 2024

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