Diário de Paris – Experiência 3 – Vida de estudante

Fonte: https://www.europe1.fr/societe/une-campagne-de-levee-de-fonds-record-pour-sorbonne-universite-3679973

Antes de dar título a este capítulo do Diário de Paris, fiquei me perguntando que aspectos justificariam qualificar a vida que estamos levando, meu marido eu, como de estudantes, se na verdade, já somos o que se classificaria aqui como pesquisadores sêniores. Passei em revista o nosso cotidiano nos últimos dez dias e acho que não é demais esse título, ainda que, se eu tivesse pouco mais de 20 anos e não mais de 60 que tenho, a minha vida de estudante seria outra e voltamos àquela afirmação da “Experiência 1” de que nada se repete ou acontece do mesmo modo como ocorreria a outrem ou em outro tempo. De todo modo, aqui vão alguns destaques.

Penso que me sinto numa vida de estudante por morar na Cité Universitaire de Paris. No Brasil, as cidades universitárias são os próprios câmpus das universidades. A de Paris é um pouco diferente e isso tem a ver com sua longa história. Fundada em 1170 (em alguns fontes aparece 1257), por iniciativa da Escola da Catedral de Notre Dame, tem sua estruturação associada ao crescimento urbano da própria cidade e da região metropolitana que é nucleada por Paris.

As edificações que a compõem espalham-se pelo espaço urbano e revelam tempos diferentes da arquitetura e da estruturação espacial, bem como as lutas estudantis que levaram a modificações profundas. Durante vários séculos, em que pese seu crescimento, compunha uma única universidade. A partir de 1968, em grande medida em decorrência do movimento levado a cabo pelos estudantes (“barricadas de Paris”[1]), ela passou por uma ampla reestruturação, dividindo-se em várias universidades e se periferizando, por meio da abertura de unidades, fora da cidade principal do espaço metropolitano, para atender a população que morava mais distante. Entre 1968 e 2019, havia, então 13 Universidades de Paris. Quando estive aqui pela primeira vez em 1995, estava fazendo pós-doutorado na Paris I, Pantheón-Sorbonne, considerada a mais prestigiada, mas também a mais conservadora.

Foi uma grande experiência porque também frequentava a Paris XII, em Créteil, e podia fazer comparações entre os modos de organização espacial e administrativa dessas duas universidades.

Em 2019, houve a fusão da Universidades Paris Descartes (Paris V) e Denis Diderot (Paris VII), gerando a Universidade de Paris Diderot, onde estou agora trabalhando como pesquisadora. Aliás falar do espaço que essa universidade ocupa hoje na cidade pode vir a ser objeto de outro capítulo desse diário.

O prédio principal que, ao menos simbolicamente, oferece alguma unidade a essas universidades é o da Sorbonne, ponto turístico da cidade, localizado na Rive Gauche[2].

Sorbonne

Toda essa divagação sobre a história da universidade, para explicar que não há um câmpus, mas vários, e que nos mais antigos entres, em que os prédios nem sequer estão reunidos numa mesma área ou bairro da cidade, como é o caso da Paris I – Sorbonne.

Assim, o que se chama oficialmente de Cité Internationale Universitaire de Paris (https://www.ciup.fr/) não tem qualquer edificação voltada ao ensino ou à pesquisa diretamente. É uma ampla área, ao sul da cidade, em frente ao Parc Montsouris, onde há vários prédios voltados à moradia de estudantes e pesquisadores.

Nossa “vida de estudante” caracteriza-se, antes de mais nada, por compartilhar esse ambiente, onde jovens e não tão jovens de vários cantos do mundo, vivenciam uma experiência internacional. No plano da cité, a Maison du Brésil, onde estamos morando, ocupa a posição 7L.

Fonte: https://www.ciup.fr/
Fonte: Google Maps

São mais de 40 “maisons” que constituem um patrimônio arquitetônico muito especial, porque a maior parte delas têm características de seus países. Ademais, o que vais se deve valorizar é justamente  o potencial de encontro entre os diferentes e de trocas políticas e culturais, o que é muito especial.

Fonte: https://www.ciup.fr/

A Maison du Brésil foi inaugurada em 1959 e foi construída com recursos do Ministério da Educação. O projeto foi encomendado a Lucio Costa, o urbanista que projetou Brasília, e a responsabilidade sobre a construção foi destinada a seu amigo, Le Corbusier, talvez o mais importante arquiteto francês do século XX. Este fez modificações grandes no projeto inicial, o que redundou numa colaboração, que é considerada conflituosa, pelo menos da parte de Lucio, que viu seu projeto alterado e o nome de Le Corbusior consta como o do arquiteto principal. Essa contenda não tira desse prédio o caráter de representativo da arquitetura moderna do século passado, uma vez que é feito em concreto armado, compondo um jogo de estruturas, vidros coloridos e vão livres no térreo.


A Maison du Brésil é uma das poucas construções da Cité que fazem parte do “inventário de monumentos históricos franceses”, desde 1985[3]. Nada mais emblemático do Brasil moderno, do que sua arquitetura e o sorriso de Juscelino.

