A Andaluzia de Huelva

Fonte do mapa: https://br.pinterest.com/pin/728809152206613118/

Passamos da Extremadura para a Andaluzia sem grandes contrastes paisagísticos, embora a região mais meridional da Espanha tenha mais palmeiras do que a ocidental.

Nossa ida a esta região, onde já estivemos várias vezes a trabalho ou a passeio – Sevilha, Córdoba, Granada, Cádiz – deveu-se a um desejo muito singular do meu marido: conhecer o porto de onde Colombo partiu para “descobrir” a América. Isso eu vou relatar, no próximo capítulo do meu diário de viagem, mas faço referência aqui para entenderem, por que passamos três noites em Huelva.

Veja a situação geográfica desta cidade no mapa obtido por imagem de satélite.

Nossa reserva tinha sido feita pelo Booking, para o Hotel Exe Tartessos, que fica muito bem situado, na Avenida Martin Alonso Pinzón, mas que foi difícil de encontrar, visto que, estando ele numa rua de pedestres, rodávamos em torno da quadra sem chegarmos à sua porta.

O ambiente de Huelva é extremamente agradável. Embora ela esteja a alguns quilômetros do Mar Mediterrâneo, às margens dos Rios Odiel e Tinto, nela há um clima praiano. As pessoas parecem mais leves, expansivas e coloridas do que nas outras cidades espanholas pelas quais passamos nos últimos 20 dias. Já no dia da chegada foi possível ver os cafés cheios de gente: alguns tomando um capuccino e comendo uma torta doce (recomendo 0 café La Tartería Las Alemanas para isso), outros já na cerveja ou vinho.

No dia seguinte, fizemos um passeio muito agradável por Huelva durante toda uma jornada, ao final da qual, olhando no APP Pedômetro, vimos que foram mais de 10 km.

Começamos pela própria rua do hotel, cujas construções com arcadas no térreo atribuem certa harmonia ao conjunto arquitetônico.

O prédio ocupado pelo Ayuntamiento (corresponderia à prefeitura para nós) guarda um recuo em relação a esta via principal, o que garante uma distância que favorece a apreensão de toda a fachada.

Neste largo, alguns homens trocavam ideias e logo chegou uma van trazendo painéis que anunciavam uma exposição de roupas andaluzes, que ocorreria justo naquela noite.

Ficamos animados porque, nas fotos os vestidos eram lindos. Eliseu resolveu, então, perguntar para o rapaz que parecia ser o “chefe” da montagem do tal desfile, como poderíamos comprar um ingresso.

Ele estava atarefado com um ar de azáfama, mas parou, deu uma olhada de cima a baixo em nós dois, que estávamos lá tão elegantes de tênis, jeans e jaqueta de nylon e, numa postura superior, explicou: “É uma exposição apenas para convidados do alcaide”. Não era preciso ser tão imperioso no olhar o no tom, como ele foi, por isso saímos rindo da situação e lamentando não termos o convite tão especial.

Chegando à Plaza de las Monjas de Huelva, vimos que o palmeiral banhado pelo sol causava uma sensação ótima e estava sendo aproveitado por muita gente que, naquela manhã invernal. Ele estava ali apenas curtindo o quentinho. Ao se chegar nesta praça, vindo pela Avenida Martin Alonso Pinzón, está a estátua de Cristóvão Colombo, numa dessas poses heroicas que os escultores tanto gostam de reproduzir, para agradar a freguesia.

As edificações que ladeiam a Plaza de las Monjas são, em grande parte, recobertas de tijolinhos ou pintadas em tons ocre, o que oferece alguma homogeneidade ao conjunto arquitetônico, constituído por essas fachadas. As varandas com suas ferragens e rendilhados à moda árabe também compõem a ambiência tão agradável.

Algumas quadras depois, na Plaza de la Merced, está a Catedral. Na praça, também, está situada a Santa Igreja Catedral de La Merced de Huelva, da qual gostei muito. Ao contrário de outros templos espanhóis e europeus, de um modo geral, que são do mesmo período, ela não é acinzentada, mas está toda pintada de branco por dentro.

O contraste entre o branco das paredes e na abóbada central, o granito avermelhado no piso e os altares e adornos de madeira enfeitados sobejamente com outro compõe um conjunto luminoso que trazia uma sensação muito boa.

Não é uma igreja majestosa, mas dá vontade de ficar ali sentada espreitando a luz e o ouvindo o silêncio.

Na saída, resolvi prestar mais atenção na torre com o sino, porque escutei um cantar altos de pássaros. Lá estavam elas de novo:  as cegonhas cuidando de seus ninhos e competindo com a cruz por um lugar ao sol.

O coreto, lembrando outros tempos deste espaço público, ocupava seu lugar como um adorno urbano que, talvez, possa parecer sem sentido hoje, mas cumpre o papel de testemunhar o passado, por meio de usos do espaço público que foram importantes na Modernidade europeia.

