Diário de Paris – Experiência 2 – Parques e comércio de vizinhança

Jardin des Tuileries

Vamos começar 2022 bem, destacando as maravilhas de Paris, para compensar meu relato “Diário de Paris – Experiência 1” em que pesei a mão mais nas mudanças para pior que constatei na cidade. Há aspectos maravilhosos, que atravessam o tempo e contrabalançam muito as alterações recentes que não são tão positivas, e é preciso falar deles também.

Para começar, nada melhor do que brindar o espaço público da cidade, cheio de oportunidades em termos de infraestrutura e equipamentos, espaços verdes, vida cultural e possibilidades de encontro com o outro. Os parques, que são muitos, continuam bem cuidados e cheios de gente: alguns correm, outros estão deitados na grama, outrem apenas lê ou olha o celular, há os que passeiam com os cachorros e os que levam as crianças para gastar energia ou tomar sol.

Evidentemente que há certa distinção socioespacial, na medida em que são tantos parques distribuídos por vários setores da cidade e da sua região metropolitana – Île de France – que a diferenciação que se observa entre os bairros tem rebatimento neles, mas ainda assim, vê-se que tanto os nativos, sejam mais ricos ou mais pobres, como os imigrantes e os turistas, apropriam-se cotidianamente deles, nem que seja atravessando-os para aceder a uma estação de metrô ou de trem.

Perto de onde estamos morando, está o Parc Montsouris[1]. Foi implantado durante o governo de Napoleão III e foi parte da política desenvolvida pelo prefeito Haussmann visando higienizar a cidade, visto que este setor ao sul havia, desde o século XVI. sido destinado tanto ao depósito de sucatas de guerras, quanto de ossadas decorrentes de cemitérios desativados, fazendo que todo o bairro fosse também ocupado por funções menos “respeitadas” como os cabarés e os prostíbulos. Sabemos que os interesses de Napoleão III e Haussmann iam além de embelezar a cidade e as posições controversas sobre os efeitos de suas ações são muitas, mas deixemos essa polêmica para outros textos.

Desde sua inauguração, em 1869, os moradores da cidade e visitantes dispõem dessa área verde que compõe com outras três, os grandes parques da cidade (Vincennes a leste, Boulogne a oeste e Buttes-Chaumont ao norte).

A representação pictórica da época da inauguração mostra sua localização justaposta à quinta muralha da cidade e que o tecido urbano não se estendia além dela. A imagem de satélite da região metropolitana, mostra a extensão da área urbana atual e a localização privilegiada do parque. No lugar da quinta muralha estão hoje os Boulevards des Maréchaux e logo adiante o Boulevard Périphérique, que coincide com os limites do município de Paris. Na terceira figura, está a localização do parque em frente à Cité Universitaire, onde estou morando agora.

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Parque_Montsouris#/media/Ficheiro:Vue_du_parc_de_Montsouris,_ca._1853%E2%80%9370.jpg
Fonte: Google Maps
Fonte: Google Maps

Nem pensava em escrever tanto sobre esse parque, mas já que registrei algumas informações e imagens, ele fica de exemplo do que essas áreas representam para a cidade e, sobretudo, a forma intensa como elas são apropriadas.

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Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=PMsiLmkKbZM

Outra maravilha que a cidade mantém é o intenso e diversificado comércio de vizinhança. Sim, é verdade, as grandes superfícies comerciais e de serviços, como hipermercados e shopping centers também chegaram por aqui, mas não fizeram desaparecer o pequeno comércio, o que não é casual, mas resulta da combinação de vários fatores, entre os quais destaco alguns que considero relevantes: a) a tradição francesa de comprar em pequenos estabelecimentos perto de casa e não utilizar veículos particulares para ir mais longe; b) o urbanismo e suas leis que impedem que grandes áreas comerciais sejam instaladas na cidade mais densamente ocupada, razão pela qual os Carrefours, Auchans e Casinos de grande porte estão sempre além da Périphérique e ao longo de rodovias; c) a sapiência e o sentido de oportunidade de indianos, paquistaneses, chineses e bangaleses, que não se confrontaram com a tradição, mas sim compraram pontos comerciais pequenos de franceses e abriram novos, o que faz com que, num raio máximo de 500 metros, todo mundo encontre uma mercearie (mercearia), uma boulangerie (padaria), uma boucherie (açougue) ou uma quincaillerie (lojas onde tem de tudo um pouco, desde móveis para montar, passando por ferramentas, eletrodomésticos até chegar a um simples parafuso), ou ainda as lojas de produtos regionais etc.

Isso faz com Paris seja especialmente preparada para o pedestre, o que aliás é comum na Europa, mas especialmente valorizado nesta cidade.

O que eu mais gosto nestes estabelecimentos é que, mesmo se modernizando no mobilário, nas portas que se abrem automaticamente, nas esquadrias de alumínio e nos grandes vidros, eles mantêm um pouco do passado, mantendo as formas de escrita mais antigas em seus letreiros na fachada e a arrumação interna dos produtos que favorece aos fregueses ver o que tem a venda e quanto custa.

Paris tem outras maravilhas, mas vou deixar para falar sobre elas outro dia, afinal, temas como o transporte público e os cafés merecem um capítulo à parte.

Carminha Beltrão

Paris, 1 de janeiro de 2022

[1]https://www.paris.fr/equipements/parc-montsouris-1810

5 comentários em “Diário de Paris – Experiência 2 – Parques e comércio de vizinhança

  1. Carminha

    É ótimo ler os seus textos… Paris I e Paris II são aulas de elevado valor: pelo conteúdo e pela sensibilidade: parabéns!!! Fico no aguardo do próximo!

  2. Carminha,
    Parabéns pelo belo texto, um verdadeiro guia para quando, finalmente, eu for para Paris!
    Belas fotos, contribuições do Eliseu, imagino?
    Ansiosa também pelo próximo texto!
    Abraços, desejando um maravilhoso 2022.

  3. Delícia de texto. Como nunca estive aí, fica a noção que apesar das mudanças pontuadas no texto I, Paris mantém a atmosfera que estamos acostumados a ver nos filmes.
    Bjos e saudades

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