Começar a conhecer a Extremadura por Cáceres levanta muito o nível de expectativa do turista. Partimos de carro para Guadalupe e Trujillo esperando algo muito especial. Fiquei frustrada com Guadalupe, mas agora passados três dias, olho de outros pontos de vista e já considero que valeu a pena.
Guadalupe é um “pueblo” de cerca de 1800 habitantes. Li na Web que em 2017 foi eleita como a “melhor e mais bela aldeia da Espanha”. Não sei quem votou, mas acho que os eleitores deste certame foram muito bondosos, em que pese algum charme de seu casario, que tem tanto elementos medievais como renascentistas, como o destaque representado pelo grande conjunto arquitetônico, onde está situado o Parador de Guadalupe, da rede de hotéis Paradores de Espanha que se aloja em prédios históricos.
Este hotel é composto por dois edifícios. Um do século XVI, no qual funcionou o Colégio de Gramática destinado aos filhos das famílias aristocráticas da região, onde se estudava também canto e teologia. Trata-se de uma construção de estilo árabe, o que faz com que seus pátios e a arquitetura interior sejam especialmente rebuscados. A outra edificação foi ocupada pelo Hospital de San Juan Bautista, do século XV, considerado um centro científico, pois ali monges exerciam medicina e formavam alunos em áreas correlatas.
Os dois edifícios eram de propriedade do monastério, que é lindeiro ao hotel, o que mostra que na passagem do Feudalismo para o Capitalismo, especialmente no que se caracteriza como Renascimento, a prática científica e a vida espiritual ainda não haviam se separado. Se quiser ver fotos do parador, acesse o link http://www.paradordeguadalupe.com/
Visitar este pequeno aglomerado urbano não se deveu nem ao parador nem à eleição de melhor e mais bela aldeia da Espanha, mas sim ao Real Monastério de Santa María Guadalupe. Sua história é longa. Fizemos a visita durante o dia e tivemos uma visão parecida à da foto que se segue. Pela outra, registrada à noite, tem-se uma ideia do conjunto que compreende essa instituição.

