Os franceses nos Estados Unidos da América: Louisiana

Deixamos definitivamente o interior dos EUA e o estado do Texas. Agora atravessamos de carro áreas que estão na faixa litorânea do sul do país, entrando na Louisiana.

Este é um estado peculiar nos EUA, porque seu território foi “colonizado” por imigrantes franceses e houve, ainda, pequena influência espanhola, até se tornar parte da federação estadunidense.

O nome Louisiana é homenagem a Luís XIV, ou melhor, em francês Louis XIV, assim se entende melhor a gênese da nomenclatura do estado. Seu codinome era Rei Sol e teve muito poder, o que em grande medida se deveu a ações coloniais ultramarinas que favoreciam a transferência de riqueza da América, África e Ásia para a Europa.

Os franceses que ocuparam essa região não vieram diretamente da Velho Continente, mas sim do Quebec, no Canadá (eram os acadianos). No sul dos EUA, fundaram a Província Colonial da Louisiana, como parte da Nova França, mas perderam o controle deste território para a Espanha em 1763 e o retomaram em 1800.

Em 1803, os estadunidenses compraram essas terras dos franceses. Não me pergunte por que, pois não sei explicar e acho difícil de entender as razões que levam à venda de terras tão bonitas, pródigas e úmidas, como estas das planícies que atravessamos neste trecho da viagem. Elas são férteis e muito algodão por aqui vicejou no período colonial.

Para não ficar sem uma hipótese explicativa, vamos lembrar que, em 1789, houve a Revolução Francesa, Luís XVI e Maria Antonieta foram decapitados e a República instalou-se. Acho que os franceses queriam mesmo virar a página e ser colonizador para quem queria ser o baluarte da modernização política não ficava muito bem [à parte que eles mantiveram colônias na África ainda durante muitas décadas].

Acontece que os EUA terem comprado as terras não significa o completo apagamento do passado, porque os franceses ainda estão na Louisiana na culinária, na toponímia e em certo charme que remanesce. No entanto (e ainda bem) este passado francês mescla-se com a herança deixada pelos africanos que vieram em massa para as plantations de algodão que se desenvolveram nessa porção sul dos Estados Unidos, em regime de escravidão. Eles também permanecem na culinária, no colorido que predomina as paisagens urbanas e, sobretudo, na música por causa do Blues e do Jazz, sobre os quais escreverei um pouco em outro capítulo.

A capital da Louisiana é uma cidade singela – Baton Rouge – que tem cerca de 500 mil habitantes. Estou qualificando de singela porque, ao contrário de outras cidades de tamanho equivalente nos Estados Unidos, esta não é caracterizada por trânsito intenso, nem tem um centro movimentado pelo vai-e-vem das pessoas. Por outro lado, ela é premiada por ser cortada pelo Rio Mississipi, o maior do país e o quarto maior do mundo (neste quesito, nós, brasileiros, ficamos em primeiro lugar com o Amazonas).

Fundada em 1699, Baton Rouge (bastão vermelho) recebeu esse nome em função das estacas com cabeças ensanguentadas de peixes que demarcavam a separação entre dois territórios de caça dos indígenas. Sim, eles não pescavam, mas caçavam os peixes no Mississipi com arpões.

Atualmente, o que torna esta cidade atraente aos turistas tem relação com o seu State Capitol, construído em 1932, por um governador considerado ousado, quase maluco, ao propor, ao legislativo, um mega orçamento para financiar esta edificação de 34 andares. Seu nome era Huey Long e morreu assassinado, em 1936, ironicamente, no prédio que mandou construir.

A enorme edificação não se notabiliza por qualquer beleza arquitetônica. Ele parece uma mistura dos prédios soviéticos do período socialista com o layout do Farol Santander em São Paulo, antigo prédio do Banespa, mas não é bonito como este.

No entanto, estando nele, que é cercado de jardins, tem-se uma bonita vista do centro da cidade.

A escada de acesso ao lounge principal tem tantos degraus quando os estados da federação estadunidense. A ordem dos nomes dos estados, cravada na rocha, corresponde à cronologia, segundo a qual eles foram reconhecidos como tais.

Adoramos fazer a visita ao prédio e logo percebemos que ele tem múltiplas funções. No térreo estava se realizando um congresso e os cientistas estavam diante de seus pôsteres, com suas pesquisas sobre design, dando vida ao suntuoso lounge principal.

