Fonte: https://lalarebelo.com/es/sanfrancisco/
O Estado da Califórnia é o terceiro maior dos Estados Unidos (na sequência do Alaska e do Texas), mas ele é mais extenso de norte a sul do que de leste a oeste. Assim, foi com facilidade que, percorrendo pouco mais de 560 km, fizemos a sua travessia, chegando a Nevada.
Fonte: https://lalarebelo.com/es/sanfrancisco/
Deixamos para trás a paisagem urbana de São Francisco, seu vento frio e suas temperaturas, que achamos baixas para o mês de maio, pois nossa expectativa, antes de sair do Brasil, era usufruir de um clima mais primaveril.
O céu estava lindo, embora a cidade tivesse amanhecido com intensa nebulosidade.

Saímos do hotel agasalhados e fomos nos descascando, como cebolas, porque evoluímos dos 12 aos 34 graus centígrados, dos ventos úmidos do Pacífico à secura dos terrenos desérticos e semidesérticos que antecedem os pontos mais altos das Rochosas.
Feita essa introdução (não sei porque sempre acho que isso é importante), vamos ao percurso de travessia, afinal é fundamental sair dos “entretanto para chegar aos finalmentes”, como diria o maravilhoso personagem Odorico Paraguaçu, inventado por Dias Gomes e vivido por Paulo Gracindo.
Deixamos o Yotel San Francisco, na manhã de 29 de de maio de 2025, para pegar o carro que alugamos na agência da Alamo Locadora, no Aeroporto. Logo percebemos um padrão e tanto de organização e me foi impossível deixar de fazer comparações, uma vez que a experiência foi bem diferente das últimas vezes em que alugamos veículos no Brasil.
As explicações foram rápidas e objetivas, as orientações diretivas tanto no balcão da locação quanto no enorme estacionamento onde dezenas de carro estavam aguarndo que alguém os locasse. Enfim, houve eficácia de um modo geral porque, em cerca de 20 minutos, já tínhamos acomodado nós e as malas e estávamos na rua. Que delícia!
Nosso carro é um Camry da Toyota, bem confortável, tamanho médio, mas para os moldes estadunidenses ele deve ser considerando pequeno porque, quando olho para os lados, só vejo veículos maiores. Adorei a placa pelos desenhos e pelo número!
As paisagens iam se sucedendo na medida em que avançávamos para leste, porque não apenas deixávamos o mar para trás e com ele a umidade, como passávamos para altitudes mais elevadas. No decurso de um dia, partimos do nível do mar e alcançamos os 1.373 metros de altitude.
A primeira parada foi em Sacramento, capital do Estado da Califórnia. Uma cidade bonita que se originou em função da extração do ouro no século XIX. Vejam um planfeto estimulando a migração para a Califórnia.
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Corrida_do_ouro_na_California
Sacramento foi fundada em 1839 e era o principal ponto de abastecimento de alimentos e bens para os garimpeiros.
A avenida de entrada para a cidade, de quem vem de São Francisco pela rodovia 80 East, é extremamente aprazível com sua arborização, amainando o calor que vínhamos sentindo na estrada.

Estivemos no centro da cidade, onde está o magnífico Capitólio (California State Capitol). Fizemos uma visita rápida e tivemos a oportunidade de compartilhar a experiência com dezenas de crianças de mais de uma escola, que estavam conhecendo a linda edificação. Olha eu aí diante do prédio.
A foto do Google que oferece uma visão completa da fachada é bem melhor.
Chamaram atenção o chão em mármore branco e preto, brilhando, e a cúpula que foi recentemente recuperada.
Há vários gabinetes – historic offices – que foram refeitos para se apreender a ambiência da passagem do XIX para o XX, com o mobiliário e os objetos originais (ou réplicas deles) , tais e quais eram usados pelos políticos de então.
Em volta da edificação, uma grande praça (tudo é grande nos EUA) e um parque, com muitas árvores frondosas, entre as quais chamou a minha atenção a de magnólias floridas.


Na sequência, fomos até a Old Sacramento, na qual algumas construções remontam a 1860. Ficaríamos com a sensação de termos entrado num filme de far west não fosse o exagero, a abundância e, na maior parte das vezes, o mau gosto das quinquilharias de plástico que são vendidas em lojas cujos proprietários, pelo biotipo, devem ser chineses e paquistaneses. Havia mais gente dentro das lojas do que apreciando a arquitetura original deste setor da cidade.


