Alcântara, uma ponte e as cegonhas na Extremadura

A visita a Alcântara foi muito pontual. Nosso desejo era conhecer uma das maiores pontes romanas que permanecem eretas e firmes.

A cidade passa certo ar de desolação, porque há muitos imóveis desocupados, alguns até em processo de deterioração.

Procurei verificar se ela tinha sido maior populacionalmente do que hoje, que tem 1.300 habitantes, mas não encontrei nenhuma informação confiável, já que os dados indicados em diferentes sites discrepavam entre si.

Na praça principal, em frente à igreja matriz que estava fechada como tantas outras que encontramos nesta viagem, imperava a estátua de São Padro de Alcântara. Gostei da representação estilizada dele, embora a obra de arte estivesse num patamar topográfico muito inferior ao da entrada da igreja o que a desvalorizava.

Para cumprir nosso objetivo em Alcântara, buscamos o caminho para a ponte que lhe dá fama pelo Google Maps. Não notamos que o filtro era o do “menor caminho” e não do “melhor caminho”. Assim, foi quase um rally para chegar a ela: passamos por ruas super estreitas, fizemos conversões cujo ângulo não era o mais adequado ao tamanho do carro e, por fim, enfrentamos um declive acentuado em curva fechada, para chegar a ela.

No vale, meio encaixado, o majestoso Rio Tejo, que tanto deve ter servido, aos romanos, como via de locomoção aquática, quanto como barreira para controlar o comércio e a entrada dos mercadores em Alcântara.

A altura da ponte impressiona e o sistema construtivo também, com o lindo portal que fazia as vezes de ponto de cobrança de impostos. Foi construída pelo Imperador Trajano. Está sustentada em 6 arcos, tem 194 metros de extensão, 61 metros de altura e 8 metros de largura. Está tão firme que passam veículos automotivos por ela.

Seu nome – Ponte de Alcântara – segundo li na web é do período muçulmano (Idade Média na Europa), pois “al-Qantarat” ( القنطرة)” significa “a ponte” em árabe.

De lá era possível ver alguns restos da muralha que, no passado, estava protegendo a cidade.

Gostei da estátua de São Pedro de Alcântara, da ponte romana e da muralha, mas curti mesmo foram as cegonhas que tomam conta dos cumes das maiores construções e ali protegem seus ninhos a passam a impressão de que são donas do pedaço.

Elas emitem um som muito alto que, segundo o que apurei, é “… produzido pela colisão do maxilar e da mandíbula. Este barulho, forte como o bater de castanholas, tem vários significados consoante o ritmo. Por exemplo, é lento durante o acasalamento e rápido enquanto sinal de alerta.”

Ao emitirem este som, as cegonhas estão glotorando (é óbvio que não conhecia o verbo glotorar, mas acabei encontrando no dicionário, para substituir o genérico piar que serve mais para os pintinhos. Risos). Quer saber como é este som?

As cegonhas são grandes e parecem fortes. Dá para imaginar que têm força para carregar bebês, mas é difícil aceitar como essa fábula foi se disseminar também no Brasil, onde não há cegonhas. A mim, quando era criança, não me ocorreu indagar onde estavam as cegonhas que traziam os recém-nascidos.

Por mais esforços do poder público que sejam realizados, por mais dinheiro da União Europeia que seja investido, ao passearmos pelos lugarejos, cuja importância histórica e o apelo turístico são menores, aquilatamos o tamanho do patrimônio que não será possível recuperar.

Em todas as cidades pequenas da Extremadura, alguns pueblitos, vimos construções desocupadas e muitas delas já em processo avançado de destruição. O que fazer? Não seria fácil defender a tese de mais investimento para a recuperação do patrimônio europeu ou asiático, quando, no Sul Global, as desigualdades são muitas, as formas de expropriação variadas e é preciso atender demandas mais urgentes como a de saciar a fome de uma parte das sociedades.

Fevereiro de 2025

Carminha Beltrão

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