A grande onda de imigrantes cubanos que se dirigiram a Miami tem relação direta com a proximidade entre a Flórida e Cuba, especialmente entre Miami e Havana, pela importância respectivamente nesses dois territórios. É muito perto, mas isso depende de como é feita a travessia.

Por ocasião da Revolução Cubana, vários empresários e famílias de elite da linda ilha da América Central fugiram para a Flórida e o fizeram de avião ou em barcos de médio a grande porte. Foram seguidos, nas décadas subsequentes, por cubanos de todas as classes sociais, procurando melhores condições de vida e/ou fugindo do governo de Fidel Castro. Estes, em grande parte, fizeram a travessia em barcos pequenos e superlotados e entraram clandestinamente nos EUA.
Tendo em vista a coragem que tiveram, as dificuldades que enfrentaram, o medo que passaram e o significado de terem feito uma escolha é que Miami tornou-se o centro da maior parte das manifestações anti-Fidel.
Quando estive em Cuba, por meio de um projeto de pesquisa financiado pela CAPES, várias pessoas que conhecemos tinham um ou mais conhecidos ou parentes que estavam nos EUA. Havia os que os criticavam por terem abandonado o país e o sonho de construir mais igualdade social e econômica, havia os que achavam que fizeram muito bem… Há sempre mais de um ponto de vista, ainda mais quando as situações são radicalmente difíceis.
Por essa e por outras, o bairro cubano – Little Havana – merece estar no título deste capítulo de meu diário de viagem, pelo significado que tem para aqueles que fizeram essa opção. A participação cubana no conjunto da população de Miami ainda é importante, embora imigrantes de outros países latino-americanos sejam relevantes na composição populacional da cidade e tenha, ainda, destaque a colônia judaica.
A projeção feita a partir do Censo de 2020 (https://worldpopulationreview.com/us-cities/florida/miami) indica que 43% dos moradores resultam da miscigenação entre duas ou mais raças, 34% são brancos, 14% são negros e os 9% restantes são compostos de outros raças – asiáticos, nativos americanos, nativos do Havaí e de ilhas do Pacífico, o que é interessante, porque indica que os grupos que imigraram também se integraram ao país já que parcela importante dos moradores da cidade já são resultado de mesclas raciais. Cubanos e seus descendentes podem estar entre os três primeiros agrupamentos.
Estava procurando o nome de um filme que assisti sobre Cuba e encontrei num site de Portugal a indicação de sete películas sobre a emblemática ilha, todas elas oferecendo algum ponto de vista sobre a experiência política vivida por esse país e, é claro, por sua gente [https://observador.pt/2016/11/26/visoes-cubanas-sete-filmes-sobre-cuba-a-revolucao-e-fidel-castro/]: “Soy Cuba”, de Mikhail Kalatozov (1964); “Mauvaise Conduite”, de Néstor Almendros (1984); “Morango e Chocolate”, de Tomás Gutiérrez Alea e Juan Carlos Tabío (1993)/ “Antes que Anoiteça” de Julian Schnabel (2000); “Havana-Cidade Perdida”, de Andy Garcia (2005); “Che – O Argentino”, de Steven Soderbergh (2008); “Juan de los Muertos”, de Alejandro Bruguês (2011). Só assisti ao Morango com Chocolate e voltei animada para ver alguns destes. Fiquei especialmente curiosa pelo filme de Andy Garcia, porque ele é filho de cubanos que se exilaram e, politicamente, sempre se manifestou contra o governo de Castro. Que mensagem será que ele desejou passar com o filme?
Não encontrei, nesta lista, nem a referência ao Buena Vista Social Club, documentário dirigido por Wim Wenders, que é muito bom, nem o filme que eu procurava, localizado depois em outro site. Ele se chama Wasp Network (em português foi difundido como Rede de Espiões). Por que eu recomendo esse filme? Porque é baseado no livro “Os últimos soldados da Guerra Fria” que eu também li, de autoria do brasileiro Fernando Morais. Além disso ele é estrelado por Penélope Cruz, Gael García Bernal e o maravilhoso Wagner Moura, todos com excelente performance.


