Esquecimento e Memória: A Experiência em Marvão

As pesquisas sobre como funcionam a memória não são suficientes, ainda, para decifrar seus mecanismos. Muito se fala sobre seu funcionamento, no plano do senso comum, mas ainda resta muito a descobrir, cientificamente falando. Talvez isso explique, porque não são simples as investigações sobre a psiquê humana, talvez porque não seja muito bom saber tudo sobre ela.

O fato é que de algumas coisas e lugares nos lembramos muito bem e de outros há efetivo apagamento, ou quase isso. O maravilhoso Mia Couto disse que, às vezes, é melhor esquecer que lembrar. Por isso, algumas vezes sendo convidado a palestrar sobre a relação entre memória e identidade, preferiu dissertar sobre o esquecimento.

A foto que abre esse capítulo do meu diário de viagem retrata metaforicamente o largo muro que nos separa da imensidão de coisas que vivemos, escutamos e vimos, com uma pequena fresta para trazer à consciência algo que a memória nos libera.

Sobre Marvão, minha memória não queria liberar nada. Segundo meu marido, já estivemos nesta cidade murada, quando de uma viagem com nossos queridos amigos Marilu e Dióres.

O nome da cidade me dizia alguma coisa de longe, mas não conseguia me lembrar de uma imagem sequer sobre ela. Resolvemos, então, atravessar a fronteira entre Espanha e Portugal para voltar a ver Marvão, como se fosse a primeira vez para mim.

Que graça de cidade! Como eu pude me esquecer dela? Antes mesmo de entrar já era possível ver seu sítio urbano em acrópole, encravado nas rochas.

A foto que se segue é de um poster que encontrei afixado numa de suas ruelas e oferece uma visão área deste sítio urbano.

Estacionamos o carro num parking externo à muralha e adentramos pela Porta de Ródão, à qual se acede por um aclive íngreme. Não tem como não imaginar, no passado, agricultores, peregrinos e mercadores chegando até aqui a pé ou a cavalo. Não havia asfalto, nem automóvel, nem tênis Nike nos pés. Que dureza!

Dá para supor a importância de Marvão teve na Idade Média pelo fato de ela ter duas portas, ou seja, uma muralha dupla com um fosso interno. Ela compunha com outras cidades uma linha de 62 fortalezas que foram erigidas para defender a fronteira portuguesa a leste. Vejam o que se explica sobre elas:

Portugal continental é delimitado a norte e a este pelo território espanhol, sendo esta uma das mais antigas fronteiras da Europa.

A região fronteiriça, vulgarmente denominada “raia”, e a sua história estão associadas à reconquista na parte ocidental da Península Ibérica, e tem origem em acontecimentos determinantes como o Tratado de Zamora, de 1143, que assinala o nascimento de Portugal como reino independente, e o Tratado de Alcanizes, de 1297, que estabelece, no essencial, as fronteiras do nosso país.

A necessidade de assegurar a defesa e vigilância na região fronteiriça materializou-se num vasto conjunto de fortificações que são hoje testemunho de séculos de história e exemplares únicos de arquitetura militar do passado.

Fonte: https://fortalezasdefronteira.turismodeportugal.pt/

Veja o mapa, pois ele ilustra bem como essas fortalezas compunham uma verdadeira barreira de proteção ao Reino de Portugal, em sua porção continental. Compare com o mapa seguinte e verá a situação espacial de Marvão.

Fonte: https://fortalezasdefronteira.turismodeportugal.pt/

Antes de passar pelo umbral da porta principal, já víamos o casario branco.

Imagino que, na Idade Média, as casas não estavam pintadas de branco, mas fica muito mais gracioso assim. Já tínhamos curtido essa homogeneidade, pincelada pelos tons amarelos ou azuis das molduras de portas e janelas, em Óbidos, e agora estávamos aqui nos deliciando com essa paisagem do passado que se realiza numa transição para o presente, como os novos usos dos imóveis vão demonstrando e os sentidos dados à paisagem pelo turismo atestam.

Segundo as informações que busquei na web, conforme levantamento feito em 2021, Marvão tinha, na cidade, 398 habitantes e, no município, 3021. Está situada na região do Alentejo a 860 metros de altitude, incrustrada na Serra do Sapoio.

