Diário de Paris. Experiência 7. Uma metrópole cosmopolita?

Fonte: http://arpenpe.org/?p=5130

Desde o século XX, o fato metropolitano passou a alterar o mundo urbano, em vários países, tornando as grandes cidades ambientes com maior complexidade e propiciando aos seus moradores visões de mundo e modos de vida que não tinham sido experimentados antes.

Compreender este tipo de espaço e suas particularidades passou a ser um desafio difícil de ser enfrentado, tanto pela Sociedade, de um modo geral, como pelos pesquisadores. Muito tem se escrito sobre as metrópoles – livros, artigos, teses, dissertações, inclusive matérias na grande e na pequena mída -, mas fazendo um balanço ainda precisamos avançar mais.

Sobre algumas características, que se associam às metrópoles,  há consensos: a ideia de anonimato, a de diversidade cultural, aquela afeita à amplitude da vida política, além da constatação que oferecem oportunidades econômicas, mas impõem dificuldades cotididianas.

Às “mais mais” do mundo – Nova York, Paris, Londres, Tokyo – associa-se o cosmopolitismo metropolitano e mesmo na periferia do capitalismo, como em São Paulo ou na Cidade do México, ondas e ondas de imigrantes aportam novas formas de estar e se comportar, obrigando os “autóctones” a se defrontar com o diferente, o que deveria favorecer a construção de uma perspectiva plural de mundo.

No entanto, pensando bem, essa construção nem sempre se faz de modo efetivamente cosmopolita. Quando procuramos esta palavra nos dicionários, encontramos dois significados principais – 1) ideal daqueles que veem o mundo inteiro como sua pátria; 2) comportamento dos que se abrem a culturas diferentes daquela de seu país.

Lendo textos científicos, observando o cotidiano urbano de espaços metropolitanos ou simplesmente acompanhando notícias divulgadas pela mídia, amplia-se a frequência de atos de intolerância, algumas vezes expressos como violência, bem como múltiplas formas de estigmatização e tendência a buscar a separação social e espacial, justamente quando a globalização, cantada como o fim das barreiras nacionais, ou o cosmopolitismo, visto como oportunidade de conhecer e reconhecer o outro, deveria nos levar à direção oposta.

As migrações internacionais que sempre estiveram presentes na vida francesa, intensificaram-se muito nas últimas décadas, tendo se alterado a composição demográfica da França e, especialmente, da região metropolitana de Paris, maior bacia de empregos do país, o que, às vezes, remete à ideia de uma verdadeira Torre de Babel.

A “Pequena” Torre de Babel, de Pieter Bruegel O Velho, 1563, hoje no Museu Boijmans Van Beuningen. Extraído de: https://www.wikiart.org/pt/pieter-bruegel-o-velho/a-pequena-torre-de-babel-1563

Hoje a proporção de imigrandes e descendentes é crescente, comparativamente àquela parte que se auto-considera “os franceses”, embora isso também pudesse ser colocado em questão, afinal desde os romanos as trocas internacionais e a miscigenação torna difícil reconhecer tipos nacionais “puros” (para brincar, acrescento que, a não ser nas manias, é claro). Os dados relativos à população que vive na França, segundo o lugar de nascimento e nacionalidade, em 2020, são emblemáticos. Dos 67 milhões que moram neste país, 6,8 milhões são imigrantes, sendo que, dentre estes, 2,5 milhões já se naturalizaram. Há 800 mil que nasceram na França, mas como são filhos de estrangeiros não tem nacionalidade deste país, compondo um total de mais de 5 milhões que tem o estatuto de estrangeiros (vejam o gráfico da direita).

Fonte : Insee, estimations de population.

Essa composição demográfica tem significados políticos e socioespaciais muito particulares. Para um brasileiro, talvez seja difícil supor a situação de alguém que nasce num país e não tem direito à sua nacionalidade, mas na França, como algures, é a ascendência que define esse direito, embora os estrangeiros, nascidos aqui ou não, possam alcançar esse estatuto também, depois de maiores de idade, se cumprirem certas exigências (e bota exigência nisso).

O que quero registrar é que se continua a ser um estrangeiro por muito tempo, mesmo quando já não se deseja mais ser reconhecido como tal, quando as saudades da terra natal se dissiparam, ou mesmo quando não se tem a identidade do outro país, por nunca ter vivido fora da França ou por ter vindo muito pequeno para cá.

É essa tendência, a de aumento de estrangeiros, que tem levado, nas últimas décadas, a dinâmicas de encrustamento de grupos étnicos em algumas cidades da região metropolitana bem como em bairros ou setores da sua cidade principal.

