Diário de Paris – Experiência 1 – O que mudou…

Tour Eiffel em 24 de dezembro de 2021

Alguém já escreveu que as experiências não se repetem. Nem as que registro aqui se repetirão para qualquer um que leia esse texto, nem as que vivi no passado, na mesma cidade, podem ser revividas tal e qual foram vivenciadas antes.

Pela terceira vez, estou passando um período mais alongado em Paris. Vivi nessa cidade pela primeira vez do final de 1994 ao começo de 1996, passei dois agradáveis meses em 2009 e volto, ao final de 2021, para trabalhar e viver aqui por sete meses. Entrementes, estive outras vezes por aqui para um congresso científico, voltando ou vindo de algum outro canto do mundo e tendo, assim, a oportunidade de acompanhar as mudanças pelas quais passa Paris, que uma amiga definiu como feminina, em contraponto a Nova York, que ela considerou adoravelmente masculina.

Fico me perguntando quais as especificidades de suas alterações recentes e tenho dificuldades de reconhecê-las, o que talvez seja mais fácil para um nativo, afinal o olhar estrangeiro é sempre autorreferente e tende à superficialidade.

Minha primeira avaliação é de que são transformações no mundo, que aparecem aqui ou acolá, com matizes diversos, mas sempre parte de um movimento geral que nos conduz a uma vida urbana cada vez mais globalizada e estandartizada, em que sejam pesem as diferenças sociais e culturais que a história de cada cidade carrega.

Tomando como referência a experiência de meados da década de 1990, mais longa e muito intensa, porque teve o gostinho de primeira residência fora do meu país, algumas mudanças parecem-me muito significativas. Começo pela pobreza que grassa aqui e ali, mostrando que mesmo na Europa do Estado de Bem Estar Social, as desigualdades ampliam-se, o que já é histórico para nós latinoamericanos.

As singularidades talvez estejam, no fato, de que, em Paris, os moradores de rua ou de estações do metrô, eram antes poucos. Definidos como clochards[1], passavam a impressão, para uma brasileira pouco informada, que aquela era uma opção de vida, em grande medida decorrente da dependência do álcool. Eles tinham ajudas governamentais, podiam deixar as ruas se quisessem, mas escolhiam viver assim. Eram, em muitas circunstâncias, parte da vida dos bairros.

Na estação Saint Mandé da linha 1 do metrô parisiense, a que eu utilizava com frequência, era possível reconhecê-los, dizer bonjour e seguir em frente. Hoje, aumentou demais o número de pessoas nessas condições. Seria preciso ter acesso a uma pesquisa bem feita para compreender o perfil deles e os processos contemporâneos que cercam o crescimento exponencial deste problema social.

O número de habitações improvisadas, em canteiros de grandes avenidas ou embaixo de viadutos, indicam que são agora famílias, em algunas circunstâncias, dependentes do crack, em outras, vivendo de modo radical situações de não pertencimento à sociedade de consumo e, ao mesmo tempo, vitimação completa desssa mesma sociedade, em que as diretrizes neoliberais afastam muita gente daquilo que se poderia chamar de uma vida normal, já que é parte da lógica não haver trabalho para todos.

Até mesmo numa das mais importantes ruas comerciais de Paris, em frente à grade loja da Zara, há gente morando nas ruas. Como a foto mostra, estão no gradil perto da rua, sob a chuva, provavelmente porque está sendo interditado o direito deles de ficar sob a marquise das lojas, no outro lado da mesma calçada, o que os protegeria um pouco.

Talvez, o aumento da imigração tanto de africanos do norte e do sul do Saara, como de asiáticos e latinoamericanos, seja outro ingrediente deste caldeirão que ferve e parece transbordar ‘manchando’ a paisagem cartesiana dessa linda cidade. Parecem, agora, extremamente contraditórias as diretrizes urbanísticas que estabelecem gabaritos máximos para a altura dos prédios, estabelecem regras para a manutenção da Paris do século XIX, quando esses novos habitats se multiplicam e as pixações varrem da periferia para o centro as fachadas mais ilustres de séculos passados e as portas das lojas, lado a lado, dos apelos para turistas na Rue Saint Michel ou na Rive Guauche do Sena, um dos espaços preferidos dos parisienses.