Penso que ambos ajudam a entender o que foi a diáspora da ilha em direção à Flórida. Retratam uma operação de inteligência cubana, que levou espiões a viverem como desertores para poder descobrir as operações em curso nos EUA contra o regime cubano. O final não é feliz porque os espiões foram presos, reforçando a constatação de que é CIA é eficaz e poderosa mesmo.
Vamos deixar a lista de filmes para ser vista em outro momento e voltar à Little Havana.
Quando começou a ser ocupado por imigrantes, nos anos de 1960, o bairro tinha uma posição secundária na cidade, mas agora, com o crescimento e o aparecimento de vários bairros novos mais distantes, subúrbios e aglomeração com outras cidades, Little Havana está praticamente no coração de Miami.
As ruas são largas e as calçadas também e é um setor da cidade bem arborizado. Quando se deixa o centro de Miami e se chega a Little Havana parece que mudamos de cidade – é outro mundo, outro ambiente, outra aura.
O bairro mantém certa fisionomia de 50-60 anos atrás. É composto sobretudo de casas, as quais me fizeram lembrar as do bairro em que eu morava, quando criança, em São Paulo. Há modificações, é claro, como pela chegada alguns prédios e de unidades comerciais tanto de grandes redes (Mc Donald’s, 7-Eleven e outras) como de pequenos supermercados de chineses (ou outros imigrantes asiáticos).
O que se observa é que as construções alongadas, que parecem uma residência térrea, são de fato compostas por várias pequenas moradias, uma atrás da outra, todas dando para um corredor lateral. A que alugamos era já resultado da modernização de uma dessas construções. Suponho que, no passado, ali moraram quatro famílias e hoje são quatro casas, compostas por uma sala com cozinha americana, quarto e banheiro, todas locadas para turistas.
Vejam casas deste tipo nas fotos (a primeira é a que nos hospedamos).
No conjunto, o bairro é ocupado pelo que poderia se qualificar como uma classe média / média baixa. Sua marca maior, no entanto, é a alegria que ele transmite em sua gente e seus painéis coloridos.
Achei pitoresco porque havia galos e galinhas andando pelas calçadas e ruas. Não entendemos bem o motivo. Às 6 horas da manhã, eles cantavam vivamente. Depois observei várias esculturas e painéis representando galos. Fui procurar na internet e fiquei sabendo que, embora não seja o símbolo oficial de Cuba, o galo é uma ave respeitada e querida na ilha.
Havia galos de todo tipo – com o desenho da bandeira dos EUA; de camisa típica cubana, a guayabera; homenageando a comunidade gay etc.




A bandeira cubana estava por toda parte, inclusive, nas portas das três ou quatro fábricas de charuto que vimos na SW 8th Street, que é também conhecida como Calle Ocho. Aliás, ouve-se muito mais espanhol nas ruas do que inglês; por isso, até mesmo os nomes oficiais das ruas, na linguagem falada, são enunciados em espanhol.
O Mc Donald’s para estar em Little Havana teve que se “acubanar” e ficou ainda mais chamativo do que já costuma ser.
Numa das esquinas da Calle Ocho, está o Maximo Gomez Park, que todos chamam de Domino Park, por causa do jogo que é praticado pelos mais velhos que, enquanto se distraem, aproveitam para rememorar a Cuba antiga e, é claro, criticar a Revolução Cubana.
No muro do fundo da praça tem um painel com presidentes de países latino-americanos. A pintura não é de primeira, porque fiquei em dúvida se este é mesmo Fernando Henrique Cardoso, mas de qualquer modo é uma praça simpática e com cobertura, o que é fundamental no verão da Flórida.
Vejam que as mesinhas são próprias para o dominó.
Na mesma Calle Ocho, encontramos a calçada da fama da Little Havana, que homenageava os pioneiros do bairro.
Nas ruas, à medida que observamos as pessoas, é como se estivéssemos numa cidade brasileira ou colombiana (gente trabalhando de catador para reciclagem; meninas exuberantemente mostrando suas formas; senhoras indiscretamente trajadas de vermelho vivo). É claro que me lembrei também a Cuba que conheci há pouco mais de uma década.



De um modo ou de outro, a frase que encontrei escrita no frontal de uma das construções é perfeita para sintetizar Little Havana.
Carminha Beltrão
Junho de 2025
















