Diário de Paris. Experiência 4. A metrópole e a polêmica da vacina.

Melun
Paris não é, afinal, apenas Paris. Compõe uma extensa área urbana, a qual comanda, e que está inserida, por sua vez, na região denominada Île-de-France. Ao contrário do que ocorre com outras regiões metropolitanas, a cidade principal, Paris, compreende apenas 17% do total demográfico do conjunto: tem pouco mais de dois milhões e cem mil habitantes e a Île-de-France compreende doze milhões e quase trezentos mil habitantes[1]. Apenas a título de comparação, dos 21 milhões que habitam a região metropolitana de São Paulo, mais de 50% estão na cidade mãe.
[1] www.paris.fr

Esta grande região não está totalmente urbanizada como a imagem de satélite que se segue mostra. Nela, a cidade de Paris ocupa uma parte pequena em torno do pontinho preto assinalado logo abaixo do seu nome, e em volta desta área estende-se a mancha urbana, composta por áreas urbanizadas de outros tantos municípios. A île-de-France tem, ainda, bosques e pequenas florestas e um pouco de agricultura ainda é praticada na região.

Esta imagem possuí um atributo alt vazio; O nome do arquivo é image-26.png

Resolvemos conhecer um dos pontos mais distantes da região metropolitana e fomos até Melun, que está marcada com a gota vermelha no próximo mapa. Ela está 40 km a sudeste de Paris e ocupa um sítio demarcado por um dos meandros do Rio Sena. Sempre ele majestoso e serpenteando a grande área urbana.

Antes de descermos na estação do Réseau Express Régional (RER) imaginávamos, em função da distância, que chegaríamos num pequeno vilarejo, mas ao descortinarmos a cidade, vimos edifícios e uma área urbana extensa. Consultamos o “Santo Google” e ficamos sabendo que lá moram 40 mil habitantes.

Para ter uma ideia de como é sua posição em relação ao conjunto metropolitano, veja o mapa das linhas de trens regionais de Paris. Ao final da linha verde está Melun, assinalada com um círculo em pink.

Melun foi fundada pelos Romanos na Antiguidade e era chamada de Melodunum. Depois da queda do Império, durante a Idade Média, vinculou-se à Diocese de Sens e manteve alguma importância pela sua situação geográfica ao longo do Sena, especialmente por razões defensivas e pelo fornecimento de trigo para a capital. Sua situação geográfica reforçou-se, a partir de 1847, por estar às margens da ferrovia que foi construída para ligar Paris a Lyon e a Marselha.

A paisagem é muito especial, tanto pelo rio como porque a cidade está circundada por áreas verdes. O céu muito azul, entrecruzado pelos “rastros” dos aviões de Orly compõe o cenário.

Esta cidade no finalzinho da área metropolitana de Paris  já teve moradores ilustres, como Louis Pasteur e Paul Cèzanne. Em decorrência das funções que desempenhou, ao longo da história, esse núcleo urbano nos arrabaldes da região metropolitana tem um pequeno patrimônio arquitetônico, que julgo que tenha importância histórica.

Fotografei algumas edificações, representativas de diferentes séculos, mas não sei  muito bem o significado de cada uma delas. Ficam como registro.

Depois de vários dias muito frios e com o céu completamente nublado, o sábado 15 de janeiro de 2022, quando fizemos este passeio, estava ensolarado e convidava à caminhada sem compromisso. A ida, tendo em vista as conexões necessárias de tramway, metrô e RER, foi mais demorada do que o esperado e ao chegarmos em Melun, o comércio já estava quase todo fechado. Mesmo assim, estava super agradável seu centro comercial, especialmente passear pela rua de pedestres até chegarmos a um pequeno café restaurante às margens de um braço pequeno do Sena, onde almoçamos.

Tudo indicava um final de passeio tranquilo, talvez até demais, quando nos deparamos com uma passeata, que devia ser composta por umas cem pessoas, que animadamente desciam pela Rue de L’Éperon e pararam diante do prédio da Prefeitura.

O motivo do movimento? Protestos contra a obrigatoriedade da vacina anti-Covid e do Passe Sanitário para o acesso a vários espaços[1].


[1] Trata-se de documento unificado para toda a União Europeia comprovatório, ao menos, de duas doses da vacina. Com os comprovantes que trouxemos do Brasil, facilmente obtivemos o passe numa das farmácias autorizadas para tal em Paris.

