Nossa chegada à pequena Trujillo foi conturbada. Estávamos mortos de fome. Já é duro esperar o horário normal de almoço na Espanha, que começa às 14h, e, naquele dia, por causa do deslocamento desde Guadalupe, já eram mais de 15h.
Pelo TripAdvisor busquei os dois melhores restaurantes da cidade e para aceder a eles íamos por ruas estreitas, em trechos que mal o veículo conseguia passar, para na sequência lutar por uma vaga para estacionar o carro. Insucesso total! Ambos estavam fechados.
Fazer turismo na Europa durante o inverno tem seus pontos positivos: temperaturas baixas que convidam a caminhar e não se enfrenta filas para entrar nos museus ou para conseguir um lugar num restaurante. No entanto, tem seus lados negativos e um deles é que uma parte dos locais de visitação e restauração estão fechados.
Não havia mais tempo para escolhas. Sentamo-nos à mesa do primeiro bar café que encontramos aberto na Plaza Mayor de Trujillo, cuja nota, nas avaliações do Google Maps, era bem baixa. Com a forme que a gente estava, tudo pareceu bem razoável.
A maior parte dos que estavam ali preferiam as mesas externas. Para nós, a temperatura baixa levou-nos a uma das internas ao restaurante, o que me possibilitou ficar observando o movimento dos dois garçons que, simultaneamente, cuidavam do balcão (preparando cafés, tirando um chopp ou fazendo um drink) e das mesas internas e externas (levando e trazendo bandejas cheias).
A porta de entrada do restaurante só era aberta com um chute deles, pois as mãos estavam sempre ocupadas. Assim, enquanto esperávamos nosso prato, víamos a destreza e precisão com que colocavam a força certa no pé, de modo a que o ângulo e o tempo de abertura da porta fossem suficientes para eles passarem sem serem abalroados com a volta dela se fechando sobre eles. A madeira da porta estava desgastada no exato lugar onde eles a chutavam, o que nos leva a supor as centenas ou milhares de vezes em que a porta vem sofrendo ataques. Será que é disto que vou me lembrar mais de Trujillo? Talvez, mas há coisas mais importantes a serem registradas.
A cidade tem pouco mais de oito mil habitantes. Está situada no divisor de águas entre dois rios importantes – Tejo e Guadiana – o que significa que tinha uma situação geográfica estratégica no passado, pois possibilitava ver e controlar extensões importantes de terra, desde sua posição mais elevada.
Sua história remonta ao período pré-românico, quando era apenas um pequeno aglomerado e terá se chamado Turaca ou Turacia, segundo que li em sites da web. Depois disso, levou o nome de Turgalium (seu nome romano), Torgiela, Troxiello, Trugillo (estes de influência árabe) e, finalmente, Trujillo. Esta denominação atual espalhou-se pela América espanhola, já que esta cidade foi berço de personagens importantes que atravessaram o Atlântico em busca de terras novas, ouro e prata. Assim, há cidades chamadas Trujillo em Honduras (1525), Peru (1535), Venezuela (1556), Porto Rico (1801) e Colômbia (1922).
O patrimônio arquitetônico da cidade decorre, em grande medida, da riqueza trazida por estes desbravadores, entre os quais se destaca Francisco Pizarro, que dominou o Peru, em 1653, e Francisco Orellana, considerado o descobridor do Rio Amazonas.
Na Plaza Mayor de Trujillo está a estátua equestre de Pizarro e num dos vértices dela, situa-se o edifício público mais importante com a bandeira da Espanha. Antes desta, a cidade deve ter tido muitas outras bandeiras, como a romana, a árabe e as de senhores medievais que a dominaram.
Depois do domínio romano, na Era Medieval, a cidade recebeu vários codinomes: Ciudad Muy Noble, Muy Leal, Insigne y Muy Heroica.
Observe no mapa que incluo, a seguir, a Plaza Mayor com a Estátua de Pizarro que está fora da cidade histórica delimitada pelos muros, conformando um sítio urbano muito parecido com o de Cáceres, porque aqui também a praça principal está num patamar topográfico inferior à da cidade romana, árabe e medieval e fora de seus muros. Passado e presente, lado a lado, testemunhando influências e culturas diferentes.
Fonte: https://trujilloteespera.com/wp-content/uploads/2021/11/Mapa-de-Trujillo-Trujillo-te-espera.pdf
Demonstrando a importância que a cidade teve, estão para contar história várias portas de entrada, a altura das torres da proteção e a existência de edificações de três ou quatro pavimentos erguidas em pedra.
Numa das edificações mais bonitas está instalado o Museo de los Descobridores.
Da porção mais elevada do sítio histórico, avista-se a cidade adentro e afora da muralha.
A muralha está muito bem conservada e se mantém em grande parte dos limites da cidade histórica (observem no mapa e vejam as fotos).
Como em toda cidade histórica, as ruas estreitas encantam e convidam ao passeio sem rumo. Algumas casinhas mais modestas pintadas de branco indicavam que há gente morando nesta porção histórica da cidade. Embora as construções mais portentosas sejam edifícios religiosos ou institucionais, havia alguns bem conservados, que pareciam ser segunda moradia de famílias abastadas.
Adorei as torres de edifícios religiosos e de palácios adornadas à moda árabe, mostrando que a reconquista feita pelos espanhóis de Castilla não foi completa, porque, como sempre, ficam os testemunhos do passado imortalizados nas formas arquitetônicas e no tecido urbano, moldado por ruas e praças.
Por fim, o destaque fica para a Iglesia de Santamaria La Mayor.
Ela é singela, pois não há nada de muito monumental na construção, mas as ogivas no texto e o retábulo central são lindos. Mais ouro da América para adornar as edificações da Europa.
Carminha Beltrão
Fevereiro de 2025






















