Capital da Comunidade Autônoma da Extremadura, Mérida que tem cerca de 60 mil habitantes. É menor que Cáceres, mas impressiona pelo patrimônio arquitetônico que herdou do período romano.
Foi fundada em 25 a.C. pelo Imperador Otávio Augusto, como núcleo urbano para viverem os soldados aposentados, o que explica seu nome que vem do latim Emerita sujo significado é aposentada ou veterana. Oficialmente, durante o domínio romano, chamava-se Augusta Emerita, sendo o primeiro nome homenagem a seu fundador.
Pela importância que teve durante aquele império, foi capital da província romana denominada Lusitana, que abrangia terras que hoje são espanholas e territórios atualmente portugueses.
Com o fim do império Romano, Mérida manteve sua importância durante o Reino Visogótico e, em 713, foi tomada pelos mulçumanos que a tornaram capital da Cora de Mérida. Somente em 1230 foi reconquistada pelos cristãos.
O patrimônio deixado pelos romanos está disperso na atual área central da cidade. Assim, diferentemente do que vimos em Cáceres e Trujillo, onde a cidade medieval está claramente distinta da cidade atual, no caso de Mérida, o que se tem é uma mescla, que surpreende o visitante. Muitas vezes, do nada, caminhando por uma rua comercial, chega-se a uma edificação de séculos de existência. Enquanto caminhamos, vamos constatando que a Mérida Romana está integrada à Mérida Hispânica.
Começamos o passeio pelo sítio arqueológico do poço romano de neve. Os romanos a transportavam das encostas mais elevadas da serra e a armazenavam tanto para preservar alimentos, como para, em caso de necessidade, descongelar e aumentar o estoque de água. A explicação do painel ajuda mais a entender a finalidade daquela construção, do que as formas materiais que restaram.

Na sequência, fizemos a visita ao maior parque arqueológico da cidade onde estão o circo e o anfiteatro romanos. Em frente a ele, há um museu que se encontrava em reforma. Fiquei muito impressionada como tamanho, grau de preservação e adornos que caracterizam essas duas construções, comparativamente a similares que tive oportunidade de conhecer na atuais Itália, Turquia e Grécia.
O anfiteatro está especialmente bem conservado, com a fachada posterior ao palco quase completa com suas colunas e cinco esculturas, uma ao meio e duas de cada lado.


Em outros sítios arqueológicos romanos ou gregos que conheci, áreas como a que se seguem eram as destinadas ao comércio. Em Mérida, não havia uma explicação para essas colunas, mas deduzi que podia ter sido essa a função deste espaço. Só não foi possível entender as razões que orientaram a desse brise de alumínio acima delas. Não servem nem para protegê-las do sol nem da chuva e, ademais, competem visualmente com as próprias colunas.
Entre o circo e o anfiteatro, algumas oliveiras estavam lá para nos fazer lembrar que estávamos no domínio climático do mediterrâneo. Aliás, este foi um ponto alto da visita à Extremadura: há olivais por todo lado, na área rural e muitas espécies adornado as cidades e os quintais.
O denominado Templo de Diana, cujo nome permanece, mesmo que as pesquisas arqueológicas mais recentes tenham descoberto que não era dedicado a ela, mas sim a Otávio Augusto, está igualmente integrado à cidade atual. As pessoas que ali vivem (e não apenas turistas) estão passando para ir ao trabalho ou às compras. Deveria ter feito um registro fotográfico das construções que estão lindeiras e são do século XIX hoje destinadas, em grande parte, a alojamentos para turistas, como a placa AT (alojamentos turísticos) indicava.
O arco de Trajano é outra herança romana que remanesce integrada à cidade atual. Fiquei imaginando os moradores dos prédios lindeiros, acordando, abrindo a janela e se deparando com 20 séculos olhando para eles.
Os romanos também deixaram sua marca na extensa ponte que ergueram sobre o Rio Guadiana
Por fim, para concluir nossa visita ao mundo romano de Mérida, fomos conhecer o aqueduto, que remanesce ereto cortando a paisagem contemporânea.
Além de Otávio Augusto, em Mérida, as homenagens são várias para Cayo Julio Cesar Augusto que parece ter sido um imperador de grande destaque.
No entanto, Mérida não vive só dos romanos. A presença árabe é importante.
Ao lado da maravilhosa ponte romana, temos a Alcazaba Árabe de Mérica, antiga cidadela mourisca, que funcionava como um forte importante onde habitavam tanto soldados como governador muçulmano da Mérida sob domínio. É uma construção portentosa, pouco adornada, mas situada estrategicamente ao lado da ponte.
Dentro da fortaleza, está a edificação onde morava o governador. Dela, além de parte das paredes laterais, ainda restam duas colunas e o adorno que, originalmente, estava em posição mais elevada. Uma parte delas das colunas não restou para sustentar o que, suponho, era símbolo do poder muçulmano sobre este território. Segundo as informações contidas nos painéis, os moradores de Mérida não aceitaram pacificamente o domínio árabe, razão pela qual a fortaleza era, de um lado, para demonstrar o poder e controle sobre a entrada da cidade, na sequência da ponte, de outro tinha a função de atacar os moradores da cidade, quando estes se rebelavam contra o dominador.
Do alto de muralha que cerca a fortaleza avista-se o Rio Guadiana e se pode supor a importância estratégica deste forte, no que se refere ao controle político sobre o território e econômicos sobre o comércio. Aliás, há os restos da muralha romana e a cinco ou seis metros dela, por fora, está a que foi erguida pelos árabes, ou seja, essa fortaleza se erigiu sobre escombros romanos.
Além da herança romana e da árabe, Mérida também tem um patrimônio hispânico considerável de construções do século XIX e começo do XX. Grande parte está em ruas tornadas exclusivas para pedestres, que estão adornadas com as árvores carregadinhas de cítricos (laranjas, limões sicilianos e mexericas). Acho que é proibido colher, porque não vi ninguém sequer tocar em uma das frutas que estavam maduras convidando ao pequeno delito. Consegui resistir e com medo dos carros com a inscrição Polícia Social, que rondavam por todo lugar, não colhi uma frutinha sequer.
O hotel da rede “Paradores de Espanha”, em Mérida, está situado na Plaza Mayor, onde outras edificações compõem o patrimônio hispânico desta cidade.
A herança árabe não está só na fortaleza. Aparece também nos prédios dos últimos dois séculos, quando a cidade já estava há tempos como parte do Estado espanhol. Também é sentida nos rendilhados que adornam grades e sobre relevos nas fachadas, mas igualmente por meio da presença de pequenas fontes nos espaços públicos.
O passeio em Mérida foi muito especial. A cidade mereceria mais um dia de permanência para que pudéssemos apreciar, com mais vagar, essas paisagens de mescla histórica, cultural e social.
Carminha Beltrão
Fevereiro de 2025










