Isso revela que aqui, como por todo lado, o cosmopolitanismo não pode ser pensado a não ser como devir, inclusive em função dos retrocessos recentes, como mostra o debate eleitoral na França, em que as simpatias por um ou outro candidato são fortemente influenciadas por suas posições favoráveis ou não ao acolhimento social dos imigrantes em situação social difícil.

As barreiras políticas são resconstruídas como barreiras espaciais.

Paris é uma cidade com grande harmonia arquitetônica, alcançada desde o século XIX, quando as leis de urbanismo hausmmaniano começaram a delinear um perfil para a paisagem urbana da Paris metropolitana. A altura máxima era então 37 metros, o que equivalia a seis andares, em média. Isso garantia que, nos boulevards, a altura dos prédios correspondesse à largura das avenidas, o que possibilitava iluminação e ventilação.

Fonte: https://www.conexaoparis.com.br/paris-deve-contruir-torres-ou-nao/

Nas últimas décadas, tem sido recebida, de forma polêmica,  a tendência à construção de torres muito altas na cidade. Em 2005, o prefeito fez uma enquete, entre os parisienses, e 69% responderam que era contrários a edificações muito altas.

Mesmo assim, várias torres já tinham sido erguidas e outras continuaram a crescer, em La Défense (a oeste de Paris) ou mesmo no 13º. arrondissement. Quer saber o que é um arrondissement? Veja o mapa e observe que são os setores de organização espacial de Paris, adotados até pelos moradores para identificar onde moram, muitas vezes, mais do que o próprio nome do bairro.

http://expressoparis.com/entenda-os-arrondissements-de-paris/

Entre a Porte de Ivry e a Porte de Choisy, ao sul de Paris (Rive Gauche do Sena), justamente no seu 13º. arrondisement, como ia começar a explicar, estão os chineses, no Quartier Asiatique (bairro asiático) ou na Chinatown francesa, como alguns preferem. Atualmente, eles também  predominam em Beleville, na Rive Droite do Sena. Dessas duas áreas se afastam os “franceses”. 

O 13º. arrondisement concentra vários edifícios muito altos, pouco apreciados pelos nativos, desde a contrução deles, razão pela qual quando opaís teve que receber exilados vietnamitas, em decorrência da Guerra do Vietnã, essa área foi a escolhida para abrigá-los, o que nucleou esse setor chamado de asiático. Impressiona muito a alteração da paisagem de quem olhar para o sul, a partir do centro, havendo no primeiro plano, a Paris haussmaniana, depois as primeiras torres, e mais ao fundo, as mais elevados que já estão próximas à “cintura de Paris” como são chamados seus limites, demarcados pela via rápida periférica, que cerca a cidade e a separa não apenas administrativamente, mas no plano das representações sociais, do restante da região metropolitana.

Fonte: https://www.lepoint.fr/societe/une-elue-du-13e-arrondissement-dans-un-logement-de-la-ville-de-paris

Fonte: https://vontadedeviajar.com/chinatown-de-paris/

Além do bairro oferecer muitas opções para se degustar a comida dessa parte da Ásia (veja as opções em https://www.parismania.com.br/roteiros-bairros-e-ruas-de-paris/bairro-chines-em-paris), há os ocidentais que se dobram à lingua da maior potência econômica dos nossos dias, como mostra a fachada do MacDonad’s. Já experimentamos o Tricotin e o Hao Hao e gostamos mais deste segundo, embora, como 98% dos restaurantes na França, ele seja super apertado.

O bairro asiático também é particularizado pela arte de rua que levou, para esse setor da cidade, as galerias voltadas à divulgação de artistas pop e contemporâneos. Os grandes murais aliviam a paisagem de concreto e vidro que predomina no 13º. e atraem nosso olhar, desviando-se da tendência de olhar para dezenas e dezenas de janelas, que correspondem a pequenos apartamentos onde deve morar muita gente.

Fonte: https://itinerrance.fr/inauguration-du-projet-boulevard-paris-13/

Fonte: https://itinerrance.fr/inauguration-du-projet-boulevard-paris-13/

Fonte: https://district13artfair.com/le-13eme-arrondissement-un-musee-a-ciel-ouvert-a-paris/

Ao norte do Sena, conhecida como um pedacinho da África em Paris, está a área do Château Rouge, não muito longe do famoso Moulin Rouge, antes cabaré hoje sala de espetáculos. Ali está a Rua Goutte d’Or e o grande mercado africano, chamado Dejean.

