Já havíamos atravessado o Estado de Nevada, quando cruzamos os Estados Unidos de nordeste a sudoeste (New York, Chicago a Los Angeles). No entanto, nosso percurso foi pelo sul do estado, em 2011, já que a ideia era, naquela ocasião, percorrer toda a Rota 66, o que contemplava a passagem por Las Vegas.
Procurando informações sobre Nevada, na internet, fiquei sabendo que, nos últimos 20 anos, é o estado que mais cresce demograficamente. O que será que as pessoas vêm fazer neste deserto, eu me pergunto? Chama atenção o fato de que a composição étnica é denotativa de que há estímulo à imigração internacional, o que significa que deve haver trabalho para todo mundo. As informações fazem referência, aproximadamente, a 65% brancos, 20% hispânicos (latino-americanos, eu imagino), 7% afro-americanos, 5% asiáticos, 1% nativos americanos (os indígenas). Em 2023, o estado alcançou 2,3 milhões de habitantes.
Não seria a agricultura ou a pecuária que explicaria esse indicador demográfico ou que estaria atraindo novos moradores, eu suponho, porque o predomínio do clima desértico não favorece em nada estas atividades. Tampouco seriam indústrias, uma vez que não as vejo pelo caminho.
Só pode ser o jogo, é claro! É impressionante como este estado parece funcionar em torno dos cassinos. Na Wikipédia, há a informação de que se trata do único estado da federação em que a prostituição é uma atividade legalizada. Combina com o jogo! Aliás parece combinar com tudo, porque mesmo onde é ilegal é exercida por todo lado.
Nossa primeira parada foi Reno, situada muito próxima do limite com a Califórnia. É uma cidade de 264 mil habitantes, enquanto a capital de Nevada – Carson City – tem apenas 58 mil habitantes. A mais populosa de Nevada é Las Vegas, com 660 mil habitantes.
O engraçado é que, apesar desse tamanho, que não é tão desprezível, Rena tem o codinome de “A maior pequena cidade do mundo”. Como surgiu esse apelido, eu não sei, mas ele está publicizado por todo lado na cidade – portas de restaurantes, outdoors, folhetos de propaganda dos cassinos etc.
Antes da criação de Las Vegas, Reno era o centro do jogo nos Estados Unidos. Ainda agora, apesar de menor e menos esplendorosa que aquela cidade, tem, segundo o Guia Visual da Folha, oferta similar de jogos, 24 horas por dia. Suponho que a situação geográfica, muito próxima do limite com a Califórnia deve favorecer o desenvolvimento dessa atividade, atraindo moradores deste estado que é o mais rico ou dos mais ricos dos Estados Unidos. Se você não assistiu ainda recomendo que veja o filme Bugsy de 1991, dirigido por Barry Levinson. Além de ser biográfico e de oferecer uma ótima visão de como nasceu Las Vegas, no meio de um deserto, ele é estrelado por um time de primeira – Warren Beatty (ele está maravilhoso no filme), Annette Bening e Ben Kingsley (lembram dele no filme Gandhi?😊)
Esse é o mundo da jogatina. Tem tantas possibilidades em Reno, que, para nos hospedarmos, tivemos que ficar num hotel cassino – o Nugget – como, aliás, parecem ser todos ou quase todos nesta cidade.
Este hotel tem mais de 1000 apartamentos e um prédio anexo para servir de estacionamento com vários andares. A chegada na cidade impressiona pelo skyline que os hotéis-cassinos impõem.


O seu centro está muito bem estruturado, começando pela edificação pública principal, o capitólio, cuja cúpula não é possível ver muito bem, nesta foto, por causa dos galhos das árvores.
Há muito edifícios modernos na área central, onde os cassinos também são muitos. Alguns estão ligados a hotéis ou estacionamentos, por meio de galerias de vidro, que passam pelas ruas, por cima dos veículos que circulam tranquilamente, uma vez que não há tráfego intenso, nem gente andando pelas ruas, mas muitos veículos estacionados, pois tive a impressão que todos estão, em algum lugar, jogando ou trabalhando para os que jogam.