O verão já se anunciava em Sacramento onde o sol brilhava e havia gente demais com jeitão de férias e fantasiados de turistas. Acho que os estadunidenses têm roupas próprias para essas viagens de verão, porque insistem, no passar dos anos, em reafirmar o estereótipo que deles fazemos, desde os primeiros filmes que assistimos na Seção da Tarde – bermuda, sandália com meia, camisa muito florida e óculos escuros bem fantasiados. Ah, já ia esquecendo dos bonés que variam dos austeros aos mais espalhafatosos.
Apreciamos também o Rio Sacramento, que deve ter sido via para muita circulação de ouro, prata e garimpeiros e hoje corre tranquilamente, com um outro turista apreciando a paisagem.
Como anunciei no primeiro capítulo desta série “Atravessando os Estados Unidos de sudoeste a sudeste”, a gente nunca faz o percurso do modo como planejou. Ainda bem! Como desejávamos não apenas tangenciar o norte do Tahoe Lake, mas conhecer melhor seu entorno, deixamos a rodovia 80, a partir de Sacramento, para pegar a de número 50, sobre a qual escreverei um pouco mais, no próximo capítulo.
Trata-se de uma estrada menos importante na hierarquia rodoviária dos EUA, mas excelente, assim não nos arrependemos de seguir por ela e ter a oportunidade de contornar pela face oeste esse lago.
Foi no percurso realizado por esta estrada que vislumbramos com maior intensidade a mudança dos biomas e a sucessão de paisagens que transitavam do verde, passando pelo marrom e ocre, até chegar ao quase cinza de tão seca que a vegetação rasteira estava.


Em vários momentos, a gente se lembrou das imagens que ficaram em nossa memória da recente travessia dos Andes, no território boliviano (ver https://carminhabeltrao.wordpress.com/wp-admin/post.php?post=4373&action=editer).
As Rochosas e os Andes compõem as elevações da faixa oeste da América, que dobraram na era Terciária, então, não é à toa que haja alguma semelhança entre elas.
Chamou muito nossa atenção as extensões de áreas cobertas por coníferas que devem ter passado por incêndio não há muito tempo. Remanesciam os caules como agulheiros olhando para o céu. Pelo que vimos estão sendo cortados, porque havia tanto uma marcação em tinta colorida (que eu interpretei como “esta árvore é para vir abaixo”), como várias que já estavam no chão.
O lago é muito bonito. Extenso, com tons do azul ao verde, ele tem, em alguns trechos, um litoral ameno, onde se depositou uma areia (não sei se por processos naturais ou humanos), que faz as vezes de uma pequena praia. No entanto, em outras porções de suas margens, as escarpas são abruptas e a rodovia está muito acima do nível da água.



Ao fundo, as Rochosas ainda com um pouco de neve sem suas porções mais elevadas.
Fiquei impressionada com o número de casas que há em torno do lago e com o movimento de carros e pessoas, mostrando mais uma vez que os estadunidenses já estão começando a curtir o verão que se avizinha. [Repararam que eu me nego a chamá-los de americanos? Tiram de todos os demais países, não apenas riqueza, pelo domínio que exercem há mais de um século, mas também tiram dos colonizados por espanhóis, portugueses, franceses e holandeses o direito de construir sua identidade vinculada à América].
Imagino que essas casas, algumas cabanas, na maior parte troncos de madeira sobrepostos na horizontal, sejam ocupadas também e muito para os esportes de inverno, afinal o lago está muito próximo de várias estações de esqui.
As construções têm tamanhos médios, mas na frente ou fundos de cada uma delas, nunca havia menos que dois ou três carros. Tudo nos EUA se faz de carro, à medida que deixamos para trás os espaços metropolitanos, onde também há muitos veículos, mas nos quais o transporte coletivo é uma necessidade para enfrentar a densidade e os custos altos com os quais se deve arcar para ter uma garagem ou pagar locação por ela.
Ladeando a estrada, por vezes dos dois lados, há pista para bike e pedestres, que estava no final de tarde sendo muito usada, tanto por quem fazia esportes como por mães que passeavam com seus carrinhos de bebê.
Qual foi a grande surpresa do dia? Juro que tentei fotografar, para você leitor não achar que estou inventando, mas não consegui. Fiquei literalmente paralisada, ao ver um urso atravessar a rodovia bem na frente do nosso carro. Seu gingado para andar, balançando a barriga e fazendo brilhar o pelo marrom, misturava-se com o olhar medroso. Não sei se estava com muita fome e buscava comida, ou se fugia de medo dos carros ou de algum urso maior com o qual cruzara antes. O fato é que só desci do nosso carro para fazer umas fotos do lago muitos quilômetros depois.
Para não deixar de ter um registro, encontrei uma foto na internet de um urso parecido com aquele que vimos. Dá ou não para se assustar? Só me faltava ser atacada por um urso faminto no interior dos States!

Buscamos localizar um café para nos restaurarmos após esse susto. Olhando no Google Maps, até Starbucks havia nas margens do lago, mas eram 16h45 e todos os cafés fechavam às 17h.
Esse detalhe chamou nossa atenção também em São Francisco: locais onde há serviço de alimentação fecham muito cedo, se comparamos com os hábitos brasileiros. Se na Espanha morremos de fome porque os horários para começar a jantar nunca são inferiores a 21h30, na Califórnia por volta desta hora já estou de volta ao hotel, de banho tomado e pronta para escrever este diário de viagem.
Sem café e sob o susto de termos estado tão perto de um urso, seguimos viagem e atravessamos a divisa entre a Califórnia e Nevada, ainda de dia. A chegada a Reno fica para amanhã.
Carminha Beltrão
Maio de 2025


















Que lindas as imagens e o texto. Amei😍
Graaaande Carminha
Muito obrigado pela travessia da Califórnia! Curtam a viagem e, claro, nos envie mais textos como este.
Um grande abraço
mmdospassos