Fonte: http://fonte192.blogspot.com/2014/07/um-pedacinho-da-africa-em-paris.html

Esse pedacinho da cidade pode ser qualificado, como diria uma grande amiga nossa, como “exotique”, tanto assim que ele vem sendo objeto até de ações da parte da Semaest, uma entidade voltada à organização e animação dos bairros, com base em seu comércio de proximidade, neste caso, favorecendo o artesanato, as atividades inovadoras e étnicas, visando a melhoria de vida de seus moradores

Fonte: https://www.semaest.fr/fileadmin/webmaster-fichiers/actualites/parcours-proximite-semaest-chateau-rouge-paris-18.pdf

São os jovens os responsáveis, pelo que posso observar, pela construção de novas identidades, a partir da condição decorrente do processo de imigração e da aceitação sempre inconclusa do imigrante na realidade francesa. Eles fazem isso, combinando elementos tradicionais com modernos, o que inclui a influência estadunidense na jovem moda africana, o que é divulgada nas redes sociais dos moradores do Château Rouge.

Fonte: https://www.facebook.com/maisonchateaurouge/photos/a.1691488884419140/2797324523835565

Fonte: https://www.lemondeduwax.com/collection-exclusive-jordan-x-la-maison-chateau-rouge-en-novembre-2019/

Fonte: https://www.lemondeduwax.com/collection-exclusive-jordan-x-la-maison-chateau-rouge-en-novembre-2019/

Andando pelo Boulevard Barbès, em Paris, parece que estamos em outros lugares do mundo: lojas  com tecidos africanos, outras com saris indianas ou com hijabs muçulmanas. Aqui e ali vitrines com muitas jóais, algumas verdadeiras outras nem tanto, lojas de instituições que remetem dinheiro para o exterior, como a Western Union ou a Wise, além de muita comida apimentada. Gente, muita gente!

Tudo isso está misturado ao barulho das ruas, mostrando que a discrição parisiense caiu por terra e todo mundo se comporta como um estrangeiro que ali, ao menos, está em casa, mesmo longe de suas origens.

Fonte: https://www.pinterest.fr/pin/385268943115881711/

São muitas as transformações vividas por esse bairro, desde que se iniciou a tendência à concentração de imigrantes. No lugar de lojas tradicionais da Paris da primeira metade do século XX, funcionou durante mais de 70 anos, uma dos magazines mais populareas de Paris – a Tati – que fechou as portas durante a pandemia, em 2020, e cujo público de consumidores principal eram os imigrantes, ainda que uma ou outra francesa metida a chique frequentasse esse espaço (sempre de óculos escuros é claro). Quando morei em Paris, em 1995, estive mais de uma vez por aí, com uma super amiga do peito, para comprar uma toalha de mesa, uns pares de meias e algum utensílio kitsch que foram, na época, de muita valia.

No antigo cinema, onde antes se via dois filmes com apenas um ingresso (é fácil imaginar que tipo de filme era projetado), improvisou-se, recentemente uma feira de “soldes”, tornando no mínimo insólita a cena – cortinas de veludo vermelho, adornos e brasões dourados para vender pares de tênis por dez euros.

Em maio de 2021, dezenas de muçulmanos nos arredores da rue Barbès se manifestaram contra o bombardeio israelense na Faixa de Gaza e foram de perto observados pela polícia, que resolveu acabar com a “bagunça”.

Fonte: https://actu.fr/ile-de-france/paris_75056/videos-la-manifestation-pour-la-palestine-dispersee-par-la-police-a-paris-heurts-autour-de-barbes_41873524.html

Na estação Barbès-Rochecouart  do Metrô, sempre plena de gente, a presença deles é frequente, justificada pela necessidade de combater os vendedores ambulantes de cigarro contrabandeado ou de matéria prima para outros cigarros. No entanto, sabemos todos, que venda ilegal de cigarros e de drogas tem por todo lado e, neste caso, o que influencia a ostensividade da presença policial é o próprio bairro.  Como pude presenciar no último sábado, é inadequada a forma como a abordagem é feita, bem como a revista em alguns jovens muçulmanos.

