Milão – Parecida com São Paulo, mas diferente

Muitas vezes ouvi falar que Milão era a São Paulo da Itália. A comparação faz algum sentido, porque ambas são economicamente as mais importantes em seus países. Por outro lado, a minha primeira visita a essa cidade me diz que ela, também, é bem diferente da maior metrópole ao sul do Equador.

Ok, todos sabemos que ambas são cidades moldadas, no século XX, por um amplo processo de industrialização do tipo fordista. Também é verdade que se espraiam conformando uma grande mancha urbana metropolitana. No entanto, as formações socioespaciais que as engendraram são tão diferentes que o que poderia ser semelhança, pode também ser visto como diferença, ou colocando em outros termos: Se ambas são cidades industriais e importantes economicamente, por que não são mais parecidas?

Não sei. Precisaria ter um programa de estudos e pesquisa para arranhar alguma explicação melhor fundamentada, mas não custa, num diário de viagem que não tem compromisso científico, registrar minhas observações.

Milão é nome, ao mesmo tempo, de uma comuna de um milhão e quatrocentos mil habitantes, de uma área urbana com população de quatro milhões e trezentos mil habitantes e de uma região metropolitana que, pelas estimativas da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), deve ultrapassar os sete milhões de habitantes.

A região metropolitana de São Paulo está chegando aos 23 milhões de habitantes, dos quais mais de 12 milhões vivem na cidade principal. Assim, a magnitude demográfica, em que pese ambas serem grandiosas, não é propriamente comparável.

No entanto, as duas aproximam-se no número de cidades que compõem a mancha metropolitana – a de São Paulo tem 39 sedes de municípios e a de Milão tem 40.

A extensão de seus tecidos urbanos é, por outro lado, bastante díspar – a área metropolitana de Milão tem 1.621 km2 e a de São Paulo 7.944 km2.

Fonte: Google Maps

Todavia, esses números querem dizer pouca coisa, todavia, se queremos entender a ‘alma’ dessas cidades [eu sei, caro leitor, que cidades não têm alma, aliás, nem sei se pessoas têm alma, quanto mais as cidades, mas uma figura de linguagem, às vezes, ajuda não é mesmo?].

Fundada pelos celtas, provavelmente por volta de 400 a.C. Milão foi dominada pelos romanos por volta de 200 a.C. que lhe deram o nome de Mediolanum (que significa no meio da planície). Quando ocorreu a divisão do Império Romano, ela se tornou a capital da porção oriente do império.  Cresceu nos séculos subsequentes e chegou a ser ter uma muralha extensa e uma estrutura urbana complexa antes de ser a grande capital industrial que é hoje. A planta que se segue, cuja data não está registrada no site de onde a extraí, mostra um pouco da grandeza que terá alcançado no passado, pela extensão da muralha que a cerca e pela densidade de ocupação que se depreende do grande número de edificações.

Fonte: https://blog.cavezzale.com/milao-tudo-o-que-voce-precisa-saber/

A segunda metade do segundo milênio depois de Cristo foi conturbada para Milão, que esteve sob vários domínios: o espanhol em 1500, o austríaco em 1700, além de ser ocupada por Napoleão I em 1796, que a declarou capital do Reino da Itália em 1805.

Aqui, aproveito para um parêntese. Napoleão, em Paris, encomendou ao grande arquiteto e escultor Antonio Canova que fizesse uma estátua sua. Parece que ele teria preferido uma imagem que o associaria a um guerreiro, mas o grande artista preferiu passar a ideia de um “Marte Pacificador”, que carrega na mão direita o “mundo”.  A majestosa escultura é conhecida como o “traseiro” mais bonito de Milão (fonte: https://www.facebook.com/Milao.nas.maos/posts/ 534608799950700/), o que não seria exagero porque pude constatar a beleza das formas moldadas, mas Bonaporte não gostou do resultado do trabalho de Canova e a obra ficou meio esquecida nos porões do Louvre, foi depois apossada por quem o venceu em Waterloo. A versão que está em Milão é uma das cinco cópias feitas pelo próprio Canova. Foi ela que hoje vi exposta na Pinacoteca di Brera (aliás, uma visita imperdível para quem vem a Milão). A original está em Londres.

Fonte da imagem: https://historia-arte.com/obras/napoleon-como-marte-pacificador

Impressiona muito sua imponência, dada pelos de mais de 3 metros de altura, pela altivez da postura e pela perfeição dos detalhes, mas digamos que não corresponde em nada a outras representações de Napoleão, que nem era alto, nem tinha um corpo tão parecido com o de David de Michelângelo. Observa, leitor, como ele está bonitão na estátua, e não se parece nem um pouco com a pintura que Paul Delaroche fez dele em 1845, em que a baixa estatura e a barriguinha se destacam.

Fonte: https://guiadoestudante.abril.com.br/estudo/conheca-10-fatos-sobre-a-vida-de-napoleao-bonaparte/

Fechando o parêntese que nos faz refletir sobre o que o poder propicia a alguém, voltamos a alguns aspectos sobre Milão e não é demais lembrar que, mesmo sendo apenas a capital da Lombardia, norte da Itália, rivaliza com a capital do país, Roma. Ainda que perca para ela no que concerne à população, é mais importante economicamente. Seu crescimento industrial levou-a ao patamar de cidade mais desenvolvida do país, na segunda metade do século XX, após o difícil período da segunda guerra mundial, quando foi bombardeada gravemente.

