Nosso último grande trecho de viagem transcorreu entre New Orleans (Louisiana) e Miami (Flórida), passando rapidamente pelos estados de Mississipi e Alabama. O mapa da Flórida é engraçado porque se estende bastante do leste a oeste, razão pela qual é cortado por dois fusos horários, de modo que percorremos muitos quilômetros observando uma paisagem de planície e muito verde.
Fizemos um pernoite no meio, em Tallahassee, apenas para descansar, já que quase 1 400 km num dia seria demais. Sobre esta cidade só tenho duas coisas a registrar, uma vez que paramos somente para descansar: é a capital do estado da Flórida e tem muitas áreas verdes em seus subúrbios, tornando as áreas residenciais agradáveis porque próximas de bosques e parques muito bem cuidados.
Miami, nosso destino, como vocês viram no mapa, fica bem ao sul da Flórida que, por sua vez, também é o estado mais meridional do país. Não é à toa que, logo depois da Revolução Socialista em Cuba, sua elite, e mesmo após a fragmentação da URSS e o embargo estadunidense que deixaram a ilha desabastecida e muita gente sem trabalho, muitos cubanos fugiram de barco para os EUA. Essa presença é sentida ainda hoje em Miami.
A chegada a esta cidade foi dark. Era 6ª feira, final da tarde, por acaso eu estava guiando e senti na pele a intensidade da circulação automotiva. O conjunto de viadutos com várias saídas e sobreposições fazem com que qualquer pequeno erro signifique andar muitos quilômetros a mais para o remediar.
Trata-se de uma enorme aglomeração urbana composta de várias municipalidades. Vejam na próxima imagem que Miami é apenas o setor que está demarcado em vermelho. Assim, andamos algumas dezenas de quilômetros antes de chegarmos na Little Havana, onde está a casinha que alugamos pelo AirBnB.
Depois de dois trechos longos de viagem, o máximo que conseguimos fazer no mesmo dia foi ir a dois pequenos supermercados do bairro e constatar que a Little Havana ainda é dos hispânicos falantes (não se escuta inglês no comércio ou nas ruas) e que, pouco a pouco, lá estão os chineses… Aliás, já vimos movimentos semelhantes em outras cidades dos EUA. Em Nova York, o bairro chinês no decorrer dos anos foi invadindo a Little Italy. Em São Francisco, a mesma coisa ocorreu: os herdeiros do Império Romano perdem cada vez mais espaço para aquela que está se tornando a maior economia do século XXI e com sua gente espalhada pelo mundo todo. O jovem chinês que nos atendeu num pequeno supermercado onde tinha comida chinesa, é óbvio, mas também japonesa e vietnamita, era supersimpático. Começou conversando conosco em inglês, mas respondia em espanhol para seus funcionários que pelas feições logo vimos que eram latino-americanos. Miami é multicultural sem dúvida, mas de um modo diferente de New Orleans.
No dia seguinte, resolvemos aproveitar o sábado de sol para conhecer Miami Beach, que é uma municipalidade distinta de Miami. Sua condição insular e sua praia torna-a uma espécie de play ground da cidade principal.
Vejam o detalhe das três ilhas que estão ao norte da ponte e que, pelo formato, são artificiais. Chamam-se Venetian Islands. Nelas, estão edificadas casas de alto padrão em meio à vegetação abundante. Várias delas têm iates ancoradas na frente.
Ao lado da ponte, estão grandes transatlânticos ancorados. Nunca tinha visto tão grandes, ou ao menos tão largos. Passavam a impressão de ter dois edifícios construídos sobre eles. No topo, um verdadeiro parque de diversões com tobogã gigante e tudo mais.
Uma marca registrada de Miami Beach? Palmeiras de vários tipos. Elas estão por todo lado.




O plano urbano é interessante. Ao longo do mar, a via de veículos está a uns 150 metros de distância da areia. Na faixa entre a via e a praia, tanto há trechos com prédios residenciais e hotéis, a partir dos quais se pode ir direto para a areia, como há trechos com a presença do Lummus Park e outros espaços públicos com vias para bike, patins e pedestres, tornando maior a integração com a Ocean Drive. Em grande parte desta avenida beira mar de Miami Beach, os prédios ficam entre dois e cinco andares, compondo um skyline agradável que não se constitui um paredão que isola o restante da cidade, como temos em Fortaleza ou Recife.




Ao lado de alguns edifícios remanescem residências individuais que suponho sejam quase centenárias.
Nos trechos em que estão os hotéis, a areia é ocupada pelos guarda-sóis deles, mostrando uma homogeneidade na ocupação da praia; nos outros trechos há vários tipos de apropriação do espaço público.

Essa combinação público-privada torna, aparentemente, a cidade bem democrática. Vi gente de várias classes sociais compartilhando os mesmos espaços num dia lindo e super quente. Havia jovens e não tão jovens casais, trajados com roupas esportivas de grife, fazendo cooper, com seus corpos esbeltos, tanto quanto havia senhoras rechonchudas, de origem latino-americana ou africana, carregando geladeiras térmicas com o almoço, indo para a praia, acompanhadas de famílias de, no mínimo, dez pessoas.




As edificações mais bonitas são as dos anos de 1920 a 1940 que são preservadas pela representatividade do estilo Art Déco, outra marca de Miami Beach na beira mar. Há vários prédios, mas só fiz foto deste primeiro, na sequência, os outros busquei na web.
Fonte: https://www.miamiandbeaches.world/l/atra%C3%A7%C3%B5es/bairro-hist%C3%B3rico-art-d%C3%A9co/2116
Nos extremos da ilha, os arranha-céus despontam com muito andares e tornam Miami parecida com Camboriú. Argh!


Além da faixa de areia propriamente dita, o mar era também apropriado pelos jet-skis e, pasmem, por um barco com um painel luminoso, que a cada 30 segundos, mudava a imagem, fazendo assim o papel de publicidade ambulante de várias empresas.



Miami Beach tem um quê de extravagante. Deve ser para fazer valer sua influência cubana. Os carros são coloridos demais, conversíveis, muitas vezes, e barulhentos com a música tocando no volume máximo. As que desciam desses carros eram pessoas que se vestem do modo “cheguei e tomara que vocês me notem”. Não as fotografei, porque não encontrei um jeito de fazê-lo sem as constranger.




Os restaurantes na Ocean Drive também são chamativos. As primaveras estavam floridas, mas em algumas circunstâncias elas são artificiais, e estão enfeitando pequenos coqueiros nos vasos. Assim, Miami, como muita coisa nos EUA tem um quê de kitsch. Vejam os ventiladores vermelhos para combinar com os guarda-sóis e as flores plásticas no vaso azul.
Almoçamos num restaurante italiano parecido, na decoração, com estes. Gostamos do simpático garçom mexicano. Na hora da conta, além dos pratos e bebidas consumidas, a surpresa da água mineral mais cara que encontramos nos EUA – 10 dólares a garrafa – mais 20 dólares por pessoa para pagar pela vista da Ocean Drive. É mole ou querem mais?
De que cor é o mar em Miami Beach? Ele muda do verde para o azul, sem mais nem menos, só para deixar a gente extasiado de tanta belezura.
Voltamos para nosso “alojamento” saciados pelo bom passeio da manhã, por ter visto a praia tão cheia de gente alegre e pelo charme nada discreto de Miami Beach. Como o sol estava extenuante e caminhamos, no mínimo, quatro horas naquela manhã, parando aqui e ali, nada melhor que uma soneca antes do próximo passeio, que fica para outro capítulo. Era 14 de junho e Eliseu completava 75 anos.
Carminha Beltrão
Junho de 2025




















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