Esse quadro de diferenças culturais, que se tornam políticas, no sentido de direitos restringidos para os imigrantes, tem sua face socioeconômica, é claro. O mapa das rendas salariais médias em Paris mostra que os estratos socioeconômicos menos favorecidos estão no norte, fora dos limites municipais, mas como um vetor de expansão a partir dos 18º., 19º. e 20º. arrondissements, onde estão Château Rouge, Barbès e Belleville. Além dos limites, estão Saint-Denis, Bagnolet, Montreuil, cidades da região metropolitana, nas quais também a população imigrante se aloja. A situação do bairro asiático, no 13º. é um pouco melhor.

Fonte: https://www.wikiwand.com/pt/Paris

Entre diferenças e desigualdades, ainda falta muito para essas mãos se apertarem.

Fonte: https://www.maesmundoafora.com/direito-leis-e-documentacao-mundo-afora

Carminha Beltrão

21 de fevereiro de 2022.

4 comentários em “Diário de Paris. Experiência 7. Uma metrópole cosmopolita?

  1. Caríssima Carminha

    Muito bom, objetivo e bem ilustrado esse seu “artigo”. Parabéns!!! E muito obrigado, pela oportunidade que me deu de ler…

  2. Querida Carminha, agradeço mais uma oportunidade de ler e aprender com seus preciosos textos. Não sendo da área e muito menos não tendo a amplitude do seu conhecimento, provavelmente perco parte do alcance da sua tese.
    Contudo, durante a leitura sobre a presença e ocupação do espaco físico parisiense pelas diferentes etnias refugiadas ou não, populações em massa que tiveram que fugir de seus países, tanto por causa da pobreza quanto por questões políticas, vários sentimentos se misturaram, considerando a minha particular situação de descendente direta de imigrantes japoneses, nascida e envelhecida no nosso Brasil.
    Felizmente, nunca me senti sem Pátria definida, quando nasci as restricões oficiais, impostas pelo governo brasileiro aos imigrantes Aliados e aos seus descendentes, já tinham sido abolidas, mesmo que algumas situações de constrangimento entre imigrantes e o povo brasileiro, tenham perdurado por bom tempo. E olha que povo brasileiro puro não há, não é?
    Mas, tanto cá quanto em qualquer lugar do mundo, creio que o que há, de fato, mais do que o preconceito da cor é o preconceito pelo pobre. Infelizmente, para os negros a situação é muito mais triste.

    Nessa mistura de sentimentos também vivenciei minha própria intolerância em relação aos coreanos e chineses, quando estes aqui se amontoaram nessas últimas décadas. Barulhentos nas suas conversas e folgados e invasivos nas suas ações, principalmente nos locais públicos, incomodam e não percebem, porque assim estão acostumados nas suas origens. A minha intolerância a eles se deveu muito porque nós descendentes de japoneses somos muitas vezes com eles confundidos. E o mais grave nessa situação é a difundida prática, mesmo que não generalizada, do contrabando.
    O Bairro da Liberdade na cidade de São Paulo, que era tipicamente ‘de japoneses’, atualmente é um bairro ‘exótico’ de asiáticos, mormente se coreanos e chineses. 
    O que nós, e os nativos de qualquer País que acolhe, esquecemos, é que os imigrantes, especialmente os não políticos, são pessoas de baixo nível sócio cultural. 
    Quem de nós brasileiros, em viagens a países de primeiro mundo, não se ‘envergonhou’ ao ver brasileiros imigrantes ou não, barulhentos e desrespeitosos, do ponto de vista do mundo atual?  
    A resistência ao diferente sempre existiu entre os povos, me chamava a atenção os relatos, em livros e filmes, da repugnância velada que tinham os japoneses pelos mercadores portugueses malcheirosos, lá no final do século 15, mesmo que esses próprios japoneses fossem pobres de marré-de-si, mas, culturalmente, se banhavam com frequência. 

    Desculpe, me estendi demais!

    Tenha ótimo evento na próxima sexta-feira, antevejo o grande sucesso! 

    Abraço com saudade.

    Enviado do meu Galaxy

    1. Tereza, sou em quem agradeço seus comentários e, sobretudo, seu depoimento. Acho que você expressou algo muito importante, relativo ao fato de que nossa visão sobre imigrantes foge do plano da razão e se mistura com muitas formas de construção tanto de representações como de estigmas. Não imagine que eu entendo do tema, de jeito algum, afinal nesse blog não estou tratando dos meus temas de pesquisa, mas registrando impressões, observações, algumas ideias que elaboro sobre minhas vivências. Hoje, na Geografia, vem voltado à pauta do debate o tema das migrações, que havia sido meio esquecido e por isso mais tratado pela Demografia, que tem um aporte mais estatístico. Enfim, daria muito pano para manga esse tema. Obrigada pela leitura.

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