Entre nos perdermos e nos acharmos em Cáceres

Esta é uma cidade tão especial que não deu para contar tudo sobre ela em um capítulo deste diário de viagem. Vamos, então, agora entrar no coração do sítio histórico.

Uma das suas edificações mais portentosas é o Palácio Episcopal, cuja fachada sisuda é comandada pelo portal enorme.

Fonte: https://gestor-eventos.caceres.es/es/plano-ruta-caceres-paso-paso

Na Plaza de Santa Maria, onde encontramos um artista manuseando um instrumento bem peculiar, chamado Hand Pan (panela de mão). O som era agradável e resultava apenas do modo como ele passava a mão sobre uma superfície arredondada de metal. Perguntamos a ele qual o princípio que orientava aquele instrumento e ele sugeriu que a gente comprasse um CD que ele tinha à venda no qual fazia esta explicação. Achamos que não valia a pena, primeiro porque nem se tem mais Toca CDs e, depois, vai saber o que estava mesmo gravado por lá. Fizemos uma doação no chapéu que ele deixava estrategicamente no caminho dos passantes e lá seguimos virando uma nova esquina.

Continuamos a nos perder pelas ruelas, sempre estreitas, para chegarmos em seguida a um pequeno largo, o que em castelhano eles chamam de “plazuelas”, em torno das quais estão as construções maiores. No urbanismo português, do qual herdamos muita coisa, as praças e pracinhas espaços públicos com árvores, arbustos, bancos, estátuas e fontes… no urbanismo espanhol plazas e plazuelas são espaços livres para serem apropriados pelas pessoas. Gosto mais do urbanismo espanhol, quando se considera este aspecto.

Algumas edificações da Cáceres antiga são mais recentes e datam dos séculos XVIII ou XIX. Mesmo nestes casos, a história ainda conta, porque há elementos herdados do período árabe com os pátios internos, aspecto que se incorporou ao urbanismo espanhol e por consequência tem testemunhos na América espanhola. Entrei neste pequeno pátio de um dos palácios de Cáceres e me senti no México ou no Colômbia.

Atravessando a cidade toda, chega-se ao bairro judeu de Cáceres, situado no setor leste da cidade antiga. No geral, cidade histórica pareceu pouco ocupada por moradores de Cáceres, pois as edificações de grande porte ou se tornaram hotéis ou alojamentos turísticos ou parecem ser segunda residência de moradores de cidades maiores da Espanha. No bairro judeu, fiquei com a impressão que havia mais gente morando – vasinhos improvisados, cortinas para cortar o sol meridional, roupas penduradas na janela.

Neste bairro, visitamos um pequeno museu que conta a história de outras três torres, entre as quais apenas uma ainda está inteira. Elas foram erguidas, entre os séculos XI e XII, para proteger o poço que abastecia a cidade: a Cisterna de San Roque. Numa região semi-árida, os árabes sabiam muito bem a importância de guardar e proteger a água.

Desta torre, temos outras vistas: – a da área urbana que se expande a leste; – a da área rural que abraça Cáceres

No bairro judeu, também vimos um painel com a árvore que representa a rede de juderias que há na Espanha.

Já terminando a visita pelo sítio histórico, conhecemos o palácio da Fundação Mercedes e Carlos Ballestero, onde a coleção de quadros, louças e joias encanta.

Simplesmente adorei Cáceres. Perder-se nas suas ruas, o que não é difícil, porque o plano urbano é desordenado, logo é compensado pelo encontro de um novo cantinho ou de uma nova edificação, para, em seguida, já voltarmos a esquinas por onde já tínhamos passado, afinal a cidade não é grande.

Entre nos perdermos e nos acharmos, íamos curtindo tanto o patrimônio histórico como um banco, uma árvore ou um portão…

Terminamos o passeio, com um almoço no Restaurante Torre de Sande. Não vou descrever os pratos para não aguçar seu paladar, caro leitor, mas recomendo a visita, se um dia você for a Cáceres. E se for, preste atenção no pedaço de fachada de vários séculos, que está exposto no hall de entrada. A foto deste painel é a que está no começo deste capítulo do diário de viagem.

Carminha Beltrão

Fevereiro de 2025

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