Como comentei no capítulo anterior, Palos de la Frontera foi a razão principal de voltarmos à Andaluzia.
A história da América, da Espanha e, de certa forma, de Portugal tem tudo a ver com este pequeno povoado e seu porto.
Havíamos estamos em 2004 em Sagres e no cabo de São Vicente, extremo sudoeste do Algarve português, pontos do território que marcaram a preparação da viagem de Cabral, embora ele tenha partido do Porto de Lisboa em 9 de março de 1500.
Apenas 242 km separam esses dois pontos no território e hoje em menos de três horas se vai de um ao outro, mas no final do século XV essa distância não era pequena, embora os interesses que moviam as duas empreitadas eram muito semelhantes.
Agora com a visita a Palos, ligávamos de certa forma esses dois pontos da Península Ibérica ao que aconteceu nos últimos 500 anos na América Latina.

Ao contrário de certo vazio que havíamos encontrado em Sagres, além do vento e de algumas placas alusivas ao grande feito de Cabral, em Palos de la Frontera há um complexo museológico e turístico organizado para engrandecer a ousadia de Colombo.
Começamos pela avenida de entrada, com suas palmeiras fênix e chegamos ao pátio frontal do museu onde se vê um totem que não decifrei completamente, mas é bonito.


O museu é composto por uma edificação onde há painéis e uma sala de exposição de um vídeo sobre o descobrimento, que foi feito como se a história fosse contada pelas caravelas Niña e Pinta. Essa edificação é chamada de Muelle de las Carabelas, e tudo gira em torno do que ocorreu no último quartel do século XV e da reprodução das três valentes embarcações.
As informações contidas nos painéis são muito didáticas e oferecem uma síntese dos acontecimentos, sendo necessário descontar sempre um pouco dos exageros e patriotismos que costumam atravessar essas narrativas.
Talvez o leitor não tenha ânimo ou tempo para ler os painéis que reproduzo aqui, mas quis fazer o registro, porque eles contêm informações, as quais, se já soube, havia me esquecido de boa parte delas.
Por exemplo, visitando o museu fiquei sabendo que o navegador genovês Cristóvão Colombo se casou com uma portuguesa e morou nesse país, período em que apresentou seu projeto de atravessar o Atlântico à Coroa Lusitana, Rei João I, e não foi levado a sério.
A história não tem “se”, mas se João I tivesse levado Colombo a sério, não haveria América Espanhola e o português seria um idioma muito mais importante neste continente.
A representação cartográfica do caminho continental para as Índias que foi interrompido pela tomada de Constantinopla pelos turcos ajuda a lembrar que os interesses econômicos e políticos de descobrir um novo trajeto para se alcançar o Oriente eram grandes. Assim, os heroismos dos navegadores não são apenas resultado de iniciativas individuais ou de grupos, mas representam interesses muito maiores que ajudam a entender a lenta passagem do Feudalismo em direção ao Capitalismo.

Ao contrário de outros navegadores, que tentavam grandes empreitadas marítimas, Colombo não tinha muito estudo, mas era extremamente curioso e já sabia que havia erros nos mapas que então existiam.

Além de sua curiosidade, ousadia e espírito aventureiro, Colombo tinha a experiência de outras viagens como as que fez pelo Mediterrâneo chegando à costa africana, a realizada até a Inglaterra contornando o litoral português e a travessia até a Islândia.
A vitrine com a reprodução dos instrumentos e ferramentas disponíveis para a grande viagem mostra quão rudimentares eram as condições para realizar a longa travessia que foi, afinal, bem empreendida.
Enquanto Cabral viajou com 13 caravelas, Colombo dispunha de apenas 3 embarcações – uma nau, a Santa Maria, e duas Caravelas, Pinta e Niña.
Se você gosta de Caetano e Gil, escute a música Las Tres Carabelas, de autoria dos espanhóis Augusto Algueró Jr, Augusto Algueró Senior e Santiago Guardia Moreu, no link https://www.youtube.com/watch?v=R40d0fIpkRM
Os mapas da primeira viagem à América e o das que se seguiram mostram que ele era um navegador de total sucesso para as condições disponíveis em seu tempo.

A pintura em que se representa a chegada do navegador em terra firme já era minha conhecida, com certeza de algum livro didático do ensino básico. Não sei se, na ocasião, apreciei tantos detalhes como agora, porque uma representação como esta oferece base para a elaboração de efetiva tese sobre como o domínio europeu se estabeleceu sobre a América.

Ainda que, no diário da viagem, haja registro de que Colombo, ao ser informado de que havia “terra à vista”, vestiu seus melhores trajes, é pouco provável que ele estivesse tal e qual aqui representado, porque no mesmo diário é informado que não havia água para limpeza de corpos e roupas e, mesmo que a pintura seja inodora (risos), é pouco provável que estivessem com os cabelos tão sedosos.
As réplicas das três embarcações são muito didáticas para se imaginar as dificuldades da travessia. Não eram grandes, embora a Santa Maria fosse um pouco maior, o que a tornava mais lenta. Olha ela aí.
Vejam, a partir dos seus respectivos conveses, a Pinta e a Santa Maria.
Os tripulantes não tinham qualquer conforto, a não ser o direito de dormir na parte coberta do convés (cuja altura não passava muito de 1,5m), o que era concedido aos mais importantes da tripulação, enquanto os demais se viravam a céu aberto, fizesse vento ou chuva. Olhem a reprodução do convés coberto da Santa Maria.
O trabalho com as velas não devia ser fácil também, porque qualquer erro tiraria as embarcações do rumo traçado e isso significava mais dias e menos víveres para a sobrevivência da tripulação que, em 10 de outubro de 1492, rebelou-se contra Colombo, já desiludida de chegar a qualquer lugar e demandando a volta à Espanha, antes de morressem naufragados ou de fome.
Olhem aí meu marido, curtindo a área das velas.

Nas duas próximas fotos, é possível ver como a Santa Maria (as da esquerda) era maior que a Niña, por ser nau e não caravela.
Do parque onde está o museu, avista-se Huelva (no fundo à direita) e a estátua de Colombo (também no fundo, à esquerda) que está a meio caminho entre esta cidade e Palos de la Frontera.

Depois fomos até lá e descobrimos que o Monumento a Colón foi um presente do povo estadunidense, aos espanhóis, em 1929.
Voltando a descrever o museu, registro que, em volta da pequena área onde estão as réplicas das embarcações, há um passeio com a reprodução de como viviam os indígenas na América, quando ali chegou Colombo.
Não confiei nem um pouquinho na qualidade deste trabalho museológico, porque notei vários estereótipos e clivagens culturais nessas representações. Enquanto os índios estavam representados totalmente nus, as índias apareciam com um tapa sexo (deveria ter feito um registro fotográfico), feito com um tecido branco que não tem nada a ver com a cultura americana de então. Os pequenos textos davam a entender que, apesar de bonitos e com cabelo que parecia de seda, os indígenas não trabalhavam, quase sugerindo que eram preguiçosos…
No mesmo complexo onde está o museu, há uma edificação para esportes e eventos de grande porte, o Foro Iberoamericano.

Em volta de todo o complexo há áreas com água, que eles chamam de humedales, onde parte da fauna aquática da região nada, indiferente aos feitos de Colombo.
Por fim, o obelisco em homenagem à grande viagem de Colombo.
Valeu a visita!
Carminha Beltrão
Fevereiro de 2025



