Esse tamanho demográfico e o frio ajudam a explicar porque a cidade estava quieta às 11h da manhã, mas quando a deixamos duas horas depois, com o sol mais quentinho, já estavam abertos os pequenos mercados de produtos regionais, uma ou duas lojinhas de lembranças (comprei dois cartões com desenhos estilizados de Marvão), um ateliê de arte que continha quadrinhos com dizeres de Saramago e sobre relevos de cortiça representando casarios ou gatos ou luas e uma outra bodega.

Encontramos um único estabelecimento de restauração aberto: um café chamado Lounge do Castelo. Poderia haver um nome mais contraditório? Misturar o castelo medieval com a americanização da linguagem é um pouco demais, sobretudo porque o café era hiper tradicional na sua decoração interna e no comportamento e vestimentas das duas mulheres que faziam o atendimento.

Será que elas falavam a mesma língua que eu? Tive dúvidas, tal era a frequência com que engoliam, ao menos, uma sílaba de cada palavra. Não diziam as coisas, mas gritavam. Super simpáticas, iam servindo e comendo pedacinhos de croissant ou de doces que estavam por ali.

Mesmo sem entender tudo que as duas portuguesas falavam, foi um alívio encontrar esse café aberto, pois tanto queríamos ir ao banheiro, como esquentar o corpo por dentro (uma xícara quentinha da deliciosa bebida e um croissant caíram muito bem).

Do café fomos direto à visita ao castelo e suas torres. O espaço estava bem-organizado para receber os turistas, que, naquela manhã de 3ª feira invernal, éramos nós dois e mais meia dúzia de chineses. É impressionante como eles nunca estão sozinhos ou em casais, são sempre grupos que se notabilizam pelo tamanho das objetivas de suas máquinas fotográficas. Olha eles aí embaixo.

Na entrada do conjunto museológico, estava uma escultura moderna, além da grua que dava apoio a uma reforma. Eu gosto da mistura entre o antigo e o novo.

A vista das paisagens a partir do alto era deslumbrante e compensava, por causa da luz do sol, o vento cortante que fazia. Imagino o horror que deveria ser passar a noite naquela guarita durante a Idade Média para avistar ao longe um possível inimigo.

A muralha está muito bem conservada e, num bom trecho, pode-se caminhar por ela.

Não muito longe do museu, ainda num patamar elevado da cidade está a edificação ocupada pelo Concelho (é assim mesmo que se escreve em Portugal e corresponderia à nossa Prefeitura Municipal). Tudo muito bem-organizado, limpo e conservado. Numa cidade de tão poucos habitantes, dezenas de carro pelas ruas e praças.

Chamou atenção o fato de que havia ao menos duas construções antigas em reforma com recuperação muito bem-feita do patrimônio arquitetônico. Paredões externos mantidos e reconstrução quase completa por dentro. Os pedreiros que estavam em trabalho eram afrodescendentes. Portugal é um país pequeno de cerca de 11 milhões de habitantes e, muitas vezes, demonstra estigmas em relação aos imigrantes e estrangeiros, como podemos acompanhar pelas notícias veiculadas pela mídia. No entanto, o fato é que precisa deles tanto para os trabalhos braçais, como para o turismo animando o mercado de AirBnB, hotéis e restaurantes, num país em que o patrimônio é maior que a população. Já li em algum lugar que há mais de um imóvel por pessoa (não é por família) neste país.

Pouco antes de deixar a cidade passamos por um pequeno jardim ao lado do complexo onde está o museu e pronto: um flash de memória funcionou. Lembrei-me que exatamente ali tínhamos feito um lanche em 2004, na tal viagem com nossos amigos. Marvão voltou do fundo da minha memória, por meio de um de seus cantinhos mais comuns.

Terminamos a visita e, para manter a tradição em Marvão, fizemos um pequeno lanche-almoço, numa área própria para pic nics que estava anexa ao parking (eu me achei péssima nesta foto).

Era 4 de fevereiro de 2025 e completávamos 47 anos de vida juntos. Parece que foi ontem, mas tanto temos a sensação que passou rápido como a de que fazem séculos que compartilhamos a vida, sempre curtindo as viagens. É assim que a memória funciona, simultaneamente comprimindo e alargando o tempo.

Carminha Beltrão

Fevereiro de 2025

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