A ideia de países desenvolvidos e subdesenvolvidos, tão forte a partir, inclusive, da Geografia francesa, perde cada vez mais força. Não que a França não esteja entre as maiores economias do mundo e que não haja rankings, com base no PIB per capita, em que sua posição seja boa, mas o fato é que há tanta pobreza no “centro do mundo” que a separação dos países por grupos não faz mais tanto sentido, além de ter sido e ainda ser forte vetor de estigmatização para o bloco dos países de “baixo”, mais uma razão para se fugir dessa tipificaçao.

Nunca foi tão verdadeira a ideia de que não são os países que são ricos, mas parte de sua sociedade que enriquece em detrimento da outra e da transferência de riqueza entre diferentes territórios e nações.

Por falar em poder econômico, outra mudança radical observada nas primeiras 24 horas em Paris refere-se ao fato de que a China está presente aqui, como aliás por todo canto. Não apenas porque os chineses são donos de muitos restaurantes, lojas, hotéis e entram com força em outros ramos da economia, mas porque os franceses que, no final do século passado, lutavam contra o domínio cultural estadunidense, rejeitando a entrada triunfal do inglês na linguagem comercial e cotidiana, agora admitem (será que uso o verbo correto?) que, sem esses orientais, o turismo perde muito em receita.

Fiquei supreendida, ao desembarcar em Charles De Gaulle, com os grandes letreiros orientando os visitantes, agora em francês, inglês e chinês.

Carminha Beltrão

28 e 29 de dezembro de 2021


[1][1] Personne sans domicile, vivant misérablement en marge de la société. Fonte: https://www.larousse.fr/dictionnaires/francais/clochard/16608

8 comentários em “Diário de Paris – Experiência 1 – O que mudou…

  1. Caríssima Carminha

    Parabéns pela clareza e objetividade do seu artigo: muito bom, atual… ótimo!!!

  2. Olá Carminha, que gostoso encontrar suas “reportagens”! Por outro lado, que seriedade sobre as primeiras e profundas impressões. Um amigo meu francês canadense também já me havia descrito o aumento enorme dos moradores de rua, mas sem a sua visão de geógrafa.
    Interessante a observação sobre os chineses e a “aceitação “deles na vida francesa. Por outro lado, os avisos no aeroporto e outros locais já eram em ingles, além do francês, não?
    Abraços calorosos!
    Suzana

    1. oi Suzana, sim já eram em inglês, penso que há muito tempo. O interessante é ver que o chinês entrou com toda força ultrapassando o espanhol que foi em alguns lugares a 3a língua ou mesmo o alemão que, depois da guerra, era a segunda língua. Enfim, como a economia se move, a geopolítica e a cultura também. Saudades

  3. Querida Carminha, como já disse, a sua versatilidade é muito admirável, mal chegou e já nos brinda com um texto super bom de se ler e muito esclarecedor sobre a Cidade Luz! Imagino que a presença globalmente crescente de moradores de rua, além de preocupante, tira um pouco o brilho da bela Paris. Espero que recebamos com frequência notícias suas através desses deliciosos relatos. Tenham ótima passagem de ano. Beijos, já com saudade!
    Tereza

  4. Gostei muito do texto Carminha. Ao ler, a sensação é de estar vendo o que você descreve. Parabéns pelo texto.

  5. Olá Carminha, quanta sensibilidade! Captura o quotidiano e o traduz com tanta propriedade. Ademais, este texto delicioso só nos deixa tocados.

  6. Querida Carminha.
    Que delícia “viver”, através desses relatos um pouco da aventura que vcs estão iniciando. A sensação, ao ler o texto é que estamos em uma longa e deliciosa conversa presencial. Obrigada! No aguardo da próxima crônica. Bjos.

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