Houston, no sul do Texas

Finalmente, chegamos à cidade mais populosa do Texas: Houston com seus 2,3 milhões de habitantes. Viemos de Dallas e percorremos 385 km, conhecendo paisagens amenas, com pouca variação de altitude e, na maior parte do caminho, com bastante vegetação verdejante. Ficou para trás o predomínio das áreas áridas e semiáridas, que estão no norte do Texas, em Nevada, Utah e Colorado. Passamos das altitudes que atravessamos nas Rochosas para, agora, cruzar planícies onde a criação de gado e a agricultura predominam. Fizemos o caminho do centro sul para o sul dos Estados Unidos.

Houston ocupa uma imensa área em km2. Na literatura científica sobre a cidade e o urbano, um dos conceitos cunhados nas últimas décadas é o de cidade dispersa, que tem, em Los Angeles, sua representação mais emblemática.

Quando estive lá, esse aspecto impressionou muito, pois Los Angeles é uma cidade cortada por vias de alta velocidade, viadutos sobrepostos e estruturada em subúrbios distantes, o que lhe garante a conceituação de cidade sem centro ou com muitos centros.

Aqui, em Houston, a sensação é muito semelhante e cabe o conceito de urban sprawl, que é o mais adotado entre os de língua anglo-saxônica, uma vez que também passamos por áreas que não estão ainda incorporadas ao tecido urbano e, logo adiante, vem mais cidade, mais bairro, novos centros comerciais com lojas de todo tipo e serviços de restauração dos mais populares – fast food – aos mais conceituados.

Para entrar em Houston, ficamos totalmente dependentes do sistema GPS, tal é o número de opções de saídas e de viadutos para se aceder aqui ou acolá.  No mapa que se segue, estão apenas as vias de altíssima velocidade e para se entrar ou sair de cada uma delas há sempre um complexo sistema de viadutos.

A primeira visão que tivemos da cidade é a da foto que abre este capítulo.

O centro principal da cidade (nem sei se posso chamar assim) é caracterizado pela presença de muitos edifícios altos e, ao que parece, predominantemente ocupados por serviços (escritórios de profissionais liberais, sedes de empresas, centros médicos etc.). No nível das vias, o que há são locais de restauração, a maior parte fast foods. Não se vê comércio propriamente dito – lojas de roupas ou calçados, por exemplo – mas pode ser que haja um setor pelo qual não passamos, embora tenhamos percorrido a pé mais de 5 km pelas ruas desta área da cidade.

Adorei o transporte urbano por trilhos, que não é tipo metrô subterrâneo, mas está na superfície, com os trilhos convivendo com a cidade. Passando pela Main Street, em alguns trechos, ele é ladeado por um canal com água. Aliás, em todo centro de Houston há alguma “oferta” desse líquido precioso, o que é importante em se tratando de uma cidade super quente no verão. A água está sob a forma de pequenas fontes, ou como esculturas urbanas sobre as quais um pouco de água escorre continuamente. É interessante porque passa uma sensação de frescor.

Neste centro principal está, também, o distrito histórico, que não é grande, mas tem algumas edificações bem conservadas. Li que é um espaço muito animado à noite, por causa dos bares e dos espaços de contracultura, mas passamos por lá por volta de 11h e ele estava “dormindo”.

Como chegamos a Houston numa sexta-feira ao final do dia, achamos melhor visitar o centro no sábado de manhã, na expectativa de que houvesse o movimento comum neste setor da cidade, mas, como o predomínio são os serviços e deduzo que essas atividades não funcionam neste dia da semana, as ruas estavam quase desertas.

Aqui ou ali, eu vi: – uma jovem que caminhava com um copo térmico de café entrando em seu prédio (cena que já vimos em dezenas de filmes e sempre intrigam porque, afinal, parece-me que é mais fácil fazer um café em casa do que sair para comprar…); – um homem, de bermuda, chinelo e meia, fazendo seu pet passear, por isso andava com o saquinho para recolher as fezes (não tenho paciência para isso e admiro quem tem); – um casal de homeless que, às 10h da manhã, já tinha tomado umas e outras (ou será que ainda são aquelas do dia anterior?); – um casal, ela trajada à muçulmana e ele completamente fantasiado de Nike-Adidas-seilámaisoque; uma mulher elegantérrima saindo de um café anexo a um museu com dois adolescentes que pareciam animados para o final de semana com a mãe (ou seria a tia?); – dois turistas brasileiros fotografando tudo que viam (que impressão será que eles passavam para os outros que pareciam todos moradores de Houston?).

Policiais caminhavam tranquilamente pelas ruas, sempre em pares e de modo nada ostensivo. Apesar de haver violência policial também nos EUA (é claro que há, pois isso não é privilégio dos países da periferia) não presenciamos nada do tipo. Talvez, porque sendo os States um país muito apoiado na judicialização da vida, os policiais tenham maior autocontrole sobre suas ações, sobretudo quando em público. No entanto, para ter uma opinião mais abalizada eu precisaria ter andando pelos bairros pobres da cidade e ver como é o comportamento deles por lá, o que não fiz.

Como já tinha destacado em relação a Denver, em Houston gostei demais do espaço público, pela presença da arte (murais, esculturas) e pela grande oferta de espaços para se estar (mesas e cadeiras que estão disponíveis nas calçadas, parques e praças muito bem cuidadas).

Sempre me pergunto porque, mesmo depois de recuperados, certos espaços públicos no Brasil rapidamente se deterioram. A rejeição ao que é de todos, associado ao popular, é fácil de ser explicada numa sociedade como tão desigual como a nossa, mas penso que tem outros fatores. Um deles é, talvez, o fato de que se valorize demais a produção material do espaço público e não o que vai ser feito nele e como ele será apropriado. Por isso, cada vez mais, gestores públicos responsáveis investem em programas para animar a vida pública, principalmente em áreas centrais, que vêm sendo abandonadas ou menos utilizadas nas cidades progressivamente em expansão e dispersão. Pelo centro de Houston, vi os cartazes estimulando, por exemplo, a realização de picnics ou informando sobre a combinação entre metrô e fazer compras. Enfim, estratégias para valorizar o centro.

Como o calor era intenso, a brincadeira na água era preferida na manhã de domingo.

Já íamos deixando o centro e nos deparamos com uma churrascaria brasileira. É engraçado que, geralmente, no exterior o Brasil seja mais conhecido pela “culinária” gaúcha do que pela baiana ou mineira, embora no Texas seja compreensível que a opção seja a carne de boa qualidade.

Em Houston, também fizemos a visita completa ao Space Center Houston, associada à missão de controle das missões tripuladas da NASA. Gostamos de saber mais sobre elas e de relembrar o que foi a chegada à lua, mas isso fica para ser contado em outra oportunidade.

Carminha Beltrão

Junho de 2025

Um comentário em “Houston, no sul do Texas

  1. Caríssima Carminha

    Muito obrigado por mais este texto e pelas fotos!!!

    Curtam!!!!

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