Escrevendo o diário de alguma outra viagem, já registrei que o retorno é sempre difícil. Tem o lado bom de voltar para casa, desfazer as malas, rever as pessoas que amamos, mas tem o lado ruim: uma pilha de trabalho nos esperando, tanto o que estava mesmo para ser feito adiante, como o que se acumulou durante o período, porque não tivemos fôlego, nem vontade, de dar andamento durante a viagem. O certo seria essas tarefas ficarem guardadas na gaveta, quando partimos para conhecer um outro país, mas nem sempre é possível contornar as agendas das demandas de outrem.
O resultado da volta atribulada é que perdemos a chance de degustar a viagem, de ter um tempo para relembrar os melhores e os piores lances, de deixar a poeira cair para fazer um balanço. Além disso, os últimos capítulos do diário da viagem ficam comprometidos. Em algumas delas, eles nunca foram escritos; em outras, foram rascunhados e nunca revisados. Aguardam um tempo futuro que, talvez, não chegue.
No caso desta viagem à Grécia, já se vão 28 dias desde a chegada. Eu já tinha tirado da cabeça que concluiria meus registros, mas me sento hoje para contar mais sobre nosso passeio pela Ilha de Rodes.
Já escrevi um pouco sobre o núcleo principal da ilha, sua maior cidade e a capital dela, situada no seu extremo norte – https://carminhabeltrao.com/2024/07/18/grecia-14-rodes/ – e hoje quero contar sobre o passeio que fizemos de carro e que nos possibilitou ter uma primeira visão de conjunto deste território tão charmoso. Vejam, no mapa, o percurso que fizemos em um dia que foi, especialmente, agradável.
Começamos contornando a costa, a partir do norte, indo na direção leste para conhecer Lindos. O nome tem tudo a ver. É lindo no plural!
Achei muito especial a combinação entre o sítio urbano em acrópole e a posição geográfica desenhada por uma baía e uma pequena península. Assim que descemos do carro, perto do que se poderia chamar de ‘a entrada da cidade antiga’, pudemos olhar a pequena praia – a Lindos Beach da foto anterior – e as embarcações, que no domingo, último dia de junho, estavam se movimentando. De longe, via-se que as lanchas e pequenos iates estavam com sua tripulação e seus passageiros a bordo. Na pequena faixa de areia, que a minha foto não captou, havia muitos guarda sóis.
O que eu chamei de entrada da cidade, nada mais era do que um pequeno pátio, com uma árvore frondosa ao meio, a ser circulada pelos carros e ônibus que tinham pouco mais que alguns minutos para deixar descer seus passageiros, pois os guardas adoravam usar o apito. E que apito! Chegava a ser irritante.
Na imagem de satélite podemos ver, ao sul da baía, a cidade. Agora, relembrando dela, posso imaginá-la estruturada por quatro camadas de tempo, que correspondem também a modos diversos de se produzir e viver no espaço: 1. No topo da colina, está a Lindos Acrópolis da imagem de satélite. Nos tempos clássicos, ali situava-se o templo de Atena Líndia (mais ou menos 300 a.C.), mas depois foi edificada uma fortaleza para defender a ilha dos otomanos (século XIV). É esta construção que se vê na porção topograficamente mais elevada da próxima foto, hoje apenas um sítio arqueológico para pesquisa e visitação turística.
2. Nas encostas da colina, está a cidade que se assentou durante o período medieval, com suas ruelas e pequenas construções, hoje ocupadas por cafés, restaurantes, lojas e tudo mais que os turistas adoram. Essa parte da cidade não aparece na foto anterior, mas é a área urbana maior da imagem de satélite. Adiante, você, leitor, vai nos ver andando por ela.
3. Ao pé da colina, entre a cidade medieval e a pequena praia, está a cidade moderna com suas construções sem telhados, todas pintadas de branco (essas sim aparecem na tal foto), o que torna o mar e o céu mais azul do que já são.
4. Por fim, a oeste da rodovia pela qual chegamos em Lindos, estão os hotéis, spas, casas de veraneio e suas piscinas, parte delas encrustadas nas elevações rochosas, o que lhes oferece uma vista do mar linda de morrer.