Dava para imaginar senhoras trajadas com chapéus e luvas portando sombrinhas, senhores com ternos, coletes e bengalas, crianças com vestidos de renda guipir branca, todos chegando para escutar uma banda ou pequena orquestra numa tarde de domingo.

Não foi difícil lembrar, com pena, da demolição do coreto de Presidente Prudente, onde moro. Sendo ela uma cidade de pouco mais de 100 anos é incrível constatar que quase nada resta de seu passado pouco longevo.

Continuamos nossa caminhada até o Muelle de la Companía del Riotinto onde há o que eles chamam de Paseo Marítimo de la Ría, de onde se avista o rio majestoso e ilhas em restinga que compõem uma reserva destinada à proteção de aves.

Não entendemos bem a razão dessa construção que é extensa tem três pisos, adentra na água com suas bases de ferro, muito madeira e milhares e milhares de parafusos. Ele não tem o papel de segurar as águas, tampouco serve de apoio a embarcações. Havia pouca gente andando por ali por volta de 11h da manhã, talvez por ser inverno e um dia de semana.

Retomamos a caminhada nos afastando um pouco do rio e voltando à cidade dos moradores, com o desejo de ir além dos pontos turísticos.

Já era menor o número de pessoas nos cafés. Chamou nossa atenção, diariamente durante esta viagem, o movimento desses estabelecimentos entre 9h30 e 11h30. Tiramos três conclusões: ninguém toma café da manhã em casa; – o poder aquisitivo médio é suficiente para esta escolha; – as pessoas ou estão aposentadas, ou não trabalham ou pouca gente começa a trampar cedo.

É descabido chegar a explicações deste tipo, eu sei, pois não tenho dados para essas conclusões, mas escrever relatos de viagem num blog não exige precisão não é mesmo, leitor? Com essas e outras, recomendo que não acredite em tudo que registro aqui.

Andamos mais um pouco e chegamos à maravilhosa edificação que foi erguida entre 1881 e 1883 para ser um hotel à altura do que mereceria Huelva. Veja a descrição contida num painel que se encontrava dentro do prédio.

Trata-se de uma construção em “U” que, internamente, tem uma fonte. Hoje, não é mais usada como hotel, chama-se Casa Cólon, também em homenagem a ele o grande personagem da história de Huelva. Pareceu ser, agora, um prédio público. Tem um anexo moderno, aos fundos, que é utilizado para eventos. Estava justamente acontecendo um Congreso Nacional de Hidrógeno Verde.

No pátio interno, acomodada entre duas palmeiras, havia uma laranjeira carregadinha de frutas.

Próxima parada: Museu de Huelva. Minutos antes de chegar já tínhamos decidido que não íamos entrar. Quando se está numa viagem, como a que fizemos neste fevereiro de 2025, passando por várias cidades e lugares, chega uma hora que não se deseja mais ver qualquer exposição de objetos, documentos ou obras de arte, porque tudo parece se embaralhar na nossa cabeça.

Mesmo assim quis fazer uma foto da fachada da construção que fora de uma família da elite de Huelva. Lá estava uma professora com seus alunos. Quando me viram, os jovens pararam de ouvir a docente e começaram a brincar comigo: algumas meninas deram tchau, outras fizeram coraçõezinhos com as mãos, outras poses; os meninos foram mais brincalhões ainda, com uma mímica indicando que cobrariam para serem fotografados. Confirmaram assim minha primeira hipótese de que a gente de Huelva é muito alegre e descontraída.

Andamos mais um tantão para conhecer uma vila operária de Huelva, que leva o nome de Bairro Reina Victória.  Na sua parte frontal, um pequeno parque e a escadaria de acesso às ruas onde estão as casas.

Foi espetacular ver aquele conjunto de residências tão bem preservado. Li depois na web que as casas compartilham os estilos neerlandês e andaluz, e foram projetadas pelo arquiteto Perez Carasa.

 Notamos pelo tamanho e pela fachada das construções, que o conjunto foi planejado com alguma diferenciação social que, talvez, correspondesse aos ofícios e funções de seus moradores. Algumas casas tinham dois pavimentos e ocupavam terreno maior, enquanto outras eram mais modestas. No entanto, o que chamou atenção é que não estavam separadas ou distantes entre si, pois numa mesma quadra havia casas de padrões bem diferentes entre si.

Ao final do dia, já com as pernas bambas, passamos pelo El Corte Inglés para um “almojanta” e para bisbilhotar os preços dos produtos ainda em campanha de “saldos de inverno”. Nesses passeios por magazines, a seção que curto mais é a das louças e panelas, que, no geral, na Europa, têm qualidade e design mais bonitos que os nossos. Mesmo assim, não comprei num uma tigelinha que fosse, preocupada com as dificuldades de acomodá-la nas malas.

Gostei de Huelva. Quando estou viajando, ao conhecer lugares novos sempre me pergunto se moraria ali. Pensei que gostaria sim de morar uns meses nesta cidade.

Fevereiro de 2025

Carminha Beltrão

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