Fonte: https://www.spain.info/pt_BR/lugares-interesse/real-mosteiro-santa-maria/

Fonte: https://www.spain.info/pt_BR/destino/guadalupe/
Trata-se de um monastério franciscano, cuja importância decorre de ser ele o guardião da imagem da Virgem de Guadalupe, considerada patrona da Extremadura e rainha da hispanidade. Sua construção teve início no século XIV e em função de mudanças políticas que geraram influências múltiplas, que incidiram sobre esta região, a construção foi declarada Patrimônio da Humanidade, pela Unesco, em 1993, e se caracteriza por uma mescla de estilos – gótico, mourisco, renascentista, barroco e neoclássico.
Se, no passado, o monastério era cuidado por mais de 50 monges, hoje eles são apenas oito, o que ajuda a explicar o tipo de recepção que se tem, quando se deseja visitar essa construção histórica.
Explico-me. Chegamos à cidade por volta de 12 horas e alguma coisa e logo ficamos sabendo que a última visita do dia seria 12h30. Apressamo-nos para comprar nossos ingressos, inclusive achando que seria uma visita guiada. Nada disso: seguíamos um funcionário que tinha um chaveiro com muitas e pesadas chaves e que apenas exercia o papel de abrir cada sala e nos deixar ficar ali por, no máximo 10 minutos. Com seu semblante mal humorado, comunicando que não via a hora de acabar a visita para ele ir almoçar e fazer sua siesta, ele e nos convidava a voltar ao corredor e nos dirigirmos à sala subsequente, o que mais rápido que nos fosse possível.
A visita transcorria, solenemente, triste, porque além da falta de simpatia dele, imperavam a poeira, que havia por todos os cantos, e a escuridão, já que para proteger as obras de arte da luz, todos os ambientes estavam na penumbra. Nada de iluminação indireta para aprecirmos melhor as obras de arte e documentos, nada de informações que valorizassem o patrimônio, nada de sistemas de museologia interativos, nada de tempo para ler as explicações amareladas pelo tempo. Tudo proibido ou apenas autorizado, conforme o ritmo que ele impunha com suas chaves, abrindo e fechando as portas.
Como a visita aos ambientes do monastério eram ligeiras, fiquei com a impressão de que vi tudo e não vi nada. Mesmo assim duas salas se destacaram.
A primeira foi a que abriga o Museu de Bordados, onde estão vestimentas religiosas e reais dos séculos XVI e XVII bordadas em ouro, provavelmente vindo da América. Nesta e em outras salas do monastério, não eram permitidas fotos, mas segue aqui um detalhe dos bordados que eu extraí da web.
Fonte: https://monasterioguadalupe.com/arte-cultura/bordados/
A outra sala da qual gostei muito foi a do Museu dos Libros Miniados, onde estão lindas e enormes brochuras escritas e desenhadas a mão, finamente ornadas também em ouro. Destacava-se o Libro de Horas del Prior, que achei mais bonito do que ele aparece na foto que se segue, retirada do site https://monasterioguadalupe.com/arte-cultura/cantorales-y-libros-miniado/
Os entra e sai eram tão rápidos que acabei curtindo mais o corredor (com seus quadros enormes e jazigos dos principais religiosos que ali viviam) e o claustro que era lindo (mas ao qual não se tinha acesso porque os portões estavam chaveados).
O pequeno templo em estilo gótico, que ocupava o centro do claustro, era especialmente bonito.
A visita terminava com a ida ao “Camarín”, pequena saleta que está atrás do altar principal da igreja do monastério. Lá, um dos oito religiosos que cuidam deste patrimônio, contou a história de Nossa Senhora de Guadalupe, explicando que a imagem é preta, ainda que a santa que ela representa não o fosse. Segundo o padre, era uma mulher morena por causa do sol da Extremadura e como essa informação se repetia de geração a geração, a sua imagem foi sendo escurecida pelos seus crentes até se tornar, com o tempo, negra.
Na Wikipédia encontrei as seguintes informações:
É uma virgem sentada, feita em madeira de cedro. É de estilo românico ou proto-gótico. A escultura mede 59 centímetros e pesa 3.975 gramas. […]
Existem várias hipóteses sobre a etimologia da palavra “Guadalupe”, do árabe وادي اللب Wādi al-Lubb, que pode significar “rio dos lobos”, “rio de Ibn Lubb”, “rio do urso”, “rio de cascalho negro”, “rio de altramuces”, “rio escondido”, entre outros. O mais provável é que a palavra provenha do árabe (wad, “rio”). O prefixo guada – está presente em outros topônimos de origem árabe, como Guadarrama, Guadalquivir e Guadalajara.
O pesquisador francês Jacques Lafaye, especialista no tema da Virgem de Guadalupe no México, acrescenta que, embora o sufixo -lupe tenha sido interpretado como de origem latina (lupus, lobo), uma investigação filológica mais detalhada (al – artigo árabe) nos daria guad-al-lupe, que significaria mais precisamente “corrente encaixada” ou “rio oculto”.
Segundo uma antiga lenda, a imagem foi feita em um ateliê de escultura fundado na Palestina no século I por São Lucas Evangelista. Séculos depois, foi venerada em templos de Acaya e Bizâncio. Posteriormente, o papa Gregório Magno presenteou esta escultura a São Leandro, arcebispo de Sevilla visigoda. O arcebispo colocou a imagem em uma ermida nos arredores da cidade. Durante a invasão muçulmana de 711, os cristãos da cidade a colocaram em uma caixa e a esconderam junto ao rio Guadalupe, na região da serrania de las Villuercas, aos pés da serra de Altamira.
Depois das explicações que se assemelham ao texto acima, o padre virou, para os visitantes, a base giratória sobre a qual estava a imagem e o ouro reluziu diante dos nossos olhos.
Na sequência, finda a visita ao monastério, fomos à igreja e lá estava ela, a imagem, agora sendo vista no altar, no meio de um retábulo magnífico, com várias pinturas e outras imagens.
Fonte das duas fotos: https://www.cope.es/religion/vivir-la-fe/cultura-y-fe/noticias/historia-virgen-guadalupe-venerada-por-cristobal-colon-convertida-reina-hispanidad-20201009_936038
De longe, a Santa María Guadalupe que acabáramos de ver de perto, no Camarín, parecia até pequeneninha, como você verá leitor, na foto que se segue, onde ela ocupa a posição central na segunda fileira de baixo para cima.
A igreja chega a ser singela diante do altar tão majestosamente dourado. Nos fundos, no mezanino (acho que não se usa para igrejas esta nomenclatura, mas não conheço a certa), há dois grandes órgãos.
Saindo da igreja, lá estava, no centro da Plaza de Santa María de Guadalupe, a pequena fonte que um dia foi a pia batismal do monastério. O sol brilhava, contrastando com a meia luz que experimentamos lá dentro. Era como se eu tivesse atravessado o largo umbral que separa o século XIII do XXI.
Num café em frente, havia bem uma dezena de senhores e senhoras de mais de 70 anos (essa deve ser a idade média dos moradores desta aldeia) que curtiam o sol e uma boa caneca de cerveja, aparentemente indiferentes ao monastério que os espreitava.
[Dois parênteses: 1) 70 anos deve ser a idade média da aldeia, ao menos essa foi minha impressão, os jovens devem ter ido embora; b) eu tenho 69 anos e não me chamaria de senhora, mas acabo fazendo isso ao me referir aos outros, afinal somos apenas pessoas e não precisamos nos definir pela idades socialmente estabelecidas].
Fiquei sem graça de fazer uma foto deles, mas agora encontrei uma na web, que vai ajudar o leitor a conhecer o único point da Plaza de Santa María de Guadalupe.
fonte: https://www.flickr.com/photos/rafaelgomez/47413291841/in/album-72157705970836301
Fevereiro de 2025
Carminha Beltrão











Eu gosto das cidades espanholas. São bonitas e abertas. Muita gente nas ruas. muitos bares… Muito obrigado por Guadalupe!
obrigada pela leitura
Abraço