Jantamos no Restaurante La Famiglia. O prédio não é bonito por fora, mas o ambiente é super agradável, como se estivéssemos mesmo na Itália com as mesas cheias de gente, algumas com famílias enormes, todo mundo conversando muito alto.
Recomendo, porque o molho vermelho estava super bem feito e o ravióli recheado de verduras com bacon muito gostoso. Como temos visto, no geral, os vinhos são muito vendidos em taças: esta é a opção mais oferecida e variada, ao contrário, por exemplo, do Brasil, onde essa forma de oferta é pequena e pouco indicada nos restaurantes pelos garçons.
No La Famiglia, como em outros restaurantes, onde temos parado, é comum que os garçons e garçonetes sejam latino-americanos. Só de El Salvador já encontramos dois, inclusive a simpática senhora que nos serviu em Reno. Ela já mora nos EUA há 33 anos, mas abriu o maior sorriso quando dissemos que conhecíamos o seu país.
É muito difícil, embora necessário, fazer uma reflexão crítica sobre o jogo e a legalização dele pelos governos, porque a análise pode resvalar no julgamento sobre as pessoas, o que beira, em algumas situações o moralismo.
O que dá prazer a alguém, em algumas situações propicia verdadeiras fissuras, é difícil de ser explicado no plano do senso comum. Eu sei que há centenas de artigos científicos tratando de todos os tipos de dependências, mas aqui escrevo em outro plano, o das observações e impressões. Adoro jogar buraco, por exemplo, mas nunca jogo apostando, se jogasse talvez pudesse ficar viciada, eu não sei, mas talvez ficasse…
No entanto, no caso dos cassinos, algo é indiscutível: sempre quem ganha é a banca, a não ser nas situações em que, em mesas de pôquer, haja jogadores profissionais e que sabem muito bem roubar ou ludibriar o cassino. Quando são notados, nesta situação, logo são convidados a se retirar pelos verdadeiros leões de chácara que ali estão. Pelo que vejo em Reno, a maior parte das pessoas que ali estão são de classe média e até média baixa, afinal não vi ninguém maravilhosamente bem trajado como nos filmes de Hollywood. Isso significa que despendem ali parte de seus salários e suas aposentadorias.
Passeamos pelos ambientes de jogos do nosso hotel e ali vimos gente de todo tipo: – jovens, mas sobretudo idosos; – gente solitária, mas também casais, às vezes compartilhando a mesma máquina ou aposta na mesa de cartas; – alguns que se preocuparam em vestir uma roupa bonitinha, mas a maioria está de bermuda e tênis; – mais obesos que esbeltos, porque a atividade é convidativa a comer e beber, enquanto se aposta, razão pela qual há vários ambientes de restauração entremeando as mesas e máquinas. Até mesmo uma senhora solitária foi observada por nós, deixando a mesa de jogo e carregando seu pequeno bujão de oxigênio, para possibilitar a respiração em momentos de asfixia. Enfim, apesar das luzes, é tudo um pouco aviltante, decadente e até sórdido, tanto olhando do ponto de vista do dono da banca como dos que a alimentam.
Para as finalidades de quem a implantou, não é sem sentido a estratégia que desenvolveram para não afastar o jogador do jogo, enquanto se alimenta ou bebe uma: o balcão do bar já está equipado com as máquinas (vejam a próxima foto). Assim, ao mesmo tempo que se espera pelo hamburguer com fritas e mais um chopp, as apostas vão sendo feitas e, em alguns casos, a própria máquina recebe as notas de dólar, evitando a perda de tempo de ir até o caixa, quando as fichas acabam.



Depois de uma girada pelas imensas salas de jogos, fiquei exausta pela abundância de informação, pelo estampado exagerado do carpete, pela ausência de iluminação natural, pelo excesso de luzes e telas com imagens que nunca param e, por fim, pelo barulho – cada máquina emite musiquinhas chatas, a cada vez que o jogador ganha ou perde. Eles parecem abstrair tudo isso, porque não tiram o olho das telas, quando estão diante das máquinas, e do veludo verde, quando estão nas mesas de carteados.
No dia seguinte, tomamos café da manhã diante de um pequeno lago que tem em Reno, olhando para as Rochosas ao fundo. Um ambiente agradável, iluminado, ventilado e suave: bem diferente daquele do hotel.


Carminha Beltrão
Maio de 2025








