Gostei bastante de Miami e, de certo modo, ela superou minhas expectativas. Imaginava que encontraria uma cidade voltada demais para o turista, com hordas deles andando pelas ruas, gente como nós que incomoda os que habitam na cidade. Talvez essa imagem que elaborei sobre Miami deva-se ao fato de ela ser a preferida de muitos brasileiros nos EUA.
Digo que a imaginava voltada demais, usando esse superlativo, porque ela é turística, é claro, mas nem tanto como eu imaginava ou isso não é perceptível em seu cotidiano. Talvez isso seja decorrência do fato de que muitos dos que a visitaram pela primeira vez, como turista, hoje são moradores da cidade, que tem cerca de 50% de seus residentes nascidos em outros lugares.
Fizemos um passeio de barco de pouco mais de uma hora, durante o qual o guia ofereceu informações de todo tipo, algumas delas bem pouco importantes, mas outras até curiosas, como a de que Miami é a única grande cidade dos EUA a ser fundada por uma mulher.
Ela se chamava Julia Tuttle e veio de Cleveland, onde era produtora de frutas cítricas e via nas terras desta península, ainda não ocupadas pelos “brancos”, muito potencial para a agricultura. Não é, então, por acaso, que as placas dos carros na Flórida tenham referência às laranjas e à luz do sol (desculpem o enquadramento mal feito da foto).
Evidentemente, ela não foi a primeira moradora deste território onde já tinham vivido nações indígenas e cujas terras tinham também sido reivindicadas pela Espanha, em 1536, embora esse passado espanhol pouco tenha prosperado.
A região era vista quase como um deserto, mas Julia acreditou nas possibilidades da fruticultura e teve a iniciativa de convencer um magnata do setor ferroviário a construir a Florida East Coast Railroad, o que potencializou sua posição portuária porque ligou a região às outras do país. Em 1896, segundo a Wikipédia, com pouco mais de 300 habitantes, ela foi reconhecida administrativamente como cidade. É, portanto, uma senhora muito jovem [Miami e não a Julia que, evidentemente, já faleceu, deixando herdeiros multimilionários em função de sua ação visionária]. Atualmente, ela é chamada de “mother of Miami”. Vejam a foto dela e se quiserem conhecer mais sobre essa história vejam o vídeo https://www.youtube.com/watch?v=yCdt1DsEieM
Fonte: https://floridatraveler.org/2018/08/05/women-who-changed-florida-my-honor-roll/
Embora componha uma aglomeração urbana grande, a população do município de Miami era, em 2020, por volta de 450 mil habitantes, o que não é muito. Além dos cubanos e seus descendentes que contam muito na composição demográfica, também há snow birds, como são chamados os que habitam as regiões frias dos EUA e, na condição de aposentados (ou ricos), optam por passar o inverno nesta cidade, fugindo das temperaturas baixíssimas do norte do país. São como pássaros que migram conforme as estações do ano.
O centro principal de Miami é parecido a tantos outros que vimos nos EUA, com edificações elevadas, prédios icônicos, calçadas largas e espaços públicos agradáveis. No entanto, observei uma diferença que precisaria ser confirmada por informações mais precisas: enquanto nas demais cidades de grande porte que visitamos – Denver, Dallas e Houston – a maior parte dos prédios, na área central, é voltada aos negócios, em Miami, pareceu-me que há mais moradia, o que teria a ver com sua situação litorânea e, também, com esse grande número de moradores que vieram de outros países ou de outros estados da federação para viver ali. Vejam que alguns prédios têm fachada tipicamente corporativa, mas outros têm varandas que, pelo mobiliário que as ocupa, denotam moradias.






A partir do mar, de onde a observamos no passeio de barco, Miami fica ainda mais bonita, com suas marinas e seu porto que, atualmente, já tem terminais de quatro grandes empresas internacionais de transatlânticos. Pelo que o guia explicou, cerca de 80 mil turistas, que viajam por esse modal, transitam diariamente por Miami.
Viram o tobogã no alto do navio?
Os iates são inúmeros e há tanto os que estão navegando como os ancorados em marinas e nas residências das Venezian Islands (escrevi sobre essas ilhas em outro capítulo deste diário de viagem – https://carminhabeltrao.com/2025/06/17/miami-beach-tem-um-que-de-extravagante/)
Havia também os que tranquilamente velejavam. Enfim, tanto Miami quanto Miami Beach passam a impressão que todos estão sempre de férias (embora saibamos muito bem que milhares de pessoas estão “trampando” para sustentar o turismo).
A maior parte se beneficia das vistas privilegiadas de Miami ou de Miami Beach. O guia desfilou um rosário de nomes de celebridades que têm imóveis ali, mas sinceramente não houve um entre os citados que eu conhecesse. Se me conhecessem, com certeza teriam me convidado para um drink olhando para a linda cidade (risos).
Aliás, as casas de Venezian Islands merecem destaque.
São muito bonitas, algumas já com 50 ou 60 anos, outras moderníssimas.
A maior parte se beneficia das vistas privilegiadas de Miami ou de Miami Beach.
Acho que eles não estão chateados de ter esse privilégio.
Se me conhecessem, com certeza teriam me convidado para um drink olhando para a linda cidade (risos).
Será?
A próxima foto é a que aparece, de cara, no Google, quando se digita Venezian Islands.
Com toda sua vitalidade, Miami continua a crescer. Havia vários prédios em construção, viadutos sendo ampliados e carros por todo lado.
Reparem no detalhe das varandas deste prédio que está em fase de acabamento. Ele tem o formato elíptico para suportar os ventos fortes que batem em Miami em parte do ano.
O prédio de que mais gostei é relativamente simples, do ponto de vista arquitetônico, mas que é adornado com pilares e painéis com pinturas. As fotos não fazem jus ao efeito que ele causa na paisagem.
Descemos do barco com fome e fomos atrás da indicação do TripAdvisor, relativa a um restaurante brasileiro perto do porto – Camila’s – e lá havia feijoada e picanha. Depois de exatos 30 dias fora do Brasil, a pedida foi ótima. A comida estava bem feita, o ambiente simples, mas super ajeitado e limpo. Recomendo.
Do nada, na volta para o estacionamento onde estava nosso carro, encontramos um veículo andando sozinho pela calçada. Era o entregador da Saprino’s Pizzaria. Curiosa a engenhoca, mas logo pensei que a consequência dessas máquinas é menos emprego e mais gente na rua. Miami tem menos homeless que São Francisco, mas não escapa dessa realidade contemporânea. A taxa de desemprego nos EUA está baixa, em torno de 5%, aliás equipara-se à brasileira que ficou um pouco abaixo desse patamar na última vez que divulgaram o dado, mas isso não significa que há trabalho para todos, porque muitas vezes falta mão de obra num setor em que se exige pessoal com determinado nível de especialização e sobra trabalhador que não se encaixa no perfil desejado.
Não bastasse o sistema complexo de vias e viadutos que cortam a cidade e a ligam a Miami Beach, há mais vias em construção para dar vazão ao grande número de carros que circulam na cidade, embora ela tenha um metrô e um pequeno trem de superfície, também funcionando em viaduto.
Passamos várias vezes por esse lugar para chegar em nossa residência temporária (AirBnB) em Little Havana, que está muito próximo do centro de Miami, mas esse tema fica para o próximo capítulo.
Carminha Beltrão
Junho de 2025
























