Diário de Paris. Experiência 5. Les cafés

Se há alguma coisa que é muito parisiense são seus cafés (pronuncia-se cafê). Podemos mesmo dizer que, sem as centenas de cafés que a cidade tem, ela seria outra completamente diferente.

Os cafés parisienses são tão especiais e diversos que é até difícil escrever sobre eles de maneira precisa. Depois de alguma experiência por aqui, ainda não consegui distingui-los, por isso toda explicação que eu der é apenas um esforço de aproximação.

Vamos começar pelos cafés que são restaurantes: servem refeições completas das mais simples às mais sofisticadas. Exceção feita aos muito chiques, todos oferecem uma formule, composta geralmente por três pratos (entrada, prato principal e sobremesa) acompanhada de uma taça de vinho ou um café (olha ele aí), englobados num preço único, que atualmente varia de 18 a 50 euros mais ou menos.

Nos mais chiques de Paris, o horário mais concorrido é o da tarde, onde vários casais, pequenos grupos de amigos e amigas, ou gente sozinha senta-se para tomar um chá ou outra bebida quente, conversar um pouco ou ler um livro (aumenta o número dos que ficam só nas redes sociais pelo celular – inclusive eu).

Nessa categoria – cafés que são também restaurantes – o mais famoso, talvez, seja o Café de La Paix, que fica pertinho da Ópera Garnier, a mais tradicional e imponente de Paris. Ele abriu suas portas em 1862 e está instalado no térreo de uma edificação estilo arquitetônico Napoleão III. Li isso num dos inúmeros sites que fazem referência aos principais cafés de Paris, mas em seguida quis aprender quais são as características desse estilo e não achei nada muito elucidativo. Você deve estar perguntando por que escrevo, então, essa informação e tenho que te dizer que nem sei a razão.

No site do Café de La Paix tem a informação de que o preço médio da refeição é 70 euros. Bastante, mas menos do que os restaurantes mais caros do Brasil, embora a decoração interna mostre que é um ambiente bem especial. Sobre a comida: nunca experimentei! Para não dizer que nunca pus os pés nele, tomamos um café há certo tempo atrás com um casal amigo, antes de assistirmos um balé no L’Opéra.

O Café de Flore é outro bem badalado na categoria ‘caféqueétambémrestaurante’. Por sua localização, no Boulevard Saint Germain, nas proximidades da Sorbonne, era o café dos intelectuais, mas fico com a impressão que, hoje, ele é muito mais o café dos turistas.

Também é antigo (1884), mas lendo um pouco sobre sua história, fiquei sabendo que nos primeiros 50 anos sua reputação não era das melhores, visto que tanto radicais de esquerda como de direita gostavam de debater suas ideias aí e nem sempre os ânimos ficavam sob controle. Mesmo assim, havia quem fizesse pose para uma foto especial na frente dele.

Dentre seus mais famosos frequentadores da metade do seculo XX estão os existencialistas – o casal Sartre e Simone de Beauvoir, Albert Camus, Raymond Aron e Mauricie Merleau-Ponty. Com a produção bibliográfica desse quarteto e a feita posteriormente a partir deles e sobre eles daria para se preencher muitos metros de estantes e já foram escritas dezenas de teses e feitos centenas de debates.

O Café Deux Magots aparece também em várias listas, principalmente quando o objetivo delas é dar dicas aos turistas. Tem suas tradições como os outros dois citados, porque data de 1888, mas os preços são mais módicos (https://menuonline.fr/deux-magots).

Estivemos nele uma vez em 1995, para um café com um amiga brasileira. Aqui e ali ouvíamos conterrâneos conversando porque, naquela época, nossa moeda estava bem forte. Em um dado momento, apreciando aquele café em ambiente tão famoso, vimos dois jovens brasileiros levantarem, falando alto e se movimentando em direção a uma mesa mais discreta no fundo. Lá estava Jô Soares que olhou para os dois, quando eles lhe pediram um autógrafo, baixou a cabeça, resmungou alguma coisa e continuou a ler alguma coisa como se não fosse com ele. Era bem a época do Programa Jô Onze e Meia e eu fiquei decepcionada com a falta de simpatia dele. Hoje, distante daquela situação, fico pensando quantas vezes brasileiros devem pará-lo, em vários cantos do mundo, para lhe pedir um autógrafo e concluo que ele tem direito de negar de vez em quando. Muito recentemente li o livro do Jô – uma autobiografia desautorizada (volume 1) e adorei: passou aquela lembrança sobre uma suposta falta de educação dele. Adoro essa foto dele que está na capa do livro.

Os cafés brasseries formam um segundo grupo. Estão por toda cidade e, se estou observando bem, presentes em maior número quanto mais se anda em direção à periferia perisiense ou de sua região metropolitana. Neles são servidas especialmente bebidas, com ênfase nas alcóolicas. No que se refere à alimentação, o foco são as pequenas refeições, disponíveis em cardápios ou cartazes com poucas opções.

Os cafés brasseries estão por todo lado, perto das estações de metrô ou dos pontos de ônibus, nos endereços mais e menos turísticos, em todos os bairros e quase sempre na esquina mais próxima. Caracterizam-se por permanecer abertos um grande número de horas durante o dia. Muitas vezes têm, na fachada virada para a rua, uma banca que vende frutos do mar.

Ao tentar me informar sobre as principais características dessas várias categorias de estabelecimentos, encontrei uma artigo apresentando as diferenças entre cafés, brasseries e bistrôs[1]. Entre as brasseries, que também servem cafés, a mais famosa é a Brasserie Lipp, cujo proprietário Claude Guittar explica que o nome se deve ao fato, de que, no século XIX e começo do XX, fabricava-se cerveja nesses estabelecimento, pois essa bebida começava, então, a se popularizar na França. A Lipp é de 1880 e mantém o mobiliário original. Vejam que ela não pertence à categoria das brasseries populares que são a maioria e o mesmo observo em relação à Bouillion Chartier, também famosa e do final do século XIX.