Subimos ao 27º andar, dedicado aos turistas, de onde pudemos ter uma visão ampla da cidade e da grande planície dominada pelo Mississipi. O vento era intenso e as paisagens lindas.

No elevador, fomos observando que várias instâncias administrativas funcionam no prédio e, ao retornarmos ao térreo, vimos que muita gente se dirigia a um salão lateral.  Lá fomos nós atrás: tratava-se de uma sessão do legislativo que estava ocorrendo com grande número de pessoas na audiência. Fomos convidados pelo simpático segurança da porta a entrar e sentar porque não se podia ficar de pé naquele lugar. Ali ficamos alguns minutos, o suficiente para observar que a maior parte dos deputados era branca e quase todos que estavam no serviço – seguranças, aspones ao lado dos deputados, secretárias da mesa principal, gente que servia água (e não café) – eram negros. É por essas e outras que é fundamental haver política de cotas, para corrigir as históricas disparidades de oportunidades.

Fui verificar depois na Wikipédia e constatei que 62% dos que moram na Louisiana são brancos, 32% são afro-americanos, sendo poucos os de língua hispânica (2,4%) e asiática (1,2%). Vejam que, entre os brancos, 18,7% correspondem ao que chamam de cajus e crioulos, de origem francesa, havendo 8,7% alemães e 8,3% irlandeses.

O sol estava para lá de exageradamente brilhante e quente e saímos à procura de um café. O que encontramos era extremamente simpático – The Vintage – onde se anunciava que era possível tomar café de chicória e comer beignets. O café com chicória é herança da segunda guerra mundial, quando as importações deste produto se tornaram tão custosas que era preciso moer junto com o precioso grão, algo que o fizesse render. Acabei não provando o café, por esquecimento, porque já tinha lido sobre isso antes de estar aí. Também não provei os beignets que são herança do período francês e são quadradinhos de bolo com açúcar refinado de cobertura. Como sempre, ficam coisas sem serem feitas, aspectos sem serem observados, experiências que não foram vividas e sabe-se lá se um dia o serão.

Adorei a decoração do café, especialmente o pôster que adornava a parede principal.

Também gostei de algumas vitrines que vi em Baton Rouge, porque elas me faziam voltar no tempo. Um paletó branco como este é muito parecido com o que meu pai usou no meu batizado e que, anos e anos depois, meu marido usou para ser o noivo em uma festa caipira (afinal representação de que os caipiras se vestiam com roupas remendadas nas festas é completamente inadequada).

A biblioteca pública de Baton Rouge está num prédio moderno e numa avenida onde há vários espaços para se permanecer, com bancos e mesas.

As construções do estilo do sul dos EUA, em madeira e cercadas por varandas, estavam nas vias principais e secundárias.

Por último, se você for a Baton Rouge, não deixe de conhecer a Casa Branca deles, edificada pelo mesmo governador Huey Long, chamada de Old Governo’s Mansion. Se entendi bem, não funciona mais como casa do governador, mas sim como museu que não visitamos. No Guia Visual Folha, havia referência em destaque para o fato de este museu abrigar o violão de Jimmie Davis e os pijamas do Huey Long. Com todo o respeito pelo Jimmie Davis, que se notabilizou pela música Mississipi Moonshine [https://www.youtube.com/watch?v=VTXPMgT_Nyc] e faleceu em Baton Rouge, mas entrar num museu para ver os pijamas do ex-governador não estava no nosso programa… Como se diz no Brasil brincando, mas falando a verdade: “me inclua fora desta”.

A cena mais simpática que vivenciamos em Baton Rouge foi o encontro fortuito na calçada com um morador: um senhor alto, avermelhado e super sorridente que se ofereceu para fazer a foto que segue. Devolvendo o celular, perguntou de onde nós éramos (é claro que o sotaque nos traiu). Ao informarmos que éramos do Brasil, ele abriu ainda mais o sorriso e disse a nós que não ficássemos com a impressão de que todos os estadunidenses são pró-Trump, pois ele não era. Deduzimos que devia saber que somos, no momento, governados por Lula. Foi a explicação encontrada para essa declaração tão inusitada sob um sol escaldante.

E lá seguimos nós para Nova Orleans.

Carminha Beltrão

Junho de 2025

2 comentários em “Os franceses nos Estados Unidos da América: Louisiana

  1. Carminha

    Ótimo! Sinto, pela leitura do texto, que a viagem está mais “leve”, mais confortável.

    Curtam!!!!

    Grande abraço.

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