Geógrafos gostam de pontos extremos ou daqueles sobre os quais, lá longe no tempo, no ensino básico, escutamos falar nas aulas de História.
Já estivemos em Ushuaia, extremo sul da América do Sul na Argentina e para não entrar na competição entre este país e o Chile, também visitamos Puerto Willians, que estes advogam que é, sim, a cidade mais ao sul do continente. Ainda na América do Sul, fizemos questão de, saindo do Uruguai, certa feita, entrar no Brasil por Chuí, extremo sul do país; fomos ver o pôr do sol em Ponta do Seixas, Paraíba, extremo leste do Brasil.



No Cabo da Boa Esperança, extremo sul da África, vivemos os ventos que tanto devem ter dificultado a travessia do então Cabo das Tormentas.Também visitamos o Farol da Vila de Sagres, extremo sul de Portugal, a partir de onde Pedro Álvares Cabral idealizou a viagem para “descobrir” o Brasil. Também estivemos no extremo oeste de Portugal, Cabo da Roca.



Quisemos conhecer e conhecemos Palos de la Frontera no sul da Espanha de onde partiu Colombo para a empreitada de dominar a América. De Tarifa, também na Espanha, ficamos namorando o estreito de Gibraltar, extremo sul do país, e vimos do outro lado a África.


Bem, agora, não tinha como escapar da viagem até Key West, cuja foto ilustra a abertura deste capítulo (extraída de https://www.topensandoemviajar.com/key-west-mile-0). Apesar deste nome, não é o extremo oeste dos EUA, mas sim seu extremo sul. Olhem para o mapa. Não é demais? Um conjunto de ilhas que formam um prolongamento da Flórida continental e que são totalmente ligadas por uma rodovia – a rodovia de número 1. Na próxima foto, tem um trechinho dela em foto extraída do site da CNN – https://www.cnnbrasil.com.br/viagemegastronomia/viagem/florida-keys-estradas-mais-bonitas-mundo/
São 259 km, os quais, para serem percorridos demandaram, num domingo de verão, quase quatro horas, porque, em função da quantidade de pontes e do trânsito intenso, a velocidade pouco supera os 80 km por hora.
Aproximando a lente, vê-se que essas ilhas, apesar de extremamente estreitas, são ocupadas por marinas, resorts, hotéis, loteamentos com casas que parecem ser destinadas a lazer. Extraí imagens de alguns trechos para vocês verem como é a ocupação nesta longa linha de ilhas.




Cada pedacinho de terra está racionalmente ocupado, mas vê-se que houve a preocupação de manter a vegetação de restinga que permanece ao longo do caminho, quando estamos em terra, porque na maior parte do tempo está-se sobre a água.
O trânsito era intenso, o que não esperávamos. Isso se explica por essa ocupação densa que eu também não imaginava que iria encontrar.
Por todo o percurso chamou atenção demais o número de carros que puxavam lanchas, algumas grandes, bem como a quantidade de lojas que as vendem ou as alugam. Com certeza, no decorrer destes 250 km devemos ter visto várias dezenas delas. Fiquei pensando como é alto o poder aquisitivo médio do estadunidense, porque, simultaneamente, observei que essa península não é, predominantemente, um lugar de turismo voltado para os segmentos de maior poder de compra; ao contrário, há muitas partes com locais para pernoite de trailers e motorhomes, e outros com cabanas de madeira cujo custo de locação deve ser baixo.



Apesar do intenso tráfego, não havia, ao longo do caminho, muitos pontos para restauração. Pelo que indicava o Google Maps quase todos os cafés estavam fechados por volta de 11h de um domingo, mas encontramos essa sorveteria onde havia um banheiro (bem mais ou menos) e um café expresso muito fraco e muito caro. Ali se fazia de tudo, inclusive locação de bikes, que é um meio de locomoção bem utilizado nesta península insular.
A estética que vamos observando nesta sequência de ilhas é bem parecida com a da mesa deste Café onde paramos para um descanso. Tudo excessivamente colorido. O flamingo e sua cor rosa parece ser a melhor representação da estética dominante. Além de café fraco, havia uma infinidade de sorvetes à venda e, pasmem, ofereciam até bowls de açaí. As duas atendentes eram hispano falantes.


Os motorhomes estavam por lá, mas em número menor do que havíamos visto no Texas ou na “Estrada mais solitária dos EUA”.


Por falar em motorhome, vocês viram o filme Ella e John, em que dois setentões aposentados – Ella (Helen Mirren) e John (Donald Sutherland) – decidem fazer uma viagem pelo país de motorhome? Ele já com Alzheimer. Eles se propuseram, escondidos inicialmente dos filhos, a realizar uma aventura viajando de Boston até Key West, para ver a antiga casa de Ernest Hemingway, que se localiza bem na extremidade da península.
Vejam onde se situa a casa de Hemingway à oeste na imagem da cidade de Kay West.
Chegamos com vontade de conhecer Key West e o casario era extremamente simpático.







Igrejas é o que não faltava, aliás por todo o percurso vimos muitas delas, tanto católicas como batistas. Aliás, na Flórida, em função da presença importante de latino-americanos, há muito mais igrejas católicas do que observei no Meio Oeste e Centro Sul dos EUA.
De bandeiras, os estadunidenses também gostam. Aliás foram dezenas que vi pelas estradas ao cruzar o país.


Ao chegarmos à frente da casa de Hemingway, hoje um museu, desistimos de visitá-la. A fila era grande e nos lembramos da nossa visita à casa de Monet em Giverny – espera-se um tempo para entrar, depois em fila, passa-se diante dos cômodos e não há clima favorável, com as outras pessoas esperando, do que fazer rapidamente algumas fotos.
Preferimos ir almoçar e estacionamos nosso carro ao lado de um veículo super esporte que estava à sombra de uma lona onde, ao sol superquente, um lagarto descansava.


No Two Friends Patio Restaurant até música ao vivo tinha, mas ela era de qualidade tão duvidosa como a comida. O que fazer? Domingo, quase 15h e muita fome. Nada mais nos resta do que encarar o que nos é oferecido.
Olhando para a bandeira atrás do músico, perguntei-me o que seria a Conch Republic. Não há o que Google não nos ajude a responder. Segundo o que se registra na web, trata-se de uma micronação, que resulta da autoproclamação dos moradores de Key West, ocorrida em abril de 1982. Esse movimento político teve origem como um protesto contra o realizado pela Patrulha da Fronteira dos EUA, durante um treinamento, que estava interrompendo o turismo em Florida Keys.
A declaração de independência da república, a guerra contra os Estados Unidos e a rendição imediata foram uma forma brincalhona de chamar a atenção para a questão. Os bloqueios foram removidos. Hoje, a República da Concha é um ícone cultural em Key West, simbolizando o espírito independente e o caráter único da ilha. Para ver mais, ler https://conchrepublic.com/
Havia muita gente curtindo a ilha e, pelo modo descontraído, valorizando o espírito da Conch Republic.



Como foi a volta? Os mesmos quilômetros pela mesma rodovia, mas sempre observando aspectos novos ou olhando os mesmos de outro ponto de vista.
Carminha Beltrão
Junho de 2025






















