A estrada mais solitária dos EUA

Fonte: https://br.freepik.com/fotos-premium/percevejo-vermelho-sobre-mapa-dos-eua-do-estado-de-nevada-renderizacao-3d_18224189.htm

Agora, estamos cruzando Nevada pela rodovia US 50, cujo codinome é “a estrada mais solitária dos Estados Unidos”.

Assim que vimos esse apelido, ficamos curiosos e já aviso que, se eu não entendi o codinome de Reno, rapidamente compreendi o da estrada. Fez todo sentido ela ser assim chamada, porque percorremos quilômetros e quilômetros sem ver cidades, agricultura ou gado na área rural e havia poucos veículos circulando.

Nossa intenção era dormir em Eureka, mas daqui a alguns parágrafos, conto porque mudamos de intenção. Primeiro quero descrever um pouco a sensação da travessia do deserto (veja o mapa que se segue), que pareceu diferente, por ocasião do percurso realizado em 2011, mais ao sul, entre Flagstaff, no Arizona, e Las Vegas, em Nevada.

Agora estamos mais ao norte e, por isso, cruzamos relevos mais movimentados. Do que me lembro, ao sul, a paisagem era ocre, enquanto na porção norte do estado de Nevada, por onde circulamos agora, a paisagem varia do cinza ao marrom chocolate.

Quando estamos dentro do carro, sob o ar condicionado, estas cores nos enganam, porque passam a ideia de que as temperaturas estão amenas, mas quando se abre a porta do veículo, o bafo quente dá um tranco na gente. Entre a máxima do dia e a mínima durante a noite, tem dado 20 graus centígrados de diferença.

Já havíamos percorrido vários quilômetros, quando as cores mudaram e percebemos que havia imensas áreas de depósito de sal, mostrando que, no passado ali estava o oceano. Nada parecido em extensão e brancura com o que tínhamos visto na Bolívia, no Salar de Uyuni (ver https://carminhabeltrao.com/2024/01/18/bolivia-e-peru-20/ e https://carminhabeltrao.com/2024/01/18/bolivia-e-peru-20/), mas havia muito sal acumulado, sobretudo em valas e fissuras do relevo.

Andamos mais um pouco e nos deparamos com morros de areia e planícies onde elas devem ter sido depositadas pelo vento. Estávamos no coração do deserto.

Mais adiante, estivemos frente a frente com elevações mais altas, onde a neve ainda remanesce nos picos, apesar do calor de 35 graus centígrados.

Dizer que se percorre a estrada de forma completamente solitária também não é verdade. Cruzamos com outros veículos. Sobressaem-se alguns caminhões, motorhomes, trailers e outros equipamentos voltados ao lazer, como os barcos (será que estavam indo para o Lake Tahoe?). Fiquei com a ideia de que ninguém que circulava pela rodovia, morava na região. Aliás, não se viam casas ou lugarejos, então é compreensível que essa seja uma rodovia de passagem e não de “ficagem”.

Aliás, a quantidade e variedade de motorhomes que há circulando nesta região sudoeste dos EUA chama atenção. Vimos de todos os tamanhos e tipos: alguns moderníssimos e gigantescos, outros parecendo do “tempo do onça”, são adaptações dos antigos ônibus escolares estadunidenses ou parecem mais furgões de transporte de animais, mas juro que verifiquei e estavam sendo “habitados” por gente.

Até os amantes das bikes encontramos pela estada mais solitária dos EUA.

O grande acontecimento de nossa passagem pela rodovia US 50 foi tomar consciência do que era efetivamente a cidade de Eureka. Para começar, fica a pergunta: cidade?

Fico envergonhada, porque dois geógrafos, observando apenas a distância entre um ponto e outro e a média de quilômetros que queríamos fazer num dia, fomos escolhendo as cidades em que dormiríamos na porção mais oeste da nossa “expedição”, sem prestar atenção em outras variáveis e, assim, escolhemos Eureka.

No caminho, pelo Booking, comecei a escolher algum hotel. Havia? Nada que se pudesse chamar efetivamente de hotel. Então decidimos prolongar o percurso do dia e seguir até Ely, parando em Eureka apenas para almoçar. Que desolação! O aglomerado de casas tem pouco mais de 300 habitantes. A maior parte dos imóveis está desocupada e, alguns deles, caindo aos pedaços.

Corremos para o TripAdvisor para saber quais eram as melhores opções para comer, Não havia Eureka no estado de Nevada nesta plataforma. Fomos então pedir socorro ao Google Maps, que indicava três ou quatro locais para restauração. Da nota melhor para a pior, uma a uma as opções estavam fechadas, ou porque só abriam para o jantar ou porque pararam de funcionar mesmo.

Sob o sol intenso, chegamos no Owl Club Bar and Steakhouse. O nome é pomposo, as fotos no Google são até razoáveis, mas o leitor não tem noção do que encontramos lá: um lugar escuro, mas até onde eu podia enxergar, bastante sujo. A  solução foi pedir um sanduíche que veio com o pão de forma quente e o presunto e o queijo semi congelados. Deu para curtir o bacon fritinho e seco e as batatas fritas….Para você ter uma ideia do que era, veja o objeto decorativo que ampara o sal e a pimenta em cada mesa.

Ao ir ao banheiro, adivinhem o que encontrei na sala ao lado: um mini cassino!!! Observem o estado do carpete!!!

Mesmo sendo minúscula, Eureka tem uma unidade da Maçonaria.

Para ter um motivo para registrar um elogio a Eureka, passamos, após o lanche, num café chamado Eureka Depot e tudo estava super bonitinho, o serviço era simpático e o expresso foi bem tirado. Até me esqueci de fazer um registro fotográfico, mas agora reproduzo uma foto dele que extrai da web.

Fonte: = https://www.yelp.com/biz_photos/eureka-depot-eureka-2?select=nF91v6YPWSPA54HP_NaOjg

Seguimos aliviados para Ely, na expectativa de encontrar um ambiente urbano mais equipado, mas isso fica para o próximo capítulo…

Carminha Beltrão

Maio de 2024

Um comentário em “A estrada mais solitária dos EUA

  1. Carminha

    Ótimo o texto! Mas, mirei mais as fotos: excelentes!

    Um grande abraço. E ótima viagem para vocês.

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