A charmosa Lindos (que em grego se chama Λινδος), em função de sua posição geográfica estratégica, foi um ponto de encontro entre o mundo grego e o fenício. Por ali, andaram também os romanos, os bizantinos e os otomanos. Até mesmo um grupo sobre o qual nunca tinha ouvido falar – os hospitalários – estiveram por ali e foram eles que construíram a fortaleza que ocupa o topo da colina. Vejam as informações que a Wikipédia traz sobre eles:
A Ordem de Malta ou Cavaleiros Hospitalários (oficialmente Ordem Soberana e Militar Hospitalária de São João de Jerusalém, de Rodes e de Malta) é uma organização internacional católica que começou como uma ordem beneditina fundada no século XI na Palestina, durante as Cruzadas, mas que rapidamente se tornaria numa ordem militar cristã, numa congregação de regra própria, encarregada de assistir e proteger os peregrinos àquela terra e de exercer a caridade. Tem como Santo Padroeiro São João Batista. Atualmente, a Ordem de Malta é uma organização humanitária reconhecida como entidade de direito internacional privado. A ordem dirige hospitais e centros de reabilitação. Possui 13 500 membros, 80 000 voluntários permanentes e 42 000 profissionais da saúde associados, incluindo médicos, enfermeiros, auxiliares e paramédicos.
A história de Lindos começa com os dóricos que ocuparam essa parte da ilha no século X a.C. Foi o núcleo de povoamento mais importante da ilha até ser superado pela atual capital Rodes, no século V a.C.
Foi uma delícia perambular pelas ruas da cidade medieval. Em vários trechos, o revestimento de pedras compondo desenhos era muito especial (embora fácil para escorregar) e ele tinha continuidade nos pisos dos cafés e restaurantes.
Lá do alto, a fortaleza nos espreitava e cada vez chegávamos mais perto dela, à medida que nos perdíamos naquele plano de ruas completamente caótico, ou melhor, acomodado no relevo como era possível.
De repente, a janela azul convidava-nos para uma pausa. O calor estava realmente intenso e nada melhor do que uma sorveteria.
O predomínio de cactos adornando as fachadas e as encostas pedregosas em tons de ocre indicavam a secura que deve predominar durante a maior parte do ano.
A combinação entre secura e calor intenso me desanimou. Sentei num degrau da ruela de acesso ao sítio arqueológico e decidi esperar pelo meu marido e pela minha amiga que, corajosamente, chegaram até lá e fizeram um bonito registro do conjunto da cidade de Lindos.
Na volta, perdemo-nos uns dos outros. Quem está acostumado aos planos urbanos ortogonais, com frequência não se dá bem nessa estrutura espacial medieval. Como nem todos estávamos com dados móveis, foram uns minutos de tensão, mas logo nos encontramos e uma maravilhosa sombra nos esperava.
Para me despedir de Lindos, fiz mais um registro da linda enseada, que é a foto que abre este capítulo. Fiquei com vontade de um dia voltar a esta cidade, mas isso dificilmente irá ocorrer…
Embora houvesse muitos restaurantes simpáticos em Lindos, como o calor estava intenso por volta de 13h pegamos a estrada e olhando as possibilidades no Google escolhemos uma parada bem avaliada – Votsalo Restaurant & Beach Bar – que está no sul da ilha. Bom demais: decoração, vista para o mar, comida saborosa e atendimento super simpático.
Retomamos a rodovia, agora do sul para o norte, contornando pelo oeste. O calor continuava extenuante. Nova parada, agora em Kamilos Skala, para mais um sorvete! Do bar onde nos sentamos, víamos a pequena praia de águas absolutamente transparentes.
O dia terminou no Butterflies Valley. Meu mal-estar decorrente do calor aumentou, permaneci no carro, tentando contornar a pressão baixa demais e os três foram fazer o passeio no parque. Gostaram, mas disseram que as borboletas só ficavam visíveis, porque a sombra das árvores era grande, quando voavam e o amarelo das asas se tornava visível… Quem será que teve a ideia de fazer essa escultura para o parque? As borboletas de verdade são especialmente mais bonitas.
De volta ao hotel, nada melhor do que um descanso para me refazer para a janta.
O dia seguinte foi de puro ócio. Praia pela manhã (não me canso de destacar a beleza do azul).
Tivemos tempo à tarde para comprar umas lembrancinhas antes de partir para viagem no dia seguinte. No final do dia, vimos o sol se pôr na área de entrada da baía em Rodes, onde, no passado, estava o Colosso.
De Rodes voamos para Zurique. Um aeroporto e tanto (o suíço e não o de Rodes), mas foi cansativo esperar oito horas pela conexão para o Brasil, sobretudo quando um expresso, fazendo a conversão do franco suíço para o real, alcança 40 reais…
Carminha Beltrão
Julho de 2024


























