Uma ilha pequena, mas com muita história. Assim, começo a descrever Delos (do grego: Δήλος, Dilos). Ela tem pouco mais de 3 km2 e compõe, como a ilha de Mikonos, o Arquipélago das Cíclades.
Durante a estadia em Mikonos, uma manhã foi dedicada a este passeio. Como em todo o período em que estamos na Grécia, o céu e o mar azuis e o sol brilhante dominavam a paisagem, mas as temperaturas elevadas eram o preço a ser pago por tanta belezura.
Atravessamos o mar entre uma ilha e outra, numa escuna. Revolvi ficar na varanda da popa para apreciar a saída e por ali havia gente falando várias línguas. Os franceses eram discretos, com suas pequenas mochilas e sandálias confortáveis. Um grupo grande de hispano-falantes era o mais barulhento; eles usavam roupas de marca e bastante chiques, para um passeio como aquele. Havia alemães, o que me pareceu serem nórdicos pelo tipo de língua que falavam e lá estava eu, a brasileira, sentada no banco em meio a eles.
Na parte interna da escuna, onde havia mesas e um bar, em pose de alerta estava um homem que olhava tudo e todos. Não sei se era um capataz, um salva vidas ou apenas um faz tudo, mas o fato é que, depois de ver tantos gregos de tez muito clara, este se assemelhou com a imagem que eu tinha deste povo – moreno – e rapidamente me veio à lembrança Anthony Quinn, em Zorba o Grego.
Olhando bem o Quinn era bem mais alegre que o nosso homem forte da escuna.
Assim que nos aproximamos da ilha e o barco atracou, foi possível observar que o sítio arqueológico era enorme e que, em Delos, teria vivido muita gente no passado.
Mal descemos da escuna, esperava-nos nossa guia Illana. Até então os guias falavam o castelhano, mas agora toda explicação seria oferecida em inglês. Ela era simpática e didática, porque não falava apenas com a boca, mas com as mãos e o corpo todo, além de mostrar esquemas gráficos e desenhos que nos ajudavam a imaginar esculturas e edificações tais como haviam sido no passado. Assim, ela conseguia prender nossa atenção por todo o percurso: – capacidade de síntese, objetividade, boa comunicação e excelente bom humor! Olhem rapidamente a sequência de fotos e vão ser capazes de imaginá-la em seu ofício.


Foi ela quem nos explicou que a história de Delos poderia ser dividida em três períodos. No primeiro, relativo ao século 9 a.C., este pequeno território estava sob o domínio da civilização grega. Ali estava um santuário dedicado a Apolo (olha ele de novo aí), pois o ilustre deus da mitologia grega teria nascido nesta ilha. Nesta fase, a ilha era local de peregrinação, onde oferendas eram feitas aos deuses.
A maior preocupação era, então, com o armazenamento das águas da chuva, dada as características do clima, que é o de haver uma longa estação seca. Em função disso, em todas as edificações havia áreas escavadas no mármore de modo a que a água afluísse até ali, bem como orifícios esculpidos na base de colunas ou paredes para que ela passasse de um ambiente ao outro e chegasse às cisternas onde era armazenada. Já havia a preocupação de deixar fendas nas rochas, para que a água também penetrasse no solo e alimentasse o lençol freático.
São deste período os bonitos mosaicos que adornavam pisos e paredes, alguns deles já bem recuperados.
Pequenos altares que, no passado, deviam ser suporte de grandes estátuas, levam-nos a imaginar a ilha santuário que Delos foi.
Várias construções remanescem deste período, assim como objetos, por exemplo mesas, que agora ali estão para nos falar do passado, após serem remontadas pelo trabalho de pesquisadores.

Aqui ou ali algum sobre relevo ou colunas testemunhando a arte grega ou romana, bem como muros e partes de paredes que nos possibilitam ver claramente os corredores que faziam o papel de rua entre as construções.
O segundo período é o de domínio romano e a situação geográfica estratégica de Delos, um ponto entre Roma e o Oriente Médio levou ao apogeu da ilha, onde chegaram a morar 30 mil habitantes e 10 mil escravos. Atualmente, os arqueólogos estão trabalhando na remontagem, segundo as rochas originais de uma grande construção de 71 metros de comprimento onde se realizava o comércio neste período, o que Illana, brincando, chamou de o “shopping center dos romanos”.
Ao final da visita, conhecemos os leões de Naxos, que eram doze, mas agora apenas alguns estão por lá.
Assim que a porção ocidental do Império Romano entrou em declínio e a circulação entre a Europa de leste e o Oriente Médio diminuiu, teve início a decadência da Delos que, por fim, ficou abandonada por mais de 1000 anos. O mármore do qual foram feitas suas construções foi saqueado por moradores de Atenas e Mikonos, o que dificulta o trabalho atual de recuperação arqueológica, que teve início em 1872, por franceses, marcando a terceira fase da história de Delos.
Em função do trabalho de pesquisadores da Europa Ocidental neste sítio, parte da riqueza artística que remanesceu foi também apropriada por eles. Por exemplo, os escombros da estátua de Apolo, de 3 metros de altura, que estava no santuário dedicado a ele, em Delos, agora está remontada num museu londrino.
Com o ocre que predomina na paisagem de Delos, com as flores que mais parecem ressecadas que vivas e o capim seco, que estava por todo lado, atestamos a importância da água para seus moradores no passado.
Para compensar esta aridez, lá está o azul e a transparência do mar.
Se eu gostei de Delos? Gostei muito, mas perdi uma parte das explicações da guia, porque tive que procurar um banheiro, o que não é nada acessível nessa ilha. Os que se situam ao lado da cafeteria estavam interditados. Os que estavam numa das construções dedicadas ao restauro das peças arqueológicas são de uso somente dos funcionários e, assim, num sol ardente, me desloquei por muitas dezenas de metros para chegar ao museu que não estava aberto à visitação, mas tinha banheiros. Chegando lá, uma enorme fila. Ufa!!!
Carminha Beltrão
Junho de 2024






