Esse é um movimento forte aqui na França, que deve abarcar quase 20% da sociedade, conforme li há alguns dias na imprensa. É difícil, muitas vezes, entender suas razões, principalmente porque sou totalmente favorável à vacinação. No entanto, tenho que admitir que, mesmo com alguns matizes políticos atravessando a polêmica, não se trata de nada irracional ou absurdo, como muitas vezes encontramos nos discursos sobre esse assunto no Brasil. Os argumentos centrais giram em torno dos seguintes pontos: a) foi inadequada a decisão do governo Macron de comprar apenas a vacina da Pfizer, dando a essa empresa praticamente o monopólio no fornecimento das vacinas e não oferecendo à Sociedade outras opções, sendo que citam sempre a Coronavac, ao destacarem esse aspecto; b) não houve pesquisa suficiente para se ter certeza que é seguro se vacinar; c) há excesso de exigência de testes comprobatórios de que o indivíduo está negativo para Covid e isso custa muito caro; d) uma parcela, que parece ser a mais importante, defende a ideia de que, numa sociedade marcada pelo apreço à liberdade, é absurdo exigir o “Passe Sanitário” para se frequentar restaurantes, cinemas e museus, o que levaria à segregação do grupo que optou por não se vacinar.

Sem dúvida, na minha percepção de estrangeira, o que significa pouco informada, o fato de que o presidente defende radicalmente a vacina e que ele é identificado como de centro-direita, leva a que simpatizantes de Marine Le Pen[1], de ultra-direita, tanto quanto outros de gauche, considerem autoritária a posição estatal e se neguem à vacinação.

As estatísticas vêm mostrando, no entanto, que, em que pesem as manifestações que vêm ocorrendo aos sábados (Melun é um pequeno exemplo, porque nas mais importantes cidades francesas, muita gente foi para as ruas), a maior parte dos franceses apoia as medidas do governo, especialmente a obrigatoriedade de máscaras no transporte público e o Passe Sanitário em ambientes fechados.

A orientação para início da vacina em crianças de 5 a 11 anos levanta nova onda de argumentos contrários, mas o aumento do número de contaminados, agora em janeiro, com a variante Omicron, reforça a posição da maioria de que o governo está certo. O fato é que a Assembleia Nacional, mesmo depois de várias emendas e de amenizar as exigências, em alguns pontos, consegue manter a linha de ação do governo. Mesmo em pequenos cafés ou bistrôs em que entramos, o passe é solicitado e registrado pelos garçons por meio de um leitor ótico.

O registro principal é que, mesmo em Melun, tão distante de Paris, há um pouco da metrópole e muito da sociedade francesa e seu apreço às liberdades individuais.

Carminha Beltrão

Paris, 17 de janeiro de 2022


[1] “Marion Anne Perrine Le Pen, mais conhecida como Marine Le Pen (Neuilly-sur-SeineAltos do Sena5 de agosto de 1968), é uma advogada e política de extrema-direita da França. Deputada do Parlamento Europeu de 2004 a 2017, foi eleita presidente da Frente Nacional em 16 de janeiro de 2011, em substituição a seu pai, Jean-Marie Le Pen. Nos últimos anos vem impondo-se na vida política, obtendo recordes de audiência na televisão, com um talento oratório que faz recordar o de seu pai. Seu pai, em 2002, conseguiu chegar ao segundo turno junto com Jacques Chirac. Com esta finalidade, Marine Le Pen adotou temas ligados ao sucesso de seu pai: oposição à imigração, retorno da pena de morte e denúncia da “casta política” e dos “eurocratas” de Bruxelas. Assim como o pai, gosta das frases trabalhadas e de provocar. Recentemente, comparou a ocupação nazista às rezas dos muçulmanos nas ruas, por falta de locais de oração. Seus discursos contra os muçulmanos são semelhantes a posições defendidas pela direita populista e a direita em outros países europeus, como SuíçaPolônia e Holanda.” Extraído de https://pt.wikipedia.org/wiki/Marine_Le_Pen.

Um comentário em “Diário de Paris. Experiência 4. A metrópole e a polêmica da vacina.

  1. Olá Carminha

    Parabéns por mais este exemplar e esclarecedor relato. Muito pertinente com o momento atual.
    Fico no aguardo dos próximos. Muito obrigado.

Deixar mensagem para MESSIAS MODESTO DOS PASSOS Cancelar resposta