Fonte: http://www.maisondubresil.org/le-batiment/historique/

Fonte: http://www.maisondubresil.org/le-batiment/historique/

O prédio passou por uma reforma, ao final dos anos de 1990, mas nada do projeto original pôde ser alterado. Com isso, ele é bonito, mas nem tudo é muito funcional ou confortável por aqui. Começa pelo concreto que está por tudo e esfria o ambiente, o que se acentua, com o piso de ardósia do térreo, razão pela qual o aquecimento parece, sempre, não ser suficiente para quem vem do um país tropical.

Nas paredes, não se pode colocar nem um mísero pendurador de toalhas no banheiro, cuja porta é de alumínio, modernosa, mas barulhenta e gelada. Os móveis desenhados especialmente para a maison, são bacanas, mas a cama é muito baixa. O estúdio que ocupamos e os demais não têm utensílios domésticos, o que faz com que nossa vida de estudante fique, radicalmente, ainda mais vida de estudante, com apenas uma panela, dois pratos, dois copos, duas taças, dois bowls, dois jogos de talheres e um abridor de vinho, parte doado por nossa amiga brasileira que mora na Maison Marie Curie, parte comprado por nós. Não é apenas economia, mas sobretudo não faz sentido equipar todo um imóvel por apenas três meses, que é o tempo que temos garantido aqui. Depois é uma interrogação.

Ocupamos o estúdio 400, no 4o. andar, com 24 metros quadrados, que corresponde à penúltima e à última janelas à direita.

Perto de nós, estão outras maisons que também acho bonitas, como a da Suécia, a da Suíça (que aliás parece com a do Brasil, porque foi desenhada por Le Corbusior), a do Estados Unidos, a da Dinamarca, a do Japão e da Índia.


Entre as construções mais novas, destaca-se a Maison de la Tunisie, pela arquitetura de vanguarda, cujo detalhe do rendilhado aparece logo abaixo.

Morar num espaço destes, multi racial e multi cultural, leva-me a imaginar os percursos que tantos aqui fazem para se aperfeiçoarem científica e intelectualmente. Escuta-se todo tipo de história, desde aqueles que permanecem com boa ajuda de seus países, até os que vivem todas as restrições imaginadas e trabalham, enquanto estudam.

De um jeito ou de outro, a Cité traduz um pouco do espírito cosmopolita francês e o fato de ter um bonito jardim e estar em frente a um dos quatro parques mais importantes da cidade oferece oportunidades de qualidade de vida a todos: pesquisadores e estudantes, pobres e bem . Desse ponto de vista o espaço é democrático.

O câmbio da nossa moeda, atualmente (6,5 reais para comprar um dolar) e as restrições impostas por Paulo Guedes para a remessa de dinheiro, que tornam o saque do nosso próprio salário, aqui excessivamente taxado pelo Brasil, faz com que, nesse momento, comparativamente às outras estadas aqui em Paris, a nosso cotidiano de pesquisadores se pareça muito, reafirmando mais uma vez, com uma vida de estudante.

Carminha Beltrão

Paris, 7 de janeiro de 2022

[1] Na noite de 10 de maio de 1968, em poucas horas em Paris, foram erguidas 60 barricadas, sem qualquer plano prévio ou estratégia coerente. Na manhã de 11, após a brutal repressão policial, os estudantes apelam à greve geral a partir de 13 de maio. Extraído de: https://www.esquerda.net/dossier/noite-das-barricadas-ha-50-anos-em-paris/54977.

[2] Aqui tudo se localiza, inicialmente, por meio dessa divisão – Rive Gauche (lado esquerdo do rio Sena e ao sul dele) e Rive Droite (lado direito do rio Sena e ao norte dele na cidade de Paris). Há múltiplos significados historicamente atribuídos para esses dois lados da cidade, mas se pode dizer, para resumir, que, tudo que tem mais prestígio artístico e intelectual associa-se à Rive Gauche, especialmente a um dos seus setores o Quartier Latin.

6 comentários em “Diário de Paris – Experiência 3 – Vida de estudante

  1. Amei o texto e as fotos. Que riqueza arquitetônica essas moradias estudantis! Esse prédio da Tunísia é belíssimo e ter um belo parque “em frente de casa” é um verdadeiro privilégio! Só isso já compensa os “perrengues” da vida de estudante. Bjos e saudades

  2. Olá Carminha

    O seu relato, a exemplo dos anteriores, é muito rico: pela clareza, em relação às cités universitaires de Paris; em relação ao seu “desconforto” por estar vivendo a “vida de estudante”; o consolo é que você/vocês tem experiências e vivências suficientes para se adaptarem e, notadamente, para buscar compensações: na pesquisa e docência na Université, nas próximas viagens nos próximos meses… O tempo da próxima estação é outro: Paris vai estar mais aberta… e, vocês estarão mais confortáveis…

  3. Carminha querida,
    Que delícia de aula sobre as Universidades de Paris e de Geografia e História, situando-nos magicamente no espaço fisico, temporal e arquitetônico da Cidade Internacional Universitária de Paris.
    Imagino que as restrições da sua cozinha são imensamente compensadas pela imensidão cultural desse espaço de maisons multi países.
    Obrigada por compartilhar fotos e texto lindos.
    Abraço saudoso.

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