Em função desse movimento de industrialização, ampliaram-se as oposições entre o norte e o sul da Itália, este, considerado “conservador e atrasado”.  Sem dúvida, a chegada de imigrantes estrangeiros e das regiões mais pobres do país propiciou o crescimento do mercado de consumo e reforçou a tendência de progresso material e social.  O PIB per capita de Milão é 1,6 vez maior que o média da União Européia e é por isso, também, uma cidade muito cara para seus moradores e para os turistas.

Se foi a atividade industrial que a notabilizou no pós-guerra, hoje a grande metrópole é mais identificada como centro financeiro e de inovação na moda e no design.

São Paulo, de outro lado, completará daqui a trinta e poucos anos, cinco séculos de vida, portanto as camadas de história que a compõem são menos densas que as de Milão. Não há dúvida que a influência da imigração, tanto as correntes desenhadas pelos que vieram do nordeste do Brasil, como as de estrangeiros, revelam similitude com a situação de Milão no século XX, razão pela qual as duas são caracterizadas, do ponto de vista social e cultural, como cosmopolitas.

Também São Paulo é, hoje, mais um centro financeiro do que apenas industrial. Se olhamos os rankings das principais bolsas de valores do mundo, a de São Paulo aparece, ora em 8º lugar (https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_bolsas_ devalores), ora em 19º. (https://vocesa.abril.com.br/mercado-financeiro/qual-e-a-capitalizacao-de-mercado-das-10-maiores-bolsas-do-mundo/). Não dá para confiar muito, mas como  Bolsa a de Milão não compõe a importante tríade europeia (Paris, Londres, Frankfurt) e nem aparece nessas classificações internacionais, São Paulo ocupa posição mais importante neste quesito, inclusive por ser definida como a cidade global mais importante do Hemisfério Sul.

Pode-se concluir, muito superficialmente, que São Paulo foi, em muitos aspectos, mais célere que Milão, porque cresceu e alcançou indicadores bastante positivos, no cenário nacional e internacional, em menos tempo de vida. Entretanto, é andando pelas ruas em Milão que se aquilata o avesso do crescimento paulistano. As desigualdades lá são menores, sem dúvida, e isso não tem rebatimento apenas na vida econômica, mas se reflete na vida social, política e cultural.

Em Milão há pobres, é claro, porque, com a globalização, inclusive, eles andam por todo lado em busca de trabalho e compõem a face nova do chamado “Primeiro Mundo”. Vi, aqui e ali, gente pedindo esmolas, mas em número menor e situações de rua bem menos precárias do que aquelas observadas em São Paulo, onde atualmente moram cerca de 48 mil pessoas em espaços públicos, segundo o Observatório Brasileiro de Políticas Públicas

Também há gente sem trabalho, em Milão, porque a economia flutua, a tecnologia se expande e as pessoas tornam-se descartáveis.

Há decadência em parte do patrimônio arquitetônico da cidade, não obstante haja esforços enormes para a recuperação e manutenção da maior parcela dessa herança fabulosa que os séculos legaram, como se pode ver pelo grande número de fachadas que estão sendo limpas e recuperadas e pela mudança de usos, mas mantença dos principais elementos das construções mais antigas: um palacete residencial de outrora é sede de um banco hoje; edifícios de apartamentos do século XIX adaptam-se para hospedagens modernas, que combinam hotéis com AirBnB; uma mansão com jardins abriga uma fundação que cuida de arte; lojas no térreo dos edifícios mais bonitos são ocupadas por antiquários e boutiques. Nisso ela se distingue de São Paulo, onde vemos edifícios, casas, casarões e palacetes desvalorizados social e culturalmente, tanto no Centro Velho como nos Campos Elíseos, Brás e Bexiga; pouco restou das mansões dos barões do café e primeiros industriais na Avenida Paulista, outras construções sendo demolidas sem qualquer apreço pelo passado da cidade que Caetano Veloso batizou de Sampa.

Para resumir, a diferença entre as duas cidades está, na essência, na intensidade com que as mazelas transparecem na paisagem urbana, sobretudo porque, em Milão, há cultura por todo lado, há vida pública, há encontro entre os diferentes, ainda que as tensões estejam no ar. Esse viver na cidade de Milão esmaece as cores dos problemas urbanos que são, efetivamente, menores e menos profundos que os paulistanos.

Foi maravilhoso ver, em três dias, grupos de estudantes, da pré-escola ao ensino médio, escutando as explicações de seus professores sobre detalhes do patrimônio artístico e arquitetônico da cidade, ou simplesmente dirigindo-se para visitas nos museus de Milão.

As permanências misturam-se bem às transformações em Milão. O metrô se expande, sem que os bondes tenham sido retirados de circulação, como ocorreu em São Paulo.

Termino esse registro sobre Milão, com a maravilhosa tela “O Beijo”, de 1859, pintura de Francesco Hayez, de quem nunca tinha ouvido falar, mas cuja obra, também na Pinacoteca di Brera, me encantou.

Fonte: https://albalu.it/products/il-bacio-francesco-hayez-riproduzione-quadro-su-tela?variant

Carminha Beltrão

Março de 2023

2 comentários em “Milão – Parecida com São Paulo, mas diferente

  1. Caríssima Carminha

    O seu texto tem clarezas, objetiva e subjetiva… e “alma” de uma geografia e de uma geógrafa inquietas: parabéns!!!

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