Pensávamos em deixar Dallas e ir direto para Houston, mas por que deixar Fort Worth de lado?
As viagens, como já escrevi várias vezes, são feitas de escolhas e, às vezes, as razões consideradas para cá ou para lá, na hora de se ponderar para tomar uma decisão, são bem inusitadas. Calculamos que saindo do hotel em Dallas por volta de 9h chegaríamos a Houston antes do horário permitido para fazer o check-in no hotel, o que significaria esperar… Ah, então, vamos até Fort Worth e, assim, ao invés de tomar a estrada no sentido sudeste, pegamos uma freeway para oeste.
Este percurso – Dallas a Fort Worth, passando por Arlington – que corresponde a 52 km, demandou quase uma hora, pois o trânsito era intenso, o que se explica pelo enorme número de veículos e não pela falta de vias que propiciem circulação em velocidade. Vejam o mapa com o layer com a circulação entre as duas cidades e notem o número de rodovias que possibilitam a ligação entre as cidades da aglomeração metropolitana. Essa imagem é do sábado à tarde, dia e período com menor trânsito do que sexta feira por volta de 9h, quando muita gente circulava em função do trabalho.

É Dallas quem comanda a aglomeração urbana, por isso, apesar de, demograficamente, chegar perto de um milhão de habitantes, Fort Worth tem papel secundário.
Ela foi fundada em 1849 para ser um posto avançado do exército dos EUA. Após a Guerra Civil, viveu período de progresso porque se tornou um entreposto de gado que era transportado pela ferrovia e comercializado nesta cidade.
Hoje notabiliza-se, pelo que eu li, por ser um centro cultural, tanto relativamente à valorização da cultura caubói como em função de espaços destinados a diferentes tipos de manifestações artísticas contemporâneas – é um centro urbano com vários museus e salas de espetáculos. Além disso, é uma cidade que, também, tem seu slyline marcado por edificações modernas. Olhe a foto principal que aparece no Google, quando digitamos Fort Worth.

No entanto, nós turistas, essas figuras que, algumas vezes, chegam a ser grotescas em seus comportamentos e pouco inteligentes em suas escolhas, fomos atrás do mais indicado pelos sites que respondem àquela famosa pergunta “O que visitar em…?”
Fomos ao Fort Worth Stockyards National Historic District.
- É fake? Super.
- Trata-se de uma encenação pitoresca demais do passado? Sim.
- É muito mais para estimular o consumo? Ok, já sabemos.
No entanto, super valeu a pena, porque é gostoso andar por ruas que te fazem imaginar o que terá sido esse lugar no século XIX, quando a associação entre a corrida para o Oeste e a riqueza estavam embalando os corações e as mentes de muita gente.
Além disso – a sensação que propicia um ambiente do passado – vamos admitir que o estadunidense é bom de espetáculo: com pouca coisa, ele sabe fazer uma festa grande.
E assim foi: uma manhã festiva. O distrito estava cheio de gente, mas muito cheio mesmo (como será que estaria numa manhã de domingo em plenas férias escolares?).
A maior parte dos transeuntes parecia ser de moradores dos EUA, descendentes da imigração europeia, mas o segundo grupo maior devia ser o dos latino-americanos, sobretudo mexicanos, também provavelmente já residentes no país. Havia mulçumanas com a cabeça coberta, afrodescendentes e até dois brasileiros perdidos…

Lá estava um velho vagão da ferrovia que tanta riqueza propiciou à cidade e, nos galpões da antiga estação, hoje há dezenas de lojas que vendem todo tipo de bugigangas e fast food para todos os gostos (e parece que o gosto é mais mexicano do que qualquer outro, porque esta é a culinária que prevalecia).
Antes, de chegar a este espaço, super ambientado para o turista, percorremos algumas centenas de metros pela rua principal e aí encontramos lojas voltadas para consumidores de maior poder aquisitivo. Algumas eram especializadas em roupas sofisticadas feitas em couro e bordadas, ainda que nem todas fossem bonitas; havia as que se dedicavam à venda de botas e bolsas feitas à mão; em muitas, víamos enfeites para a casa ou para o corpo em prata e pedra turquesa; sem contar as de almofadas e ponchos tecidos em lã natural artesanalmente.
A mais bonita – a Luchese – tinha predominantemente dois tipos de consumidores dentro – estadunidenses altos, muito vermelhos e loiros, e asiáticos, provavelmente japoneses e chineses, mais baixos portando máquinas fotográficas com objetivas imensas. Os dois grupos saíam desta loja e de outras com as sacolas cheias.
Como a ideia de Fort Worth é a da recriação do que não existe mais, a atitude da fantasia está presente nos turistas. Estava calor e fiquei impressionada com o número de mulheres que estavam, de short, vestido ou saia, mas usavam botas. Havia para todos estilos: branca, preta, marrom, com florezinhas aplicadas etc. Havia até uma linda loira de bota azul turquesa, mas essa não consegui fotografar sem dar bandeira.





Sem que esperássemos, do nada, um senhor, à moda do velho oeste, assumiu o centro da rua principal, com um microfone e passou a contar sinteticamente a história da cidade. Na sequência, anunciou a chegada de uma boiada, tal e qual isso ocorria no passado. Dois ou três cavaleiros na frente, dois ou três fechando o rebanho que, evidentemente, é bem menor no desfile do que devia ser uma boiada no século XIX.
Como o gado texano tem esses chifres longos demais, foi interessante vê-los de perto. Fiquei imaginando que, para se defender de outros animais, esses chifres devem ser úteis, mas em outras horas devem atrapalhar demais.

Os mesmos chifres inspiraram alguém a fazer e vender bexigas neste formato e há quem compre!
Diferentes modos de transporte estavam representados no distrito e, em alguns casos, até disponíveis para um passeio. Havia carroças e trenzinho, além de um furgão e um conversível à moda texana.

Entre as construções efetivamente do passado, parece que restam muito poucas. Li no Guia Visual Folha que o White Elephant Saloon mantinha a mesma decoração do século XIX. Entramos para ver e parece que sim, inclusive o odor de coisa velha atestava que se tratava de um ambiente antigo, o que acabou nos afugentando de beber ali uma cerveja. Olha o teto dele como é decorado.
Na porta, havia dois cicerones ou seriam seguranças? Ambos devem ser descentes de mexicanos, o que combina, afinal o Texas, inicialmente, era uma província do Império Mexicano, depois República do México (1923). Após um período que viveu independente como República do Texas, de 1836 a 1845, este território tornou-se domínio dos Estados Unidos.
Olha eu aí de chapéu, mas juro que é do tipo panamá para proteger do sol. Já levei ele do Brasil. Sou turista, mas não chego ao ponto de comprar um chapéu de caubói, no Texas; ou um de abas tão largas no México que atravanca o guarda malas dos aviões; ou um de feltro na Turquia; ou um de plantador de arroz no Vietnã….
Carminha Beltrão
Junho de 2025





















Espero que, pelo menos, uma coleção de botas de cowboy vc tenha comprado. Nada mais coerente com o clima prudentino…