Na foto da Lipp, os dois cartazes mostram que aspectos que associamos ao que se chamou no passado de Terceiro Mundo, estão por todo lado: um informa que a brasserie não se responsabiliza por vestimentas e objetos deixados no vestiário (espaço logo na entrada dos cafés onde se penduram casacos, guarda chuvas, cachecóis e outros apetrechos) e não se aceitam cheques!

Para fechar o grupo dos cafés brasseries, nada melhor do que fazer referência ao Le Procope, o mais antigo em funcionamento em Paris e, como seu próprio nome diz, é também um restaurante. Na foto pode se ver que ele vende frutos do mar e frutas, o que mostra que as divisões são meramente informativas da origem dos estabelecimentos e não do que são hoje.

Ele é de 1686 e entre seus ilustres frequentadores das primeiras décadas estavam Rousseau, Diderot e Verlaine. Comemorei um dos aniversários de meu casamento nele e fiquei, na ocasião, sensibilizada de imaginar que naquelas cadeiras e mesas também houve debates homéricos sobre o sentido da Revolução Francesa.

Um terceiro grupo, por fim, são os café tabac, que além de servir bebidas alcóolicas e não alcóolicas e algum tipo de lanche rápido, vendem também jornais, revistas, cigarros, charutos, fumo para cachimbo, jogos de loteria e até, pela experiência mais recente, recebem um primeiro depósito em contas de bancos virtuais. Para ser um café tabac, é preciso ter autorização governamental e, na França toda, há mais de 13 mil desses estabelecimentos.

Fonte: https://asialyst.com/fr/2016/02/17/les-chinois-font-un-tabac-quand-les-wenhzou-passent-derriere-le-comptoir-des-pmu-parisiens/

Com mais de 130 anos o Café Tabac Cuivre, hoje, está separado em dois estabelecimentos, mas continua na Place Gambetta.

Os franceses estão preocupados com o fato de que grande parte dos tradicionais cafés tabacs de Paris estão hoje nas mãos de imigrantes chineses[1], como aliás ocorre com mercearias e até algumas padarias que também têm sido compradas por imigrantes, às vezes paquistaneses, às vezes indianos, coreanos etc. O fato é que esses estabelecimentos que ficam abertos muitas horas no dia, de segunda a domingo, hoje, se adequam mais às jornadas de trabalho que esses grupos estão dispostos a fazer do que aos franceses, com suas semanas curtas e tendência a seis horas de trabalho ao dia, com finais de semana livres.

Nas mãos de franceses ou estrangeiros, os cafés são formados por uma mescla de funções (e eu nem falei dos cafés bistrôs – ou bistrots) e dificilmente encontramos um estabelecimento que é apenas um café mesmo.

O que interessa é o significado deles na vida cotidiana da cidade, de seus moradores e visitantes. Os cafés são frequentados em todos os horários do dia e em todos os dias da semana. Há aqueles que já começam sua jornada diária num café, tomando um expresso ou um chocolate acompanhado de um delicioso croissant. Alguns farão uma pausa no meio da manhã, para um segundo café ou, se o frio estiver pesado, para um conhaque ou um calvados. Há os que entram no café ao sair do trabalho ou do metrô, os que chegam de bicicleta ou a pé, os que tomarão um copo de vinho ou de cerveja, depois do trabalho. Há os aposentados, já os cheios de trabalho e os que ainda não têm empregos. Todo mundo, no docorrer de um dia ou de uma semana, vai entrar num café, nem que seja porque apertou a vontade de fazer pipi e pagar por uma água ou um drink para ter acesso ao banheiro é a solução.


Classificados num ou noutro grupo, os cafés, além de uma “história” especial, têm sua “geografia” própria. Muitos são compostos de um salão mais reservado e interno ao estabelecimento, onde só podem permanecer os que vão fazer refeições completas; há com frequência uma ala envidraçada, onde ficam os que vão comer ou beber alguma coisa, mas querem conversar, por isso, no geral as cadeiras são dispostas em volta das mesas, umas de frente para as outras; e o melhor acontece quando os café invadem as calçadas e essa parte merece análises particulares. As cadeiras estão sempre dispostas duas para cada mesa, viradas para a rua. Até tem casais que se sentam ali, mas é mais comum gente que está sozinha.

Não importa se faz frio ou calor, embora no verão essas mesas sejam as mais disputadas; não interessa se, para ficar 5 minutos ou passar três horas, o que é comum aqui mesmo que se peça apenas um café; tanto faz se é para bater papo ou ficar calado, ler um livro ou fumar um cigarro.

Numa situação ou noutra, o objetivo é passar um tempo observando a vida: e tem coisa melhor do que ficar olhando Paris?

Carminha Beltrão

Paris, 23 de janeiro de 2022


[1][1] https://madame.lefigaro.fr/cuisine/quelles-sont-les-differences-entre-brasserie-bistrot-et-cafe-160519-165104.

As fotos sem fonte foram registradas por mim.

4 comentários em “Diário de Paris. Experiência 5. Les cafés

  1. Carminha

    Ótimo!!! Lendo o seu relato, andei um pouco por Paris!
    Muito obrigado por mais esta relevante contribuição!

    abraço… e um bom café (parisiense)

  2. Ao ler, tenho a impressão de estar conversando com você. Adoro isso. Muito bom, além de conhecer um pouquinho sobre “cafês” parisienses. Forte abraço

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